Ao final de uma viagem que o levou a outros dois países aliados na América do Sul, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, se encontrou nesta quinta-feira com a presidente do Peru, Keiko Fujimori, em Lima, e declarou o início de “uma nova era de ouro” entre os países. Keiko, apoiadora de Trump e eleita por uma margem estreita de votos, se mostrou disposta a ampliar a cooperação com Washington, inclusive em questões de segurança, mas a dependência econômica da China é uma questão ainda em aberto.
— Ficamos muito felizes por você ter sido eleita; o povo a escolheu porque você prometeu enfrentar isso e já está fazendo isso, e vamos ajudá-la em tudo o que for possível — destacou Rubio em Lima, após reunião com a presidente. — Por que vamos ajudá-la? Não apenas pela amizade, mas também porque é do nosso interesse nacional. Ter quadrilhas criminosas operando com impunidade no hemisfério é uma ameaça direta aos EUA. Dizem especialistas: Acordo EUA-Venezuela é imposição imperialista e acende alerta na América Latina O GLOBO no Mundo: Receba as notícias internacionais direto no seu celular Marco Rubio citou a presença de organizações criminosas em território peruano, segundo maior produtor de cocaína do planeta, afirmando que elas “têm mais dinheiro e melhor equipamento militar do que os próprios militares de um Estado”. Ele defendeu o chamado Escudo das Américas, uma aliança formada por países próximos a Trump na América Latina, oficialmente formada com o intuito de combater o narcotráfico — durante a visita, Rubio confirmou a adesão do Peru à iniciativa.
— A razão pela qual temos o escudo e podemos agir é porque o faremos junto com as nações — disse Rubio, se referindo a críticas sobre a presença de militares americanos nos países aliados e questões sobre possíveis violações da soberania desses Estados. — Acredito firmemente que estamos iniciando uma nova era, uma era de ouro nas relações, porque a nossa administração e a de Keiko Fujimori têm trabalhado muito intensamente nestes primeiros 40 dias. Em sua intervenção, Keiko negou que vá permitir o acesso irrestrito de militares americanos, mesmo que sob pretexto do combate ao tráfico. No passado, ela se mostrou favorável a operações conjuntas, como já acontece em países como o Equador.
— Sempre que ocorre a entrada de tropas em nosso país, solicita-se uma autorização especial ao Congresso da República, e isso, naturalmente, será mantido — afirmou a presidente peruana. — A soberania do Peru está intacta. O que vamos recuperar aqui é a ordem, a tranquilidade e a paz. Cerco a Trump: A dois meses de eleições, democratas são favoritos na Câmara e avançam no Senado Mas em meio a afagos, havia um tema que, ao menos publicamente, segue sem solução favorável a Washington. A China é o maior parceiro comercial do Peru, e em 2024 inaugurou um megaporto que integra a Iniciativa Cinturão e Rota, conhecida como a Nova Rota da Seda, e que é pilar central da diplomacia econômica de Pequim. O governo do presidente Donald Trump quer conter a influência chinesa na América Latina, mas sem grande sucesso até o momento. Antes de chegar a Lima, Marco Rubio escreveu, em artigo, que os países tinham o direito de fazer suas escolhas, mas exigiu que isso fosse feito de maneira transparente, deixando nas entrelinhas que a opção por Pequim poderia ter efeitos colaterais. Em resposta, a embaixada chinesa em Lima disse que os países da região "têm o direito soberano de escolher livremente seus parceiros e de desenvolver a cooperação externa com base em seus próprios interesses nacionais". Repensando laços: Legado de Alberto Fujimori e eleição de Keiko no Peru testam ofensiva de Trump contra China na América Latina Em três dias de viagem, que o levaram, além do Peru, a Colômbia e Equador, Marco Rubio levou a mensagem de Trump (e do Departamento de Estado), de que está disposto a ajudar seus aliados na América Latina, mas que vai exigir algo em troca. Em Barranquilla, onde se encontrou com o recém-eleito Abelardo de la Espriella, firmou acordos sobre cooperação em energia nuclear para fins civis e fornecimento de minerais críticos, e sinalizou com promessas de cooperação em ações contra o narcotráfico.
No Equador, Rubio anunciou a inclusão de uma organização criminosa na lista de grupos considerados terroristas pelo Departamento de Estado e ofereceu mais US$ 55 milhões em assistência de segurança a Quito. Os equatorianos já participam de operações em conjunto com as Forças Armadas dos EUA em terra firme e na região costeira do país, que mergulhou em uma onda de violência nos últimos anos, relacionada à ação de quadrilhas que usam o território como entreposto para o envio de drogas para Europa, Ásia e Estados Unidos, maiores consumidores mundiais de cocaína. Guga Chacra: A guerra de Rubio contra Lula A viagem também se notabilizou pelas ausências. Rubio não incluiu o Brasil em seu roteiro, um reflexo das turbulentas relações entre Washington e o governo do presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva. Além das negociações envolvendo o tarifaço, no final de julho o Itamaraty negou vistos a dois funcionários do Departamento de Estado, alegando que a visita deles teria como objetivo questionar o sistema eleitoral brasileiro. O impasse sobre a concessão do agrément ao indicado para a Embaixada dos EUA em Brasília foi outro ponto de atrito, e levou à revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, no início de agosto.
O Globo