Ganhos democratas em eleições legislativas superaram previsões, alcançando não só estados de disputa acirrada como bastiões republicanos Os democratas retomaram o controle do Congresso dos Estados Unidos nas eleições legislativas de meio de mandato encerradas na terça-feira 3.
O Partido Republicano perde, assim, as maiorias na Câmara e no Senado, que haviam criado um ambiente favorável para o presidente Donald Trump nos últimos dois anos. A oposição obteve ganhos expressivos até mesmo em tradicionais redutos republicanos, impondo uma reprimenda à agenda política da Casa Branca.
Veja abaixo os principais fatos que explicam o avanço do Partido Democrata nestas eleições, já chamado de uma “onda azul” sobre a política dos Estados Unidos. Pesquisas de opinião indicavam que os democratas teriam uma boa noite eleitoral.
Também veículos de comunicação projetaram acertadamente que os democratas retomariam o controle das duas Casas legislativas. Mas a dimensão dos ganhos democratas superou amplamente a previsão da maioria dos analistas, estendendo-se para além dos tradicionais estados decisivos.
Os democratas venceram também em estados onde a disputa costuma ser acirrada e em tradicionais redutos republicanos. No Texas, por exemplo, James Talarico derrotou o republicano Ken Paxton e se tornou o primeiro senador democrata eleito pelo estado em 38 anos.
Já na Carolina do Sul, os democratas não venciam nenhuma disputa para o Senado federal desde 1998. A vitória de Annie Andrews sobre a senadora republicana Darline Graham foi uma das maiores surpresas da noite.
Na disputa pelo Senado em Ohio, estado vencido por Trump três vezes, o democrata Sherrod Brown saiu vitorioso. Já no Kansas, o democrata Adam Hamilton derrotou com facilidade o senador republicano Roger Marshall, que buscava a reeleição.
Os democratas não conquistavam uma cadeira ao Senado pelo Kansas desde 1932, durante a Grande Depressão. Estrategistas dos dois lados afirmaram que as vitórias expressivas do Partido Democrata foram impulsionadas pela forte participação dos eleitores fiéis à legenda e de independentes.
Também deu resultado a estratégia democrata de lançar candidatos em todas as disputas, inclusive em locais que, poucos meses atrás, pareciam praticamente impossíveis de conquistar. Já o Partido Republicano apresentou candidatos que tiveram dificuldades para superar a atual impopularidade de Trump e a insatisfação dos eleitores com o alto custo de vida.
A retomada do Congresso, porém, pode representar uma faca de dois gumes para os democratas. Os eleitores provavelmente esperarão que os democratas apresentem soluções para os problemas econômicos, e não apenas façam oposição a Trump.
O presidente também poderá argumentar que os democratas passam a dividir a responsabilidade pelo desempenho da economia. Ao mesmo tempo, ele continuará com poder de veto, limitando o alcance de eventuais iniciativas legislativas lideradas por democratas.
Trump pediu aos eleitores que agissem como se ele próprio estivesse na cédula eleitoral. E foi exatamente isso que muitos fizeram, cobrando um preço alto para os republicanos.
Resultados preliminares e pesquisas de boca de urna mostraram um eleitorado insatisfeito, que demonstrou rejeição ao presidente e à sua agenda. Quase dois terços dos eleitores ouvidos responsabilizaram o presidente pela alta dos preços, enquanto três quartos disseram estar irritados ou insatisfeitos com a direção do país.
Um levantamento conduzido pela empresa SSRS para um consórcio de veículos de comunicação apontou ainda que quase nove a cada dez eleitores apontam o custo de vida como fator crucial ou muito importante para o voto. Trump foi eleito em 2024 com a promessa de conter a inflação, mas suas tarifas sobre produtos estrangeiros e sua guerra contra o Irã agravaram a situação econômica para muitos americanos.
Durante a campanha, ele pediu que a população absorvesse os custos mais altos, mesmo diante da queda de sua popularidade a níveis recordes. Não foi apenas uma noite de mau desempenho para os republicanos.
Foi uma noite particularmente ruim para Trump. O presidente sofreu uma série de derrotas, já que vários candidatos promovidos por ele, apesar das objeções de lideranças republicanas locais, tiveram desempenho abaixo do esperado em disputas que o partido acreditava poder vencer.
As escolhas de Trump colocaram os republicanos numa posição defensiva em estados onde eram considerados favoritos. As derrotas devem reacender questionamentos sobre o instinto político do presidente, especialmente sua tendência de priorizar a lealdade pessoal em detrimento de candidatos com maior apelo eleitoral.
Nas semanas finais da campanha, Trump e outros republicanos tentaram retratar os democratas como radicais perigosos e comunistas que destruiriam o país caso fossem eleitos. Durante a campanha, o presidente afirmou repetidamente que, se os democratas vencessem, os Estados Unidos se transformariam “num país comunista”.
Também declarou que as lideranças democratas em diversos estados haviam sido substituídas por “radicais enlouquecidos”. O medo frequentemente se mostra uma ferramenta eficaz em campanhas eleitorais nos EUA.
Mas desta vez não foi o suficiente: os eleitores estavam mais preocupados com os preços dos alimentos e dos combustíveis e queriam ouvir mais propostas concretas para reduzir o custo de vida. A aproximação de Trump com os eleitores latinos pode estar chegando ao fim.
Isso representa um problema para os republicanos, que contavam com esse grupo em estados-chave, como a Califórnia, o Texas e a Flórida. Os eleitores latinos ajudaram Trump a vencer em 2024, quando ele conquistou quase metade do voto hispânico (46%).
Agora, pesquisas de boca de urna apontam que ele teve apoio de um a cada três eleitores do grupo, movidos em parte pela insatisfação econômica. No sudeste da Flórida, região com forte presença latina, a democrata Pia Dandiya venceu a disputa pelo 22º distrito congressional, apesar de o mapa eleitoral ter sido redesenhado recentemente para favorecer os republicanos.
Também as vitórias de Gina Hinojosa, que se tornará a primeira governadora latina do Texas, e de Xavier Becerra, prestes a ser o primeiro governador latino eleito da Califórnia, ressaltaram a importância crescente do eleitorado hispânico O presidente apostava que sua base formada por eleitores brancos da classe trabalhadora, além do apoio crescente de jovens e minorias raciais e étnicas, seria suficiente para impulsionar candidatos republicanos.
Mas houve uma mudança significativa entre jovens em comparação com a eleição presidencial de 2024. Há dois anos, eleitores com menos de 30 anos estavam divididos de forma relativamente equilibrada entre Trump e a então vice-presidente Kamala Harris.
Nesta eleição, porém, cerca de sete em cada dez afirmaram ter votado no candidato democrata à Câmara dos Representantes em seus respectivos distritos, segundo a pesquisa conduzida pela SSRS. Já entre os eleitores negros em geral, aproximadamente nove em cada dez apoiaram os democratas.
A perda de apoio republicano foi mais expressiva entre os homens: um a cada dez declarou apoio ao partido na disputa pela Câmara em sua região, abaixo dos aproximadamente 25% que votaram em Trump na última eleição presidencial. O campo moderado do Partido Democrata teve uma noite positiva.
Governadores de perfil centrista, como Josh Shapiro, da Pensilvânia, e Wes Moore, de Maryland, conquistaram a reeleição e reforçaram seu potencial para futuras campanhas presidenciais. Por outro lado, o movimento progressista também saiu fortalecido.
Seu principal nome na disputa, Abdul El-Sayed, derrotou Mike Rogers em Michigan. As diferentes alas democratas, desde a esquerda progressista até os setores mais moderados e centristas, agora procuram interpretar os resultados eleitorais como uma validação de suas estratégias.
Mas as derrotas republicanas não significam uma vitória inequívoca do Partido Democrata. A pesquisa da SSRS indica que cerca de metade dos eleitores tem uma visão “muito” ou “razoavelmente” desfavorável dos democratas.
Esse cenário abre espaço para disputas internas sobre a identidade da legenda. Elas deverão influenciar diretamente a disputa presidencial de 2028, cuja movimentação política começa de forma não oficial já no dia seguinte às eleições legislativas de meio de mandato.
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