Os irmãos policiais por trás das duas empresas de segurança armada que cruzam o caminho do Rio Metrópole e do DER

Os irmãos policiais por trás das duas empresas de segurança armada que cruzam o caminho do Rio Metrópole e do DER - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Um é comissário da Polícia Civil e já figurou oficialmente, até 2023, como sócio da empresa que fazia a escolta não oficial do dinheiro desviado do Instituto Rio Metrópole (IRM). O outro é policial militar e dono de uma prestadora de serviço ao Departamento de Estradas de Rodagem (DER-RJ) cujos vigilantes não trabalham armados, embora o contrato com o órgão, de cerca de R$ 14 milhões, seja justamente para segurança armada. O levantamento é do blog Segredos do Crime, que analisou os contratos sociais das duas empresas e encontrou mais uma coincidência: a mesma contadora por trás das duas firmas. Presidente de autarquia do Governo do Estado é preso em operação sobre desvio de R$ 86 milhões Contrato de R$ 14 milhões do DER-RJ previa vigilância armada, mas seguranças não usavam armas De acordo com as investigações do Grupo de Atuação Especializada de Defesa da Integridade e Repressão à Sonegação Fiscal (Gaesf), do Ministério Público do Rio (MPRJ), que atua em conjunto com o presidente interino do Rio Metrópole, o delegado Roberto Leão, o IRM se transformou numa máquina de desvio de dinheiro público. Na primeira fase da Operação Ouroboros, segundo a denúncia apresentada à 1ª Vara Especializada em Organização Criminosa da Capital, o grupo criminoso movimentou R$ 86,28 milhões entre julho de 2022 e maio de 2026, valores retirados de contratos firmados pelo próprio IRM. Com a devassa feita desde então pela auditoria da Controladoria-Geral do Estado, chefiada por Leão, esse total já chegou a R$ 150 milhões. Nesse rastro, chama atenção o grupo RioForte, empresa de segurança que não tem contrato direto com o IRM, mas que a Polícia Civil flagrou escoltando o saque de R$ 3 milhões em espécie de uma agência do Bradesco em Teresópolis, em 9 de janeiro. O valor foi retirado por Caroline Soares Barros, segundo a denúncia do MPRJ, sob a escolta de dois seguranças armados da RioForte. Caroline trabalhava no IRM como fiscal de contratos e, ao mesmo tempo, figurava como sócia do Instituto Bio — entidade que recebeu a verba como pagamento de consultoria de uma outra empresa, essa sim com vínculos contratuais com o IRM. Na investigação, ela ganhou o apelido de "mulher da mala". Delegado Franquis Dias Nepomuceno após ser preso pela Polícia Federal Fabiano Rocha/Agência O Globo O quadro societário da RioForte ajuda a explicar por que a empresa despertou o interesse dos investigadores. De fevereiro a novembro de 2023, os sócios eram o delegado Franquis Dias Nepomuceno — diretor de Desenvolvimento Metropolitano Integrado do IRM — e seu colega de corporação, o comissário Eduardo Alencar e Silva. Com a saída dos dois, ao menos no papel, quem assumiu formalmente a empresa foi o pai de Franquis, Leilson de Souza Nepomuceno. Mas, segundo os investigadores, apesar do nome de Leilson constar no contrato social, quem de fato comandava a RioForte era o próprio Eduardo. Já o controle final sobre a empresa, na visão do Ministério Público, era exercido por Franquis, que se valia da posição de delegado para transitar entre a autarquia e a firma responsável, na prática, pelo transporte do dinheiro desviado. DER-RJ minado: nova gestão encontra órgão sem dinheiro até para capinas e tapa-buraco nas estradas, mas com contratos milionários sob suspeita Ao se aprofundar no caso, a reportagem do GLOBO chegou a uma segunda coincidência, que agora também é apurada pelo MPRJ. Outra empresa de segurança armada, a Brasvip, mantém contrato com o DER , mas seus vigilantes não atuam armados, o que faz o Estado pagar por uma estrutura de segurança que, na prática, não existe. Sócio da Brasvip é o policial militar Marcus Alencar e Silva, irmão do comissário Eduardo. Entre as duas empresas, um dado chamou a atenção da reportagem: RioForte e Brasvip têm a mesma contadora. A corregedoria criada pela nova gestão do DER apura como o contrato com a Brasvip foi celebrado, já que os vigilantes da empresa não atuam armados, apesar de o serviço contratado prever justamente isso. Já a força-tarefa do MPRJ, dentro da Operação Ouroboros — deflagrada há pouco mais de duas semanas —, e a nova gestão do IRM investigam os contratos da RioForte, ao lado dos demais sob suspeita. A Operação Ouroboros, deflagrada pelo Gaesf, levou à prisão de Franquis, do ex-presidente do IRM, Davi Perini Vermelho, o Didê, e de outras quatro pessoas, além de denunciar ao todo 11 acusados por organização criminosa, corrupção passiva, fraude em licitação e contratações e lavagem de dinheiro. Os outros presos são: Davi Perini Vermelho, o Didê, presidente do Instituto Rio Metrópole, após ser preso Fabiano Rocha / Agência O Globo Marcelo Lopes da Silva, ex-procurador-geral da autarquia e ex-procurador-geral do Estado, além de ex-secretário estadual de Desenvolvimento Econômico; Maurício Silva Knoploch dos Santos, ex-diretor de Planejamento e Projetos do IRM e ex-integrante da Comissão Técnica de Licitação; Amanda Íthala Santos da Paschoa, que ocupava cargo comissionado no IRM desde 2020, nora de Maurício Knoploch; Caroline Soares Barros, ex-fiscal de contratos do IRM e presidente do Instituto BIO — a entidade de fachada por onde os recursos passavam antes de serem sacados em espécie Marcelo Lopes da Silva, procurador do estado e ex-procurador-geral do IRM Fabiano Rocha / Agência O Globo Mas é nas empresas dos irmãos Alencar e Silva que a investigação encontra um exemplo concreto de como o esquema se sustentava fora dos limites do próprio IRM: de um lado, um contrato informal para escoltar dinheiro desviado; de outro, um contrato formal com outro órgão do estado que parece nunca ter entregado o serviço pago. Juntos, os dois arranjos ilustram a rede de relações que permitiu ao grupo movimentar recursos públicos por anos sem levantar suspeita. Maurício Knoploch, diretor de Planejamento e Projetos do IRM e pai do deputado estadual Alexandre Knoploch (PL) Agência O Globo O Ministério Público ainda não concluiu se há um vínculo direto entre as duas empresas além do parentesco dos sócios e da contadora em comum, mas já trata a coincidência como uma nova frente de apuração dentro da Operação Ouroboros. O que diz as defesas Procurados pela reportagem, os irmãos Alencar e Silva não retornaram até a publicação deste texto. Entre os demais citados, apenas a defesa de Caroline Soares Barros se manifestou. O espaço segue aberto a quem quiser se pronunciar. Em nota, a defesa de Caroline afirmou que as atividades do Instituto Bio são regulares e que todos os valores recebidos pela entidade correspondem a serviços efetivamente prestados. Os advogados sustentam que Caroline nunca exerceu função de gestão no Instituto Rio Metrópole, classificam a prisão como "injusta e desproporcional" e dizem que ela é responsável pelos cuidados do filho e da própria mãe, idosa e em tratamento de câncer em estágio avançado. A defesa também critica o que chama de caráter "midiático e sensacionalista" do caso e diz confiar que a Justiça reconhecerá a inocência de Caroline e determinará sua soltura. Leia a nota na íntegra: "Em razão da repercussão pública do caso envolvendo o Instituto Rio Metrópole e a prisão de Caroline Soares, o escritório Taiguara Libano Advocacia Criminal vem a público esclarecer o seguinte: As atividades do Instituto Bio, liderado por Caroline, são absolutamente regulares e em conformidade com a lei e as boas práticas. Todos os valores recebidos em sua conta correspondem a contratos referentes a serviços efetivamente prestados. Trata-se de entidade reconhecida no campo da sustentabilidade ambiental, cuja atuação é pública e verificável. Ademais, cumpre destacar que Caroline Soares jamais exerceu qualquer função de gestão no Instituto Rio Metrópole, e sua inocência será integralmente demonstrada nos autos do processo. A defesa reputa a prisão como manifestamente injusta e desproporcional, sobretudo por atingir mãe de uma criança de tenra idade. Além disso, Caroline é responsável pelos cuidados do filho e da própria mãe, idosa e acometida de câncer em estágio avançado, sendo indispensável aos cuidados de ambas. Chama-se atenção, ainda, para o caráter midiático e sensacionalista conferido ao caso, bem como para a coincidência entre a prisão e o calendário eleitoral, fator que não pode ser ignorado na análise da real necessidade e proporcionalidade da medida cautelar. Por fim, registra-se que a defesa confia na Justiça e seguirá atuando, nos limites técnicos e legais, para que se reconheça, o quanto antes, a presunção de inocência de Caroline Soares, com sua consequente e imediata soltura."

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