A "onda azul" que varreu os Estados Unidos na noite de terça-feira (3/11) trouxe, ao lado da rejeição ao presidente Donald Trump e ao Partido Republicano, a ascensão política de personalidades políticas até então excluídas do cenário do poder. Mulheres, negros, latinos, indígenas, muçulmanos: entre representantes no Senado ou mesmo govenadores de estados, além de congressistas, eles desbravam caminhos para suas comunidades em um universo institucional até então adverso.
E, embora eleitos principalmente pela oposição democrata, emergem também nas fileiras governistas, quase como efeito colateral de mudanças que fermentam há décadas nas camadas mais profundas da sociedade.O exemplo talvez mais eloquente — e, certamente, um dos mais comemorados — é o da governadora eleita da Geórgia, Keisha Bottoms.
Não apenas ela é a primeira mulher a governar o estado: é também a primeira mulher negra eleita para governar alguma das 50 entidades federativas dos EUA. Representante dos descentes de escravos que fizeram a fortuna de gerações de fazendeiros brancos, representa uma trajetória retratada, na literatura e depois no cinema, no romance E o vento levou, um clássico de Hollywood, ambientado justamente na Geórgia.PioneirismoNa vizinha Flórida, foi ao Partido Republicano que coube o pioneirismo racial, com a eleição de Byron Donalds.
Lá, o destaque foi o fato de que a disputa real pelo governo estadual se deu com outra política negra: Angie Nixon, ligada à ala mais à esquerda do Partido Democrata. Com a eleição de Donalds e Bottoms, serão cinco os políticos negros à frente de algum dos 50 estados dos EUA, ao lado dos atuais titulares de Maryland, Wisconsin e Nevada — os três, democratas.A oposição, arejada pelo engajamento inusitado de jovens e outros setores sociais menos representados na vida institucional, marcou pontos também na questão sensível dos povos originários, cujos remanescentes tateiam oportunidades para ocupar posições.
Na histórica eleição de terça-feira, ao menos dois deles fizeram história. No Novo México, na fronteira sul do país, a democrata Deb Haaland tornou-se a primeira indígena eleita para governar um estado.
No extremo oposto, onde os EUA encontram o Canadá, outra democrata Penny Flanagan, tornou-se a primeira indígena eleita para uma cadeira no Senado. Abdul El-Sayed, eleito no Michigan: primeiro muçulmano no Senado(foto: Jeff Kowalsky/AFP)Abdul El-Sayed, médico sanitarista de 42 anos, será outro pioneiro levado ao Congresso pelos democratas: ligado à ala esquerda do partido, em especial ao recém-empossado prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, ele superou até a traição da rival nas primárias do partido, às vésperas da votação, e se elegeu senador pelo estado de Michigan.
El-Sayed será o primeiro muçulmano confesso a legislar na câmara alta do Congresso norte-americano.Também no Senado, outro democrata eleito na terça-feira fará uma estreia, em outra face do mosaico social e cultural que dá identidade aos EUA. Chris Papas, vitorioso em New Hampshire, tornou-se o primeiro senador publicamente assumido como homossexual.
Disputando uma cadeira vaga, ele derrotou nas urnas o republicano John Sununu, ex-titular do mandato que tentava recuperar para a legenda do presidente Donald Trump.Barba e cabeloMas foi talvez no Texas, segundo estado mais populoso do país e território sólido do Partido Republicano que a oposição fez história de maneira mais estridente.
De saída, o Partido Democrata elegeu para o senado um político jovem de origem mexicana, até então apenas um deputado no Legislativo estadual. James Talarico, educador de 37 anos, engoliu o favoritismo do titular da cadeira, Ken Paxton: com 55% dos votos, contra 43% do adversário, tornou-se o primeiro democrata eleito senador pelo estado desde 1988.No "feudo" da família Bush, domicílio eleitoral de dois presidentes republicanos — George pai e filho —, a hostilidade de Donald Trump aos imigrantes permitiu à oposição fazer "barba e cabelo", como se diz no Brasil.
Além de capturar a cadeira no Senado, elegeu a descendente de mexicanos Gina Inojosa não apenas como a primeira mulher a governar o estado, mas também uma pioneira no cargo entre os descendentes de mexicanos. Adam Hamilton, primeiro democrata pelo Kansas em um século(foto: Austin Johnson/AFP)Em matéria de quebrar tabus, no entanto, o recorde cabe a um vitorioso que fez história no Kansas, estado do centro-oeste com sólida tradição republicana.
O pastor metodista Adam Hamilton é o primeiro democrata eleito ali para o Senado em quase um século. Antes, em 1932, o Partido Democrata havia elegido George McGill.
Com 52% dos votos, ele destronou o republicano Roger Marshall, que saiu das urnas com 45%. Saiba Mais Esportes NBB: Flamengo impõe a terceira derrota consecutiva ao Brasília Economia Financiamento de apartamento: veja dicas essenciais antes de comprar Brasil Tornados e temporais provocam destruição em cidades de SC e do RS
Correio Braziliense