Onda de investimentos em IA pelas ‘big techs’ perde força

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Fonte da notícia: Valor Valor

A esperança de Wall Street de que as grandes empresas de tecnologia continuassem impulsionando a bolsa, apoiadas em parte pela onda de investimentos em inteligência artificial, começa a enfraquecer. À medida que algumas das maiores companhias ficam abaixo das expectativas e o mercado mais amplo dá sinais de enfraquecimento, o cenário para os últimos meses do ano se torna mais desafiador.

A forte queda da Alphabet nesta quinta-feira (29), que colocou a controladora do Google no caminho para seu pior pregão da história, somada às perdas da rival Microsoft, pressionou os mercados. O S&P 500 caminha para encerrar outubro com ganho modesto de cerca de 1%, após queda de 0,45% em setembro.

Já o Nasdaq Composite acumula baixa de 2,2% no mês. Os resultados decepcionantes das empresas do grupo conhecido como “Sete Magníficas”, que já divulgaram balanços, e a falta de uma leitura clara sobre a tese da IA entre as gigantes que ainda reportarão resultados sugerem que uma das principais narrativas de Wall Street, a de que a inteligência artificial seria uma força irresistível, começa a perder influência sobre o mercado.

Ao mesmo tempo, outros fatores de preocupação ganham espaço, incluindo a guerra com o Irã, um Federal Reserve (Fed, banco central americano) que pode ser forçado a voltar a elevar juros e consumidores americanos cada vez mais pressionados pela inflação e pela insegurança no mercado de trabalho.

“Não diria que a tese da IA está quebrada, mas ela está deixando de ser apenas uma história de investimentos e passando a ser uma história de execução e monetização”, afirmou Chris Osmond, diretor de investimentos da Fifth Third Wealth Advisors. Segundo ele, essa evolução é positiva no longo prazo, mas pode gerar mais volatilidade e diferenciação entre as grandes empresas de tecnologia.

Já Richard Reyle, diretor de investimentos da Questar Capital Partners, acredita que o setor chegou a um ponto de inflexão. “Agora estamos começando a ver quem está gastando de forma racional com IA e quem não está”, disse.

“A conclusão desta temporada de balanços é simples: aumentos de investimentos e grandes emissões de ações estão provocando a fuga dos investidores.” O índice de tecnologia do S&P 500 acumula queda de quase 3% no último mês e está cerca de 4,8% abaixo do pico registrado no início de junho.

Isso ajudou a limitar o avanço do próprio S&P 500, que subiu apenas 1,4% nos últimos cinco meses. A temporada de resultados do terceiro trimestre pouco contribuiu para mudar esse quadro.

Com pouco mais da metade das empresas tendo divulgado seus números, dados da LSEG mostram que os lucros estão superando as expectativas dos analistas em média por 4,5%, bem abaixo da chamada “surpresa positiva” média de 7,7% observada nos últimos trimestres. No setor de tecnologia, esse indicador está em 4,7%.

Já no setor de serviços de comunicação, onde está a Alphabet, o número é negativo em 1,5%. Isso não significa que os resultados sejam ruins.

As empresas de tecnologia devem responder por aproximadamente metade dos US$ 775 bilhões em lucros gerados pelas companhias do S&P 500 neste trimestre e uma proporção semelhante é esperada para o quarto trimestre. Mas o setor já não entrega o impulso extra que costumava fornecer ao mercado.

“Nosso cenário-base é que o forte crescimento dos lucros do S&P 500 desde o início da revolução da IA não continuará no próximo ano”, afirmou John Higgins, economista-chefe para mercados financeiros da Capital Economics. “Na verdade, acreditamos que parte desse avanço será revertida, pressionando o índice.”

Segundo Higgins, isso é particularmente preocupante porque a tecnologia e a temática da IA sustentaram boa parte do desempenho do mercado americano nos últimos quatro anos. Somam-se a isso os riscos associados à alta dos preços da energia decorrente do conflito com o Irã e os efeitos persistentes sobre a inflação.

O FED conseguiu evitar uma alta de juros em outubro, mas os dados recentes de inflação e o forte crescimento econômico podem dificultar essa estratégia na reunião de dezembro. “Crescimento forte, demanda doméstica robusta, baixo nível de demissões e inflação ainda elevada.

O que mais seria necessário para justificar um aperto adicional?”, questionou Jim Baird, diretor de investimentos da Plante Moran Financial. Os preços do petróleo, já acima de US$ 100 por barril, podem subir ainda mais caso Estados Unidos e Israel ampliem suas ações contra o Irã após as eleições legislativas da próxima semana.

Os próprios resultados das eleições de meio de mandato dos Estados Unidos também podem afetar os mercados. Pesquisas apontam para uma possível retomada do controle da Câmara dos Deputados pelos democratas, enquanto o controle do Senado permanece indefinido.

Segundo Lori Calvasina, estrategista-chefe de ações americanas da RBC Capital Markets, um Congresso dividido teria impacto neutro ou ligeiramente positivo para as ações, enquanto uma vitória democrata ampla seria neutra a negativa e uma vitória republicana seria positiva. Diante desse conjunto de desafios, o mercado pode ter mais dificuldade para manter a trajetória de alta observada nos últimos quatro anos.

Historicamente, os últimos meses do ano costumam favorecer os investidores otimistas. No entanto, o ritmo atual ainda está aquém do necessário para que o S&P 500 alcance os 8.000 pontos, nível amplamente projetado por Wall Street.

Para chegar lá até o fim do ano, o índice precisaria avançar cerca de 6,8 pontos por pregão. Até agora, em 2026, o ganho médio diário tem sido de aproximadamente 4,4 pontos.

E, com a força das grandes empresas de tecnologia e da inteligência artificial diminuindo, a revista Barron’s conclui que essa meta pode ser ambiciosa demais para um mercado que começa a mostrar sinais de esgotamento.

Publicação Original Valor valor.globo.com
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