Há personagens que não conseguem sobreviver à própria derrota. Não porque lhes falte força, mas porque lhes sobra orgulho.
Preferem incendiar o mundo a admitir que perderam uma batalha. John Milton, em sua monumental obra Paraíso Perdido, publicada no não tão distante século XVII, construiu um dos retratos mais fascinantes dessa condição humana: Satã, o anjo rebelde, caído, expulso do Paraíso, que transforma sua derrota em discurso de resistência e sua incapacidade de aceitar limites em uma suposta virtude.
Satã, na obra de Milton, não é apenas a representação do mal. É também a personificação da soberba, da ambição desmedida e da capacidade de seduzir os outros com uma narrativa heroica sobre a própria queda.
Sua frase mais célebre – é melhor reinar no Inferno do que servir no Céu – sintetiza a lógica de quem prefere governar as ruínas a reconhecer a legitimidade de uma ordem que não controla. É difícil não encontrar alguma semelhança entre esse personagem e Flávio Bolsonaro.
Depois de perder a eleição presidencial, o senador não parece ter encontrado forças para enfrentar a realidade mais elementar da democracia: o voto popular. Antes de fugir, prometeu permanecer no país, entregar seus passaportes e organizar a oposição.
Pouco depois, atravessou fronteiras como um criminoso e desembarcou nos Estados Unidos. O homem que pretendia liderar uma cruzada contra o governo brasileiro decidiu fazê-lo a partir de Miami.
O guerreiro da soberania nacional encontrou refúgio sob a proteção política de Donald Trump. O patriota que discursava sobre os perigos de uma suposta tirania preferiu a distância quando chegou a hora de enfrentar as instituições do próprio país.
Milton talvez reconhecesse nesse movimento uma das características mais perversas de seu Satã: a capacidade de converter a derrota em narrativa de grandeza. O anjo caído não admite que foi vencido.
Rebatiza a derrota de resistência, o exílio de liberdade e a rebelião de missão histórica. É justamente aí que mora o perigo.
Satã não precisa convencer os outros de que venceu; basta convencê-los de que continua lutando. Sua força está menos na verdade de seus argumentos do que na habilidade de transformar ressentimento em identidade coletiva.
A família Bolsonaro construiu sua trajetória política alimentando essa lógica. Quando perde, denuncia perseguição.
Quando é confrontada pelas instituições, anuncia uma ditadura. Quando precisa responder a questionamentos, apresenta-se como vítima.
E, quando a realidade se torna inconveniente, procura-se um inimigo para explicar o fracasso nacional. Mas há uma diferença importante entre o personagem de Milton e seu possível imitador tropical.
Satã enfrenta o exílio e continua sua batalha. Flávio, ao que tudo indica, preferiu mudar de continente para não enfrentar as consequências políticas e judiciais de suas escolhas.
Talvez a maior ironia seja esta: aquele que pretendia salvar o Brasil daquilo que chamava de tirania acabou fugindo. O líder que prometia não abandonar seus seguidores deixou para trás o país que pretendia governar.
No poema de Milton, o Inferno não é apenas um lugar. É também uma condição moral: a incapacidade de reconhecer os próprios erros e a insistência em transformar o orgulho ferido em destino coletivo.
Há quem queira fazer de Miami o seu Pandemonium. Mas, na literatura de Milton, nem toda fuga significa salvação.
E nem todo anjo que se proclama rebelde deixa de ser, no fundo, apenas um anjo caído. Assim como Satanás.
Brasil 247