Oliver Stuenkel avalia que estratégia de Trump para o Brasil favorece a China

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

247 – A política externa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para a América Latina pode produzir um resultado contrário aos interesses estratégicos de Washington: fortalecer a presença da China no Brasil e em outros países da região. A avaliação é do cientista político Oliver Stuenkel, em artigo publicado no jornal O Estado de S.

Paulo, no qual analisa as consequências da interferência norte-americana nas eleições brasileiras e os desafios diplomáticos após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo Stuenkel, embora Trump tenha apoiado candidatos de direita que conquistaram vitórias eleitorais em diferentes países latino-americanos, a derrota de Flávio Bolsonaro no Brasil evidencia os limites dessa estratégia.

A manutenção das pressões sobre Brasília, especialmente por meio de tarifas comerciais, sanções e medidas diplomáticas, pode comprometer interesses econômicos dos próprios Estados Unidos e acelerar a aproximação brasileira com Pequim. Interferência eleitoral e tensões diplomáticas

O artigo recorda que o governo Trump condicionou apoio financeiro à Argentina a resultados eleitorais, ameaçou restringir a cooperação com Honduras caso o candidato conservador Nasry Asfura fosse derrotado e declarou apoio ao colombiano Abelardo de la Espriella. Em setembro, o presidente norte-americano chegou a celebrar uma sequência de vitórias de candidatos apoiados por Washington.

No Brasil, entretanto, a estratégia envolveu medidas de pressão econômica e política. O governo norte-americano impôs tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, associando a decisão ao processo judicial contra Jair Bolsonaro.

Também revogou vistos de ministros do Supremo Tribunal Federal e aplicou sanções contra Alexandre de Moraes com fundamento na Lei Magnitsky. Mesmo após um período de distensão, marcado pela retirada de algumas tarifas sobre alimentos e pela suspensão das sanções contra Moraes, novas sobretaxas foram impostas em julho, depois que a Suprema Corte norte-americana derrubou o tarifaço anterior, em fevereiro.

As tensões alcançaram também o campo diplomático. Em agosto, Washington revogou o visto da embaixadora brasileira Maria Luiza Viotti, em resposta à demora do Itamaraty em aprovar Daniel Perez como novo representante dos Estados Unidos em Brasília.

Stuenkel observa ainda que a viagem de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos após a derrota eleitoral teria contado com a participação de Jason Miller, aliado político de Trump. O presidente norte-americano, por sua vez, ainda não reconheceu formalmente a vitória de Lula e chegou a levantar suspeitas de fraude eleitoral sem apresentar provas.

Reconhecimento da vitória de Lula é decisivo Para o cientista político, o reconhecimento do resultado das urnas constitui uma condição elementar para a normalização das relações entre os dois países.

Sem esse gesto, Brasília teria poucos incentivos para avançar na aprovação do novo embaixador norte-americano ou organizar uma conversa entre Lula e Trump. A defesa da soberania nacional, que ganhou destaque na campanha presidencial brasileira, também limita o espaço político para concessões diante de pressões externas.

O impasse ameaça paralisar iniciativas de interesse comum, como o enfrentamento ao crime organizado, a cooperação em minerais críticos e os investimentos em infraestrutura digital e data centers. O cenário pode se tornar ainda mais complexo depois das eleições legislativas norte-americanas de 3 de novembro.

O artigo menciona a possibilidade de Trump enfrentar dificuldades políticas adicionais caso os republicanos percam o controle da Câmara dos Representantes. China ganha espaço com o desgaste entre Brasília e Washington

A principal consequência geopolítica desse afastamento, segundo Stuenkel, pode ser o fortalecimento da China como parceira estratégica do Brasil. Dois dias depois da reeleição de Lula, o presidente chinês, Xi Jinping, propôs elevar a relação bilateral a um novo patamar, sinalizando o interesse de Pequim em aprofundar os vínculos políticos e econômicos com Brasília.

Os números do comércio exterior reforçam essa tendência. No primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras para a China cresceram 21,9%, enquanto as vendas destinadas aos Estados Unidos recuaram 13%, segundo os dados citados no artigo.

O afastamento diplomático também pode afetar os interesses empresariais norte-americanos. Os Estados Unidos continuam sendo a principal origem do investimento estrangeiro direto no Brasil, com um estoque próximo de US$ 245 bilhões em 2024, de acordo com dados do Banco Central mencionados na análise.

Nesse contexto, uma deterioração prolongada das relações bilaterais pode reduzir oportunidades de cooperação econômica e tecnológica, enquanto empresas chinesas ampliam sua participação em setores estratégicos da economia brasileira. Efeito pode alcançar toda a América Latina

Stuenkel considera que a experiência brasileira também pode influenciar o debate político em outros países latino-americanos. A reeleição de Lula, depois de uma campanha marcada pela defesa da soberania e por críticas à interferência norte-americana, oferece um exemplo que poderá ser observado por forças políticas que disputarão eleições na Guatemala, em junho de 2027, na Argentina, em outubro do mesmo ano, no Paraguai, em abril de 2028, e na República Dominicana, em maio de 2028.

A análise sugere que candidatos críticos à política externa de Washington poderão incorporar com maior intensidade o tema da autonomia nacional em seus discursos. Brasil deve ampliar interlocução nos Estados Unidos

Diante da ausência de sinais de mudança na postura da Casa Branca, Stuenkel defende que o Brasil procure diversificar seus canais de diálogo com a sociedade e o sistema político norte-americanos. O ex-cônsul-geral dos Estados Unidos em São Paulo Ricardo Zúñiga, citado no artigo, observa que Trump recebe informações sobre o Brasil predominantemente por meio de interlocutores ligados à família Bolsonaro.

Para reduzir os efeitos dessa concentração de influência, Brasília poderia fortalecer relações com parlamentares democratas, republicanos moderados, empresários, importadores de produtos brasileiros e representantes da sociedade civil. A construção desses canais ajudaria a preservar interesses comuns mesmo em um ambiente de divergências entre os governos.

A conclusão central da análise é que a política de pressão de Trump pode comprometer a capacidade dos Estados Unidos de manter sua influência sobre o Brasil. Enquanto Washington prolonga o conflito diplomático, Pequim encontra oportunidades para aprofundar uma parceria que já ocupa posição central na economia brasileira.

Publicação Original Brasil 247 brasil247.com
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