'Onde foram parar os negros da Argentina e do Chile?' Memória de mais de 20 anos virou pauta após casos recentes de racismo

 

Fonte: Bandeira



Foi numa viagem a Buenos Aires, há mais de 20 anos, que senti pela primeira vez o racismo. Sou parda e me identifico como negra, mas no Brasil quase sempre fui lida como branca. Lá, não. Eu chamava a atenção porque não era tão comum ver alguém da minha cor. Desde então, volta e meia me pego pensando numa pergunta que carrega séculos de apagamento: onde foram parar os negros da Argentina e do Chile?

Quando os casos recentes de racismo envolvendo argentinos e chilenos contra brasileiros começaram a ganhar repercussão, aquela memória antiga voltou. E aí nasceu a matéria publicada no GLOBO no domingo, dia 24, que mostra a invisibilização de negros na história da Argentina e do Chile. A editora de Mundo, Leda Balbino, sugeriu que a gente pesquisasse como nasceu o mito de que Argentina e Chile eram a "Europa da América Latina" e eu rapidamente abracei a ideia.

Entenda: Casos de racismo no Brasil revelam invisibilização de negros na história da Argentina e do Chile

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Quanto mais eu lia e conversava com pesquisadores e especialistas sobre o assunto, mais evidente ficava que não se tratava da ausência da população negra nesses países, mas de um longo processo de invisibilização. Tanto Argentina quanto Chile tiveram presença importante de escravizados desde o período colonial, mas a construção de suas identidades nacionais ao longo do século XIX apagou sistematicamente essa herança, como parte de projetos políticos de “branqueamento”. O recorte de raça, por exemplo, foi sumariamente excluído do censo. E como me disse a pesquisadora brasileira Juliana Kaiser: "O que não é medido não existe".

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Chile: censo só trouxe identificação étnico-racial em 2024

Durante a apuração, encontrei relatos que ecoavam aquela sensação que tive décadas atrás em Buenos Aires: imigrantes pardos, como eu, que se “entenderam” negros na Argentina ou no Chile, da maneira mais dura: através do racismo. “O imaginário é tão eurocêntrico que até mesmo chilenos que têm a pele retinta são tratados com preconceito, como se fossem de fora”, me contou a ativista brasileira Carolina Amaral, baiana que mora no Chile há duas décadas.

O apagamento atravessa o presente e ajuda a explicar por que tantos episódios de racismo ainda aparecem naturalizados no futebol, no turismo ou nas redes sociais. E, ao mesmo tempo, por que movimentos negros nesses países lutam hoje não apenas por direitos, mas pelo reconhecimento da própria existência.

No Chile, por exemplo, a população negra só foi reconhecida em 2019, durante o governo de Sebastián Piñera — após uma campanha de décadas da sociedade civil e de ONGs como a Oro Negro, fundada por Marta Salgado há 26 anos. E só no censo de 2024 foi incluída pela primeira vez uma variável de identificação étnico-racial. “O país viveu 300 anos de escravidão, mas sempre nos disseram que não havia negros aqui, ou que os poucos que existiam morreram de frio”, sentenciou Marta.

Comentários de latino-americanos nas redes do GLOBO

Depois que a reportagem foi publicada e compartilhada nas redes sociais do GLOBO veio a surpresa: um monte de comentários em espanhol, a grande maioria corroborando o apagamento dos negros nesses países, assim como o apagamento de indígenas em outros países da região, como o Brasil.

No fim, a repercussão da matéria mostrou que o tema está longe de ser apenas histórico ou acadêmico. Os comentários acabaram reforçando justamente o que a reportagem tentava mostrar: o apagamento segue vivo e não é desconectado dos casos de racismo que vemos por aqui.

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