Obesidade: os riscos do tempo frio

 

Fonte:


Períodos festivos, notadamente as comemorações de fim de ano e a Páscoa, são apontados como indutores de desregramento comportamental e ganho de peso; assim, em suas vésperas, um gigantesco exército de conselheiros se dispõe a nortear condutas salvadoras.

Algumas ameaças escapolem dos aconselhadores de ocasião, pois surgem como imposições terapêuticas para metas específicas, como visto nas corticoterapias, com pacientes submetidos, eventualmente, a grandes doses de corticoides, hormônio sabidamente facilitador do ganho ponderal.

Outros fármacos possuem capacidade semelhante: alguns antidepressivos, antiepilépticos e antipsicóticos reinam nos bancos dos réus, especialmente quando não é possível substituí-los por fármacos alternativos.

A ação destas substâncias nas regiões do sistema nervoso central que controlam a fome e a saciedade provoca um importante descompasso fisiológico, com sensível aumento da ingesta calórica, que, a depender do tempo e das doses empregadas, pode gerar ganhos consideráveis na balança.

Atenção redobrada a atletas forçados a cessar suas atividades por lesões que impedem os movimentos, assim como àqueles que abandonam o tabagismo.

Quando organismos com gastos calóricos extraordinários suspendem subitamente suas atividades, os centros gestores da ingestão alimentar demoram a interpretar as novas e menores necessidades calóricas, o que promove um balanço energético positivo perturbador.

Alguns estudos apontam a nicotina como um potente agente termogênico, aumentando o metabolismo basal em cerca de 10%, o que justificaria o ganho de peso associado à interrupção do tabagismo. O aumento do consumo calórico associado às papilas gustativas livres de várias substâncias do tabaco, bem como a compulsão gerada pela angústia da ausência do elemento viciante, desempenham papéis importantes.

Sorrateiro e inevitável, chega o inverno e em tempos de destemperos climáticos pelo mundo afora, a intensidade e a duração dessa temporada fria são ainda menos previsíveis.

Fisiologicamente, é explicável o aumento do consumo calórico nesta estação, pois o corpo demanda mais energia para manter a temperatura corporal. Estudos sugerem maior propensão ao acúmulo de gordura em pessoas que vivem longe da linha do Equador, que seriam protegidas da obesidade por um aumento significativo da gordura marrom, rica em mitocôndrias e que dissipa calorias na forma de calor. Mas essa lógica não se aplica ao resfriamento temporário que ocorre nos invernos das regiões predominantemente quentes, e o ganho de gordura corporal decorre de diversos fatores.

Aguardamos o período para nos aninharmos em boas mesas com sopas cremosas, queijos envelhecidos, massas, ensopados e fondues. Em comportamentos mais imediatistas e menos elaborados, lá se vão inúmeros hambúrgueres. Evitamos sair de casa, boicotamos nossos planos de exercícios físicos, usamos roupas que nos deixam visualmente elegantes, mas nos roubam a autopercepção imediata do peso.

A questão é que nos envolvemos em combos engordativos ocasionais, com contrapontos claros a serem adotados, contudo, sem métricas definidas e ditados por respostas fisiológicas e instintivas.

São muitas as circunstâncias em que o ganho ponderal transcende decisões e escolhas pessoais, as mesmas que contingenciam os perigos perenes.

Compreender estas interferências impositivas de elementos fisiológicos e instintivos é fundamental para nos desprendermos da culpa e procurarmos ajuda para além de conselhos bem-intencionados, frequentemente mais imaginários do que exequíveis.