Onze marinheiros estão desaparecidos no mar nesta terça-feira após um navio afundar em um ataque de drones na costa da Bulgária. O caso, ocorrido apenas uma semana após outra embarcação naufragar na região, levou o primeiro-ministro búlgaro, Rumen Radev, a convocar a embaixadora da Rússia em Sófia, Eleanora Mitrofanova.
Vitais para a economia global: Rotas marítimas são ameaçadas por guerras, duelo entre potências e crise do clima Quer morar fora? Veja guia interativo que reúne informações sobre 36 países Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp Embora não tenha acusado formalmente Moscou de realizar os ataques, Radev, que assumiu o cargo este ano e tem rejeitado avaliações de que seria “pró-Rússia”, afirmou que o resultado dos incidentes “beneficia a Federação Russa”. O episódio ocorre uma semana depois de outros dois navios comerciais terem sido atingidos na região, em um ataque que deixou dez marinheiros desaparecidos, considerados mortos. As duas embarcações foram atingidas durante a madrugada. O navio que afundou estava a 31 quilômetros do vilarejo de Krapets. Autoridades informaram que cinco tripulantes foram resgatados, enquanto outros 11 continuavam desaparecidos. A presidente Iliana Iotova identificou a embarcação como o cargueiro HS Dignity, de bandeira da Guiné-Bissau, e disse que uma operação de busca estava em andamento. O segundo navio, identificado como Chelsea 3, de bandeira maltesa e propriedade ucraniana, foi atingido por três drones a 33 quilômetros da cidade de Byala. A embarcação está registrada em Odessa, na Ucrânia, e transportava uma tripulação formada por sete ucranianos e oito azerbaijanos. Todos os 15 marinheiros foram resgatados, e nenhum sofreu ferimentos graves. Segundo Radev, cinco deles receberam atendimento médico por ferimentos leves. Em meio a ameaças: Otan detalha plano para proteger aliados europeus de possível ataque da Rússia Diante dos incidentes, o primeiro-ministro convocou uma reunião de emergência com autoridades de segurança e chamou a representante diplomática russa para prestar esclarecimentos. Radev afirmou que ainda não havia provas que permitissem atribuir a responsabilidade a qualquer um dos lados envolvidos na guerra entre Rússia e Ucrânia, mas indicou que Moscou poderia ter sido beneficiada pelos ataques. — Isso é absolutamente inaceitável. Mais um ataque nas imediações das águas territoriais búlgaras — disse em pronunciamento televisionado. Após a reunião com o primeiro-ministro, Mitrofanova afirmou que não tinha informações do Ministério da Defesa da Rússia sobre ataques contra embarcações comerciais no Mar Negro, segundo o governo búlgaro. A embaixadora também não descartou a possibilidade de que os incidentes fossem uma provocação de terceiros. As Forças Armadas russas não haviam comentado publicamente os novos ataques. Entenda: Rússia rejeita trégua de 60 dias para eleições na Ucrânia e evita confirmar cessar-fogo energético anunciado por Trump Membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), a Bulgária também buscou apoio internacional diante da intensificação dos incidentes na região. Radev conversou por telefone com o secretário-geral da aliança, Mark Rutte, e com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, solicitando assistência para reforçar a vigilância marítima e do espaço aéreo do país. Rutte afirmou que a Otan continuará ajustando sua presença militar no flanco oriental da aliança “conforme necessário”. O governo búlgaro já havia solicitado assistência técnica e de segurança à Otan e à União Europeia (UE) para investigar os ataques de 6 de outubro, diante das incertezas sobre a responsabilidade pelos incidentes.
Os novos ataques provocaram condenações da Ucrânia e da União Europeia. No X, von der Leyen definiu o caso como “inaceitável” e afirmou que a expansão dos incidentes contra embarcações comerciais representa uma nova dimensão da guerra iniciada pela Rússia em fevereiro de 2022. Já o ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andrii Sybiha, responsabilizou diretamente Moscou pelos ataques. Torres automatizadas: Ucrânia usa armas robóticas com IA para derrubar novos drones russos, diz Força Aérea; entenda “O mais recente ataque da Rússia contra embarcações comerciais próximas às águas territoriais da Bulgária demonstra mais uma vez o desprezo deliberado de Moscou pelas vidas de civis e pela segurança marítima no Mar Negro”, escreveu Sybiha no X. “O Mar Negro é uma via vital para a segurança alimentar global. A Rússia está atacando essa rota para transformar a fome em arma e manter o mundo como refém”. Ataques no Mar Negro Os incidentes desta terça-feira ocorreram uma semana depois de outros dois navios comerciais terem sido atingidos por drones marítimos e aéreos na zona econômica exclusiva da Bulgária, em 6 de outubro. Uma das embarcações, identificada como Alfa Watan, afundou após o ataque. Nove marinheiros sírios e um egípcio desapareceram no mar e são considerados mortos. Outro navio também foi atingido naquela noite, mas seus tripulantes conseguiram ser resgatados. No mesmo dia, a Ucrânia atingiu um petroleiro no porto russo de Sochi, no Mar Negro. As ações contra embarcações comerciais se intensificaram em meio à guerra entre os dois países, que já dura mais de quatro anos. Moscou tem ampliado os ataques contra navios na região, especialmente na parte ocidental do Mar Negro, enquanto Kiev passou a atingir com maior frequência embarcações russas utilizadas na exportação de grãos. Retórica: Rússia ameaça usar armas nucleares contra países da Otan em caso de bloqueio de Kaliningrado O governo russo afirma que suas operações têm como alvo navios que transportam armamentos e cargas de uso duplo, civil e militar, para portos ucranianos. Moscou citou ataques realizados na semana passada nos portos de Mykolaiv e Chornomorsk, além de uma operação no Mar Negro. Kiev e seus aliados europeus, por outro lado, afirmam que embarcações mercantes que transportam grãos e outras cargas civis também estão sendo atingidas. A intensificação dos ataques ocorre em uma região estratégica para o comércio internacional de alimentos. Rússia e Ucrânia estão entre os maiores exportadores de grãos do mundo, e o transporte marítimo pelo Mar Negro tem sido cada vez mais afetado pela guerra. Os bombardeios russos contra portos ucranianos obrigaram Kiev a depender mais de instalações fluviais no Rio Danúbio e de rotas marítimas próximas às costas da Bulgária e da Romênia, ambos integrantes da Otan. A Ucrânia, por sua vez, tem ampliado os ataques contra navios russos utilizados na exportação de grãos em outras partes do Mar Negro e no Mar de Azov, próximo à foz do Rio Don. A Turquia, que também tem interesses estratégicos na segurança da navegação na região, pediu aos dois países que interrompam os ataques contra embarcações. Moscou tem rejeitado repetidamente os apelos dos Estados Unidos e de países europeus por um cessar-fogo naval no Mar Negro, responsabilizando a Ucrânia por ataques contra navios mercantes russos. Desde o início da invasão em larga escala ordenada pelo presidente Vladimir Putin, em 2022, a guerra se estendeu a diferentes áreas da infraestrutura econômica e comercial dos dois países. Atualmente, a Rússia controla cerca de 20% do território ucraniano.
O Globo