O time dos sonhos da Áustria que foi extinto pelos nazistas e virou mito
A Áustria começou a sua participação na Copa do Mundo de 2026 com uma vitória de 3 a 1 sobre a Jordânia e em busca de reconquistar os tempos de glória que a sua seleção tinha na década de 1930. O chamado “Wunderteam”, ou “time dos sonhos” em alemão, foi uma equipe vitoriosa e que revolucionou táticas do futebol europeu, mas que teve um fim trágico em meio à ascensão do nazismo.
O Wunderteam é considerado até hoje a melhor seleção que a Áustria já teve e, sob a liderança do técnico Hugo Meisl, teve seu auge entre 1931 e 1934, com um futebol ofensivo e criativo. A equipe se manteve invicta por 14 partidas entre abril de 1931 e dezembro de 1932, na mesma época em que ganhou a Copa Internacional da Europa Central, campeonato que eventualmente daria origem à Eurocopa.
Nesse campeonato, o Wunderteam goleou Escócia, Alemanha, Suíça e Hungria, marcando ao todo 32 gols e sofrendo apenas 5.
O time chegou à Copa do Mundo de 1934 como uma das favoritas ao título, porém foi derrotado pela Itália na semifinal.
O craque
Entre os jogadores do Wunderteam, o destaque da seleção era Matthias Sindelar, conhecido como “o homem de papel” devido ao seu porte físico magro e agilidade impressionante. Como centroavante, ele ficou conhecido pela sua habilidade de driblar e pela sua inteligência táctica.
Sindelar pode ser considerado o primeiro “falso 9” de uma seleção, pois, ao invés de manter uma posição estática como centroavante, ele recuava até o meio-campo para buscar o jogo e armar jogadas extras.
Matthias Sindelar
Wikimdia Communs
O último jogo
Em março de 1938, a Áustria foi anexada pela Alemanha nazista, que iniciava a sua expansão pela Europa em antecipação à Segunda Guerra Mundial. Em abril daquele ano, os alemães organizaram um "jogo de reconciliação” com a então seleção da Áustria para comemorar a união dos países e exigiram que os austríacos empatassem o jogo em zero a zero para exibir a “união ariana”.
Os jogadores austríacos, porém, se recusaram a entregar o jogo e a disputa terminou com uma vitória de 2 a 0 sobre os nazistas. Relatos da época dizem que Sindelar, depois de marcar o primeiro gol, foi dançar em frente às arquibancadas das autoridades nazistas como uma forma de provocação.
Sindelar chegou a ser convidado para começar a jogar pela seleção alemã, mesmo sendo considerado “pró-judeu” por jogar no time Austria Viena, que tinha origens judias. O jogador recusou o convite dos nazistas e, em janeiro de 1939, foi encontrado morto em sua casa por asfixia decorrente de vazamento de monóxido de carbono por uma chaminé defeituosa. Cerca de 20 mil pessoas compareceram ao seu funeral em Viena.
Relação com os nazistas
Após a anexação da Áustria pela Alemanha, os jogadores do Wunderteam foram convocados para se unir ao time alemão.
Sindelar encontrava desculpas para não usar a camisa nazista, mas, além dele, o meio-campista Walter Nausch também se posicionou contra o regime e chegou a se exilar na Suíça, para proteger a sua esposa que era judia. Ele voltou para Áustria apenas em 1948, quando se tornou treinador da seleção nacional. Nausch permaneceu no cargo até 1954, após a equipe alcançar o terceiro lugar na Copa do Mundo.
Porém, nem todos os jogadores austríacos conseguiram se esquivar da demanda nazista. Na Copa do Mundo de 1938, a seleção da Alemanha tinha nove atletas que haviam representado a Áustria anteriormente, segundo o jornal espanhol AS, sendo eles Hahnemann, Raftl, Hans Mock, Hans Pesser, Willibald Schmaus, Stefan Skoumal, Franz Wagner, Josef Stroh e Leopold Neumer.
A expectativa nazista era que a participação na Copa do Mundo de 1938 servisse de propaganda política para o regime, mas os conflitos de vestiário entre os alemães e austríacos prejudicaram o desempenho do time, que foi desclassificado ainda na fase de grupos.
Ainda assim, não é claro se os jogadores austríacos que permaneceram competindo pela Alemanha eram ou não a favor do nazismo.
O zagueiro Karl Sesta, por exemplo, marcou o segundo gol da Áustria no jogo de reconciliação, no que foi interpretado como um desafio ao sistema. Porém, ele também aparece em muitas fotos da época "a serviço do Estado, como auxiliar durante o plebiscito, trabalhando na colheita ou decorando a sede do clube com bandeiras com suásticas", segundo o jornal alemão Süddeutsche Zeitung.
