Para Daniel Boulud, Lyon, a capital gastronômica francesa, não é só a cidade que o moldou em termos profissionais, mas também o lugar para onde volta em busca da família, das lembranças e dos sabores que lhe ensinaram que a comida pode transmitir a essência de um lugar. Lyon: um roteiro por labirintos renascentistas, ruínas romanas e a melhor comida da França
Provença: de Van Gogh à comida de Lyon, cruzeiro fluvial revela todas as cores do sul da França Desde que se mudou para os EUA, em 1982, o chef abriu restaurantes e salões estrelados pelo "Guia Michelin" no mundo todo.
Seu mais novo projeto, a Brasserie Boulud, casa emblemática de dois andares inspirada na tradição das grandes brasseries francesas, foi inaugurado este mês em frente ao Lincoln Center, em Nova York. O chef francês Daniel Boulud em frente a um de seus empreendimentos em Nova York
Jeenah Moon/The New York Times Hoje com 71 anos, ele conta que cresceu em uma fazenda em St.-Pierre-de-Chandieu, nos arredores da cidade, e passou a infância ajudando a cuidar das vacas e cabras, trabalhando nos campos e cozinhando com os pais.
— Foram essas experiências que me ensinaram a apreciar os ingredientes frescos, a sazonalidade e os ritmos da terra — revelou. A propriedade onde aprendeu a cozinhar ainda pertence à família, e os irmãos moram nas redondezas.
Boulud vai lá todo ano, no verão, quando a agenda permite: — A vida e a carreira me levam para muitos lugares, mas Lyon será sempre minha casa.
Lyon visto a partir do bairro de Fourvière, a parte mais alta da cidade francesa Camille McOuat/The New York Times
Pedir a um chef para escolher um lugar favorito para comer, ainda mais em sua cidade natal, é mais ou menos como pedir a um avô ou avó para nomear o neto favorito — mas Boulud aceitou o desafio, e suas recomendações variam bastante. Entre as menções honrosas estão o Le Suprême, de que gosta por causa da "cozinha de excelente qualidade a preços bem justos", e o Daniel et Denise, clássico local conhecido como bouchon, que descreve como "uma experiência típica e tradicionalíssima".
Ah, e também adora os chocolates Bernachon: — O cuidado artesanal do grão à barra e os pralinês saborosos fazem dela uma das marcas mais respeitadas na cultura do chocolate de Lyon.
Aqui estão os cinco lugares favoritos de Boulud. 1.
Villa Florentine O suntuoso hotel Villa Florentine, instalado num antigo convento do século XVII, em Lyon
Camille McOuat/The New York Times No ponto mais alto do bairro histórico, com vista panorâmica da cidade, o Villa Florentine ocupa um antigo convento do século XVII pintado em tons de ocre e pêssego.
— Sempre que venho aqui eu me lembro de como a cidade é linda, e única em termos de história. Você sente no ar, a tradição está por toda parte.
A luz do sol entra pelos janelões e ilumina as áreas comuns, enquanto os móveis de madeira escura, tapetes e estofados em tons de caramelo e obras de arte, dispostas com elegância e discrição, dão ao hotel um ambiente tranquilo. 2.
La Mère Brazier Funcionários da cozinha do restaurante La Mère Brazier, uma instituição centenária de Lyon, a capital gastronômica da França
Camille McOuat/The New York Times Não dá para falar da história culinária lionesa sem mencionar o La Mère Brazier.
Fundada em 1921 pela chef pioneira Eugénie Brazier, a casa hoje é comandada pelo chef Mathieu Viannay, dono de duas estrelas do "Guia Michelin", e se tornou uma verdadeira instituição local, servindo especialidades como pâté en croûte e foie gras de alcachofra. — É um daqueles lugares raros onde você percebe o legado da culinária lionesa em cada detalhe.
Seu charme não tem nada a ver com tendências ou design; é uma questão de essência. A história de Lyon está nas paredes, no ritmo do atendimento e na precisão da culinária, literalmente.
3. Parc de la Tête d'Or
Parc de la Tête d'Or, uma imensa área verde que se espalha no coração de Lyon, na França Camille McOuat/The New York Times
Essa verdadeira joia de mais de cem hectares, inspirada nos jardins ingleses e considerada um dos maiores parques urbanos da França, foi inaugurada em 1857, e inclui um zoológico, roseirais e um carrossel, além de oferecer passeios de pônei e pedalinhos que podem ser alugados por quem quer explorar o lago, na porção central.
— Passei tanto tempo lá quando era criança que acabei batizando minha churrascaria em Nova York de La Tête d'Or. 4.
Fourvière Fiel na Basílica de Notre-Dame de Fourvière, a igreja mais famosa de Lyon, na França
Camille McOuat/The New York Times Situado no alto de uma colina, o bairro é onde o peso da história fica mais evidente, pois abriga ruínas antigas e proporciona a vista da cidade velha que se estende lá embaixo.
Boulud faz questão de ressaltar que embora a Notre-Dame de Fourvière seja chamada de catedral, na verdade, é uma basílica: — Catedral é a sede da diocese ou arquidiocese; basílica é uma designação especial, geralmente concedida pelo papa.
Também na colina se encontram os Théâtres Antiques de Fourvière, complexo de teatros romanos usado ainda hoje para shows. — É onde a história romana de Lyon ainda é muito presente.
O funicular que liga os bairros de Fourvière e Vieux Lyon, região onde a terceira maior cidade da França nasceu Camille McOuat/The New York Times
Depois de explorar Fourvière, ele recomenda pegar o bondinho até Vieux Lyon, um dos bairros da época renascentista mais bonitos da Europa, com vielas de paralelepípedos, pátios escondidos e as passagens cobertas que os moradores chamam de traboules: — É um passeio simples, mas extraordinário.
5. Maison Reynon
Clientes no interior da Maison Reynon, uma charcuterie clássica em Lyon, na França Camille McOuat/The New York Times
— Lyon sempre foi minha fonte de inspiração. O toque lionês está presente na minha culinária, e onde quer que eu vá — diz.
Se quiser conferir o sabor característico local, ele recomenda o saucisson da Maison Reynon, charcutaria clássica conhecida pela culinária prática e despretensiosa que a cidade faz tão bem: — É um daqueles prazeres simples e autênticos que representam o espírito local.
O Globo