O sommelier de boteco ataca novamente

 

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Quando achei que só havia chatos com listas de bistrôs pouco conhecidos de Paris, eis que se multiplicam os cariocas que querem tirar onda por frequentar os botequins mais escondidos da cidade. “Sabe aquele lá nos fundos da Barata?”, pergunta. Caso você não tenha a menor noção nem de onde fica a tal rua, a resposta é automática: “Ih, você não sabe nada, então”. Não estou falando de defender iguarias ou até mesmo os templos sagrados das cervejinhas e afins, mas de transmitir aquela ideia de Deus do Olimpo boêmio. Dá sono.

A noite que não existe mais: boates viraram estacionamentos, templos da fé ou clubes

O Oriente Médio está no Rio, e você nem percebeu

Dia desses, no aeroporto, fui surpreendido por um colega de faculdade que, por razões óbvias, não via há dois séculos e meio. “Você prefere vinho ou cerveja?”, questionou após breves cumprimentos. “Cerveja, mas dependendo da situação, vinho”, devolvi laconicamente. “E de moela? Jiló? Comida de botequim mesmo?”. Sem saber onde aquela maluquice iria dar, tentei me despedir. “Tô perguntando porque você tem que ir ao boteco que descobri nessas minhas andanças pelo Méier. Vou te mandar no privado uma lista de botequins incríveis e que ninguém conhece”.

Ronald de Chevalier era um crítico feroz dos chatos — inclusive das listas. Lendário boêmio, protagonizou cenas que marcaram as noites de Ipanema e do Leblon. Quando necessário, chamava o outro de insuportável. Economista e um dos fundadores da Banda de Ipanema, o famoso Roniquito era elegante e tranquilo antes do álcool e outro completamente imprevisível depois. Ele próprio avisava, em tem de piada, que ao beber uma personalidade dava lugar à outra.

Ao lado do cartunista Jaguar, acumulou expulsões em sequência numa mesma noite. Ainda assim, a parceria boêmia seguia firme. Em um velório, entrou por engano na sala errada e, diante de um desconhecido no caixão, soltou que aquele morto era feio — o amigo deles era bem mais apresentável. A reação quase terminou em agressão. A Tom Jobim, perguntou o que o maestro achava da obra de Cole Porter. Educado, Tom Jobim deu a sua opinião. Roniquito fulminou em seguida: “Quem é você para analisar a obra de Cole Porter?”.

Nem a tensão da ditadura militar o freou. Em 1964, numa mesa em Copacabana, criticou o regime em voz alta, sem perceber que havia militares próximos. A situação escalou rápido. Levado à delegacia, ainda provocou os policiais. O delegado logo percebeu que tinha um problema nas mãos: o fluxo de piadas não parava. Acabaram liberados com ajuda de contatos influentes.

Imagina o que Roniquito falaria desses sommeliers de boteco. Imagina.

Quem bebe na Farani...

Frequentadores de bares na Rua Farani, em Botafogo, dificilmente imaginam que o local leva o nome de dois irmãos italianos que tiveram ligação direta com a corte imperial brasileira. Chegados ao Rio de Janeiro por volta de 1845, os irmãos Farani tornaram-se próximos da imperatriz Teresa Cristina, esposa de Dom Pedro II, o que facilitou sua inserção nos círculos da nobreza.

Com atuação inicial ligada à Casa da Moeda Imperial, os irmãos participaram da produção de moedas, mas foi no ramo da joalheria que alcançaram maior notoriedade. A loja deles, na Rua do Ouvidor, no centro da cidade, tornou-se ponto de referência e atraía clientes ilustres, incluindo membros da família imperial.

Um episódio curioso marcou a trajetória dos Farani: criminosos chegaram a cavar um túnel com o objetivo de invadir a joalheria. No entanto, desistiram da ação após o barulho no local, possivelmente confundido com festas promovidas pelos próprios irmãos.

Além do sucesso comercial, os Farani também deixaram sua marca na urbanização da cidade, participando da abertura de ruas — entre elas, a atual... Rua Farani.

Quem bebe na Santa Luzia...

A região ao redor da igreja de Santa Luzia, no Centro, também esteve associada a um dos aspectos mais duros da história da cidade. Próximo dali funcionavam áreas de execução por enforcamento, utilizadas para condenados por diversos crimes — em sua maioria, pessoas negras. Antes da execução, era comum que os sentenciados passassem pela igreja para orações, o que fez com que o local ganhasse o apelido de “Santa Rita dos Malfeitores”.

Os rituais de enforcamento seguiam práticas públicas: o condenado era conduzido até o local, subia em uma estrutura de madeira, tinha a corda ajustada ao pescoço e, após eventuais últimas palavras, era executado com a retirada do apoio. Em alguns casos, a morte não era imediata, exigindo intervenção do carrasco. As execuções, por vezes, atraíam espectadores.

Outro aspecto marcante da região foi a proximidade com o cemitério de pretos novos, ativo entre 1721 e 1769, destinado a africanos escravizados que não sobreviviam à travessia atlântica. Apesar desse contexto, a igreja também ficou conhecida pela crença em águas consideradas milagrosas, que atraíam peregrinos.

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