Os donos do crime: desaparecidos, miliciano Tandera e matador Sem Alma deixaram rastro de mortes

Os donos do crime: desaparecidos, miliciano Tandera e matador Sem Alma deixaram rastro de mortes

 

Fonte: Bandeira



Na história do submundo do crime no Rio, há criminosos que passam anos foragidos até serem presos. Muitos buscam refúgio em fortalezas instaladas em áreas conflagradas, numa tentativa de dificultar o avanço da polícia, enquanto outros optam por fugir do país. Mesmo assim, acabam deixando vestígios de suas atividades, monitoradas pelas forças de segurança a partir de dados de inteligência e de investigações paralelas.

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Há casos, porém, em que os personagens simplesmente somem do mapa sem deixar pistas. Foi o que aconteceu com o miliciano Danilo Dias Lima, conhecido como Tandera, e com Rafael do Nascimento Dutra, o Sem Alma. Desaparecidos há anos, eles seguem cercados de mistério: ninguém sabe ao certo se estão vivos ou mortos.

Os dois deixaram um rastro de sangue por onde passaram. Enquanto Tandera liderava uma milícia marcada pela extrema violência na Baixada Fluminense, Sem Alma foi apontado como chefe de um grupo de matadores que operava em diferentes regiões do estado.


Racha das milícias

Tandera ficou conhecido durante anos como um dos milicianos mais procurados do Estado do Rio. No peito, carrega o “Olho de Tandera”, símbolo dos Thundercats, série de animação que fez sucesso no Brasil nos anos 1980. O desaparecimento aconteceu pouco depois da morte do irmão, Delso Lima Neto, o Delsinho, apontado pela polícia como o segundo homem na hierarquia da organização criminosa que atuava na Baixada Fluminense, em 2022.

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Tandera integrava o grupo que, no passado, era comandado por Wellington da Silva Braga, o Ecko, irmão de Luís Antônio da Silva Braga, o Zinho. Na época em que Ecko ainda estava vivo, Tandera era responsável por expandir os domínios da quadrilha na Baixada.

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Com o passar do tempo, no entanto, os antigos aliados romperam relações e passaram a disputar territórios entre si. A rivalidade continuou mesmo após a morte de Ecko e se intensificou quando Zinho assumiu o comando dos negócios da milícia. Os grupos travaram uma guerra sangrenta por territórios, envolvendo soldados fortemente armados e monitoramento constante das movimentações rivais para planejar ataques.

Mesmo com o desaparecimento de Tandera e a prisão de Zinho, em 2023, o cenário de disputa pouco mudou. Os sucessores de cada quadrilha deram continuidade às guerras territoriais ao mesmo tempo em que as dissidências internas cresciam dentro das organizações criminosas. Os confrontos se intensificaram tanto que deram origem a uma aliança considerada perigosa pelas forças de segurança e já identificada em diferentes regiões do Rio. Enfraquecidas pelas disputas internas, as milícias passaram a estabelecer parcerias com o Terceiro Comando Puro (TCP) numa tentativa de ampliar o poder bélico e fazer frente ao Comando Vermelho.

Aliados políticos

Antes de desaparecer do mapa, uma investigação da polícia que veio à tona em 2023 revelou que os tentáculos de Tandera iam muito além do universo da milícia e incluíam uma “coalizão” com políticos da Baixada Fluminense. O plano era firmar alianças com pré-candidatos às prefeituras de Nova Iguaçu, Queimados e Seropédica nas eleições de 2020.

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“Enquanto a gente não alcançar o Legislativo, o Poder Judiciário, o Executivo, o ‘quarto poder’, a gente não vai conseguir nada”, disse ele na ocasião. Na reunião, explicou que o “quarto poder” era o Ministério Público.

A mesma investigação também revelou detalhes da crueldade empregada pelo grupo do miliciano. O inquérito reuniu registros que mostram integrantes da quadrilha envolvidos na execução de seis jovens. As imagens, consideradas de extrema violência, apontam um padrão de brutalidade que chocou os investigadores. Em um dos vídeos, o próprio Tandera aparece decapitando um dos jovens enquanto ele ainda estava vivo. Depois, os corpos eram enfileirados, com as cabeças colocadas entre as pernas das vítimas.

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O espaço ocupado por Tandera não ficou vago por muito tempo. Gilson Ingrácio de Souza Junior, o Juninho Varão, rapidamente preencheu o vácuo de poder deixado pelo miliciano e passou a travar guerras para expandir seus territórios, repetindo a dinâmica de violência que marcou os grupos anteriores.

— Embora sejam insubstituíveis do ponto de vista dos familiares, os criminosos acabam sendo rapidamente substituídos por uma oferta quase inesgotável de mão de obra disponível para o crime. Não faltam candidatos a assumir a posição de chefe de milícia ou de “dono do morro”. São cargos muito disputados dentro dessas organizações. Por isso, um ponto fundamental para interromper a reprodução desses grupos é seguir o dinheiro, compreender os esquemas de lavagem e confiscar os bens dessas organizações — explica Carolina Grillo, coordenadora do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (Geni/UFF).

Novo ‘escritório do crime’

Outro personagem do submundo do crime que desapareceu sem deixar rastros é Rafael do Nascimento Dutra, o Sem Alma, apontado como chefe do que seria um novo “escritório do crime” (em referência ao grupo de matadores que atuava na Zona Oeste do Rio entre o fim dos anos 2000 e 2020). Ex-cabo da Polícia Militar, ele foi expulso da corporação após ser acusado de participar de uma série de homicídios. Segundo levantamentos, alguns dos assassinatos teriam sido cometidos enquanto ele estava de licença médica, após ser baleado na região da axila durante uma operação policial.

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A lesão aconteceu em 26 de agosto de 2021, quando Dutra atuava pelo 15º BPM (Duque de Caxias). O policial foi atingido durante uma ação nas imediações da Favela do Rasta, na Baixada Fluminense. Em laudo anexado ao processo de reforma da corporação, um neurocirurgião apontou que ele havia sofrido lesões em cinco vértebras das regiões cervical e torácica, além de uma “grave lesão parcial do plexo braquial” — conjunto de nervos localizado na área atingida pelo disparo. O documento também cita “lesão sensitivo-motora grave” e “dor crônica neuropática”.

No mundo do crime, a trajetória de Sem Alma indica que ele se tornou um matador a serviço da cúpula do jogo do bicho e peça central na disseminação do terror em nome do contraventor Adilsinho. Com contatos na Baixada Fluminense e dentro da Polícia Militar, Sem Alma recrutou agentes para atuar como assassinos de aluguel, nos moldes da organização liderada pelo ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega.

As investigações conduzidas pela Polícia Civil do Rio também apontaram que Sem Alma utilizava munições desviadas para cometer os crimes. Na casa dele foram encontradas munições destinadas à Polícia Rodoviária Federal e ao Exército Brasileiro.

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Na lista de crimes atribuídos ao grupo comandado por ele estão assassinatos de milicianos, de um inspetor da Polícia Civil e até de um ex-chefe de segurança de presídio. Sem Alma está foragido desde 2023, e há anos os investigadores deixaram de receber informações concretas sobre seu paradeiro. Depois de se tornar um alvo da polícia, ele desapareceu. Há três anos, investigadores localizaram parentes e até a casa onde ele morava com a esposa, mas nunca conseguiram encontrá-lo. Informações de inteligência chegaram a apontar a possibilidade de que ele tenha sido assassinado, mas nenhum corpo foi localizado até hoje.

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