Hezbollah diz ter 'o dedo no gatilho' após cessar-fogo e ameaça reagir a violações de Israel
O Hezbollah afirmou ter “o dedo no gatilho” caso Israel viole o cessar-fogo em vigor no Líbano, em meio a um cenário de desconfiança poucas horas após o início da trégua. O acordo, mediado pelos Estados Unidos, entrou em vigor às 18h (horário de Brasília) desta quinta-feira e prevê uma pausa inicial de 10 dias nos confrontos.
Guga Chacra: A geografia religiosa do Líbano e o risco de uma nova guerra civil
Devastação: Imagens de satélite mostram escala de demolições israelenses no Líbano, com mais de 1,4 mil edifícios destruídos em um mês
Em um comunicado, o Hezbollah afirma ter realizado durante a guerra de 45 dias “2.184 operações militares” contra Israel e o Exército israelense em território libanês.
“Os combatentes manterão o dedo no gatilho porque desconfiam da traição do inimigo”, acrescenta.
A declaração do grupo ocorre após o Exército libanês acusar Israel de realizar ataques e “bombardeios intermitentes contra diversas aldeias” no sul do país logo após o início do cessar-fogo. Não houve confirmação de vítimas, e o governo israelense não comentou as acusações.
Do lado do Hezbollah, o grupo também afirmou ter atingido posições israelenses perto da cidade de Khiam, indicando que a trégua já enfrenta tensões no terreno.
Trégua sob pressão e impasses
O cessar-fogo foi anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, após conversas com o presidente libanês, Joseph Aoun, e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. A ofensiva israelense contra o Hezbollah, que antecedeu o acordo, deixou mais de 2 mil mortos e cerca de 1 milhão de deslocados no Líbano.
Pelos termos do acordo, Israel mantém o direito de autodefesa, mas não pode realizar ataques contra alvos no território libanês. A trégua pode ser prorrogada caso haja avanço nas negociações.
O acordo enfrenta desafios estruturais, especialmente em relação ao papel do Hezbollah. Os termos preveem que o Líbano deve garantir que apenas suas forças de segurança atuem na defesa nacional, o que implica limitar a atuação do grupo armado, que não participou das negociações, mas declarou que respeitaria a trégua.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, já indicou que qualquer negociação passa pelo desarmamento do Hezbollah e por um acordo de paz “alcançado pela força”.
Outro ponto de tensão é a presença militar israelense no território libanês. Netanyahu afirmou que tropas permanecerão em uma faixa de 10 km dentro do Líbano durante o período da trégua, enquanto a definição da fronteira entre os países segue em aberto.
O cessar-fogo ocorre em meio a um cenário humanitário crítico, com mais de 2 mil mortos, cerca de 7 mil feridos e deslocamento em massa da população. Mesmo com a trégua, autoridades alertam que ainda não é seguro o retorno imediato às áreas afetadas.
Entre civis, o acordo é visto como um alívio após semanas de bombardeios. “Queremos paz e esperamos que o Irã não a obstrua. Estamos extremamente cansados. Vivemos muitas guerras e queremos descanso”, afirmou o trabalhador Kamal Ayad, em Beirute.
