O soldado que vandalizou estátua de Cristo e o pastor que chutou a santa
Era 12 de outubro de 1995, Dia de Nossa Senhora da Aparecida, feriado no Brasil, quando o pastor Sérgio Von Helder, da Igreja Universal do Reino de Deus, aproveitou seu programa "O despertar da fé", na TV Record, para criticar a adoração à figura da padroeira do país. Durante um sermão, de microfone na mão, falando para a câmera, ele soca e chuta uma imagem da santa enquanto afirma, exaltado: "Estamos mostrando às pessoas que isso aqui não funciona" e "isso não é santo coisa nenhuma".
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"Será que Deus, o Criador do universo, pode ser comparado a um boneco desse, tão feio, tão horrível, tão desgraçado!?", completou o pastor, expressando seu repúdio à chamada idolatria, algo combatido por religiões protestantes desde a época de Martinho Lutero. Foi esse monge e teólogo alemão, líder da Reforma Protestante, que, entre os séculos XV e XVI, começou a criticar a veneração de santos e relíquias em prol da salvação. Para protestantes, Cristo é o único mediador entre nós e Deus.
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A atitude de Von Helder gerou comoção. Instituições como a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), pronunciaram-se indignadas. A cena foi criticada até na Igreja Universal, cujo fundador, Edir Macedo, pediu perdão aos católicos. O pastor foi processado e chegou a ser condenado.
Imagem de soldado israelense vandalizando imagem de Jesus Cristo na vila libanesa de Debel
Reprodução/Redes Sociais
Ataques a imagens sagradas, como o golpe de marreta aplicado pelo soldado israelense numa estátua de Cristo no Líbano, na semana passada, são uma expressão violenta da intolerância. Infelizmente, é algo que se repete ao longo da História. No início da Era Cristã, os romanos destruíam quaisquer objetos de adoração dos seguidores de Cristo. Naquela época, aliás, adotar o cristianismo como fé poderia ser punido com morte. Já na Idade Média, eram os próprios católicos, dominantes na Europa, que atacavam, por exemplo, figuras e locais de adoração da religião nórdica, na Escandinávia.
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No século XIX, a Igreja proibia africanos escravizados no Brasil de venerar orixás da outra margem do Atlântico. Para manter sua fé, os negros sequestrados passaram a associar suas divindades a santos cristãos com características parecidas, dando origem a "novas" religiões. A festa do Dia de São Jorge, nesta quinta-feira, é um exemplo de celebração desse sincretismo, já que o santo guerreiro nascido na Capadócia também é venerado pelos devotos de Ogum, orixá da guerra na Umbanda.
No Holocausto, rolos de torá e outros objetos sagrados do judaísmo foram destruídos pelos nazistas, que obrigavam os judeus a andar com estrelas de Davi amarelas na manga da camisa, subvertendo, assim, outro símbolo da religião que Hitler queria aniquilar. Décadas depois, lá estava o soldado das Forças de Defesa de Israel (IDF, em inglês) atacando a estátua de Jesus durante a invasão militar numa área de maioria cristã do Líbano. Outros símbolos religiosos também foram danificados.
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Tudo isso é a manifestação de um sentimento de intolerância religiosa que parte sempre de quem não respeita as crenças que não sejam a sua própria. Algo que, infelizmente, está presente entre adeptos das mais diversas correntes de fé. Os jihadistas, por exemplo, encaram como obrigatório o combate a todas as outras religiões. Militantes do Estado Islâmico profanaram túmulos e ornamentos cristãos no Iraque a partir de 2014, quando a organização extremista começou a dominar áreas do país.
Terreiro de Candomblé e Umbanda, em São João da Barra, é vandalizado
Reprodução/ Rede Social
No Brasil de hoje, símbolos sagrados e locais de adoração de religiões de matriz africana são com frequência atacados por adeptos extremistas de igrejas neopentecostais. Essas agressões se tornam alvo de críticas na imprensa e são condenadas por parte da sociedade, mas a reação se compara, em tamanho, ao que se viu em 1995, depois que o pastor Sérgio Von Helder bateu em uma imagem da Nossa Senhora da Aparecida durante um programa transmitido em cadeia nacional.
Naquela ocasião, autoridades como o então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, criticaram prontamente o "chute na santa". Atos em desagravo realizado pela Igreja Católica reuniram dezenas de milhares de pessoas em diferentes capitais. Em meio à onda de repercussão negativa, o pastor Von Helder tentou deixar o país, rumo à África do Sul, mas foi impedido no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, por policiais federais, obedecendo a uma ordem judicial.
Ao ser indiciado numa delegacia, Von Helder alegou que "apenas encostei o pé sobre a estátua e apalpei com as mãos", negando que tivesse cometido uma agressão. Ainda assim, ele foi afastado do programa "O Despertar da Fé" e processado criminalmente. Em 1997, o pastor foi condenado a dois anos de prisão por discriminação religiosa e vilipêndio a imagem. Como era réu primário, pôde responder em liberdade. Mais tarde, a pena seria reduzida. Ele não chegou a ficar preso.
