Dez títulos saem à frente na disputa pelas principais premiações dos melhores documentários de longa-metragem do ano, com o Oscar naturalmente no topo. A lista dos 15 semifinalistas da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood será anunciada apenas em 15 de dezembro.
Uma primeira visão dos favoritos já foi adiantada pela relação de concorrentes a diversos prêmios e pelas apostas da imprensa especializada, notadamente Hollywood Reporter, IndieWire e Variety. A concorrência se acirra nestas próximas duas semanas.
Neste domingo, dia 8, acontece a premiação não ficcional nas múltiplas categorias do Critics Choice. O Cinema Eye Honors revela suas indicações na quinta, dia 12.
No dia 17, será a vez de conhecer os finalistas da IDA (International Documentary Association), que já publicou uma primeira lista de 16 concorrentes, incluindo o brasileiro “A fabulosa máquina do tempo”, de Eliza Capai. Foram também anunciados os cinco indicados ao Prêmio Gotham, com ênfase no cinema independente, a ser entregue no dia 30 deste mês.
Entre os próximos dias 11 e 29, vale acompanhar a repercussão em torno da 17ª edição do Doc NYC, o maior festival de documentários dos EUA, sendo um termômetro bem calibrado para o Oscar sua seleção não competitiva de 15 longas-metragens não ficcionais na seção “Short List”. Combinando as indicações até agora e as previsões jornalísticas, os filmes que provisoriamente destacam-se, em ordem alfabética do título original, são “A 14ª emenda”, de Ava DuVernay; “American Doctor”, de Poh Si Teng; “A Fox Under a Pink Moon”, de Soraya Akhlaghi e Mehrdad Oskouei; “Musk”, de Alex Gibney; “Naza”, de Yuval Abraham e Rachel Szor; “Era uma vez no Harlem”, de David Greaves e William Greaves; “One in a Million”, de Itab Azzam e Jack Macinnes; “Rehearsals for a Revolution”, de Pegah Ahangarani; “To Hold a Mountain”, de Biljana Tutorov e Petar Glomazic; e “Tudo pode ser visto”, de Nathan Fielder e Lance Oppenheim.
Impulsionado pela presença constante entre os indicados, ótima repercussão crítica e impressionante desempenho nas bilheterias americanas (mais de US$ 45 milhões em três semanas), “Tudo pode ser visto” mira não apenas uma vaga na disputa como melhor longa documental, mas também o que seria uma inédita indicação para um documentário entre os dez finalistas de melhor filme.
A partir do convite de uma entrevista para retratá-la no cotidiano um mês antes de cumprir pena, Fielder (da série “O ensaio”) e Oppenheim (do filme “Primetime”) radiografam Elizabeth Holmes, a jovem protagonista de um dos maiores escândalos corporativos recentes à frente da fraudulenta empresa high tech de medicina preventiva Theranos.
Exibido no encerramento da 50 Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, entra em cartaz no próximo dia 28. “A 14 emenda” e “Era uma vez no Harlem” investigam a história afro-americana.
DuVernay discute quase um século e meio de luta para efetivar a igualdade perante a lei determinada pela emenda à Constituição dos EUA. Greaves recupera as filmagens feitas por seu pai de um encontro em 1972, na casa de Duke Ellington, de protagonistas do movimento Renascimento do Harlem
O morticínio em Gaza está ao centro de “American Doctor”, que acompanha o empenho de três médicos voluntários de distintas nacionalidades, e de “Naza”, o acrônimo para “dano colateral” nas comunicações internas das Forças de Defesa Israelense, aqui resenhado quando da estreia há um mês.
Também comentado em coluna recente, à espera da estreia em janeiro pela HBO Max, “Musk” disseca inclementemente a vida e o império do trilionário da SpaceX. Em “Rehearsals for a Revolution”, vencedor do Olho de Ouro de melhor documentário no Festival de Cannes, a iraniana exilada Pegah Ahangarani reconstrói quase meio século de repressão em seu país a partir de arquivos sobre cinco personagens.
Como notou Pat Mullen na POV Magazine, o sonho do exílio europeu de jovens mulheres aproxima “A Fox Under a Pink Moon” e “One in a Million”, o primeiro estruturado a partir de gravações e obras de arte de uma afegã no Irã, o segundo, retratando uma garota síria e sua mãe rumo à Alemanha.
Já “To Hold a Mountain” acompanha a tocante relação entre outra mãe e filha numa zona rural de Montenegro, cuja preservação é posta em risco por um projeto militar. Premiado no Sundance deste ano, é também o concorrente oficial do país à disputa ao Oscar de melhor filme internacional.
Cumpre celebrar a presença na “shortlist” de 16 semifinalistas da IDA de “A fabulosa máquina do tempo”, de Eliza Capai, sobre os sonhos de meninas do sertão do Piauí, lançado no país pelo É Tudo Verdade deste ano. Honra também o festival ter qualificado para a disputa do Oscar dois longas-metragens dirigidos por cineastas brasileiros, “Sagrado” de Alice Riff, e “Um filme de medo”, de Sergio Oksman, vencedores respectivamente das competições nacional e internacional de longas-metragens deste ano.
Vitorioso entre os curtas brasileiros, “Os arcos dourados de Olinda”, de Douglas Henrique, foi classificado para a competição do Oscar do formato. No topo do ranking de longas-metragens documentais do site especializado em premiações Gold Derby encontram-se, no momento em que escrevo, “Naza”, “Era uma vez no Harlem”, “Tudo pode ser visto”, “American Doctor” e “Musk”.
Tenho poucas dúvidas de que estarão entre os 15 semifinalistas no mês que vem. Para a lista final de 5 concorrentes, a ser conhecida em 21 de janeiro próximo, não subestimaria as chances especialmente de Ahangarani e DuVernay.
A 99ª cerimônia do Oscar acontece em 14 de março no Dolby Theatre do Ovation Hollywood, em Los Angeles. Amir Labaki é diretor-fundador do É Tudo Verdade — Festival Internacional de Documentários.
E-mail: labaki@etudoverdade.com.br
Globo