Como os pombos-correio encontram o caminho de casa? Cientistas investigam papel inesperado do fígado; entenda
A capacidade dos pombos-correio de retornar ao ninho mesmo depois de serem soltos a centenas de quilômetros de distância continua intrigando a ciência. Agora, um estudo publicado na revista Science levanta uma hipótese inusitada: parte desse sofisticado sistema de orientação pode estar ligada ao fígado, e não apenas ao cérebro ou aos órgãos sensoriais tradicionalmente associados à navegação.
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Pesquisadores identificaram no órgão células do sistema imunológico carregadas de ferro, conhecidas como macrófagos, que poderiam atuar como sensores do campo magnético terrestre. A proposta é que essas estruturas ajudem as aves a perceber mudanças magnéticas do ambiente e utilizem essa informação para se localizar, especialmente quando referências visuais não estão disponíveis.
Segundo os autores, o mecanismo seria mais importante em situações de baixa visibilidade, como dias de neblina intensa ou céu encoberto. Nesses cenários, quando o Sol e elementos da paisagem deixam de servir como guia, os macrófagos ricos em ferro poderiam funcionar como uma espécie de sistema de navegação auxiliar.
Para testar a teoria, a equipe realizou experimentos com 34 pombos. Em 18 deles, foi aplicado um tratamento destinado a reduzir a quantidade dessas células, enquanto os demais permaneceram inalterados. Sob condições de nevoeiro, as aves que passaram pela intervenção apresentaram maior dificuldade para retornar ao pombal, enquanto o grupo de controle conseguiu completar um percurso de cerca de 19 quilômetros em aproximadamente 70 minutos.
Quando os testes foram repetidos em dias de céu limpo, porém, a diferença praticamente desapareceu: até mesmo os animais submetidos ao tratamento conseguiram encontrar o caminho de volta. O resultado reforça a hipótese de que a percepção magnética não substitui a navegação visual, mas pode servir como um recurso adicional quando outros pontos de referência deixam de existir.
Apesar do entusiasmo com a descoberta, a interpretação dos resultados ainda divide especialistas. Alguns pesquisadores argumentam que os efeitos observados podem estar relacionados a alterações na cognição, na motivação ou até na capacidade visual das aves, e defendem que estruturas como o ouvido interno continuam sendo as candidatas mais prováveis para explicar a percepção do campo magnético.
Os próprios autores reconhecem que ainda há perguntas sem resposta, como a forma pela qual um eventual sinal produzido no fígado chegaria ao cérebro. Ainda assim, consideram que a pesquisa abre uma nova frente para investigar um dos fenômenos mais impressionantes do reino animal: a habilidade dos pombos-correio de localizar o caminho de casa com uma precisão que desafia cientistas há décadas.
