O 'renascimento' do Chopin aos 70 anos: edifício de moradores ilustres tem novas regras e salões reformados
Shakira, hospedada no Copacabana Palace, estava a poucas horas de subir ao palco da praia. Enquanto isso, no Chopin, prédio vizinho ao hotel, um conterrâneo da cantora tentava se passar por corretor para acessar o edifício. Em vão. Policiais foram acionados e levaram o colombiano invasor. O intuito era entrar de penetra em alguma das festas que têm como atrações principais a vista mais famosa da cidade, o mar e o vaivém turístico do calçadão, ou cometer um delito mais grave? Não se sabe. Mas o prédio mais luxuoso da orla de Copacabana não pode ter uma segurança frágil. Neste ano em que se torna um setentão, vai ganhar reforços tecnológicos. Serão instaladas 146 novas câmeras e outros equipamentos de segurança.
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O edifício de 66 apartamentos é oficialmente assinado por Jacques Pilon, mas o projeto foi em grande parte desenvolvido por Franz Heep. A partir dos anos 1960, moraram lá o presidente João Goulart, o deputado federal Mário Tamborindeguy e o empresário Adolpho Bloch, fundador da rede Manchete. Até hoje, circulam pelos elevadores e pelas garagens em dois pavimentos figuras da diplomacia, socialites, herdeiros, artistas e famílias ricas e tradicionais brasileiras.
Projeto de uma das novas portarias do Chopin, em Copacabana
Joy Arquitetura/Divulgação
O Chopin terá a primeira etapa de obras entregue no fim de outubro e uma festa em dezembro para comemorar seu “renascimento”, com portarias reformadas, brinquedoteca, academia, espaço de bem-estar e novos mecanismos de proteção.
— Vamos ter câmeras que mostram imagens no escuro, com infravermelho, e uma nova portaria com divisória — adianta Marina Felfeli, síndica que administra o condomínio há cinco anos e, entre idas e vindas de São Paulo, mora no prédio desde a inauguração.
Marina Felfeli, síndica do Chopin e moradora há quase 70 anos
Divulgação
O edifício foi construído em 1956 em um terreno rejeitado por Octávio Guinle, fundador do Copacabana Palace. À época, ele recusou o espaço, tomado por uma rocha, por achar que seria impossível erguer ali outra edificação. O polonês Henryk Spitzman Jordan provou o contrário: quebrou a pedra Inhangá e a usou como matéria-prima. São 12 andares e nove lojas — que se tornarão, em breve, sete. No corpo de funcionários, há 12 porteiros e oito garagistas. Da administração, cuidam uma síndica, um subsíndico e três conselheiros.
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Desfile de celebridades
Ao mesmo tempo que o condomínio de mais de R$ 3.500 e os apartamentos de R$ 4 milhões a R$ 35 milhões (triplex) distanciam o comprador comum, muita gente se sente próxima do luxuoso vizinho do Copa: é o efeito da badalação das celebridades. Com frequência pedestres olham para o alto e procuram, por exemplo, Narcisa Tamborindeguy, moradora local desde que nasceu e a única capaz de usar um megafone para se comunicar com quem passa na rua ou se hospeda no hotel ao lado. Já teve até fã querendo subir para tietar.
— Umas semanas atrás, eu estava na calçada esperando o táxi e vi duas pessoas apontando: é ali que mora a Narcisa — diz sua irmã, Alice Tamborindeguy, advogada e ex-deputada estadual, que também tem um primo no prédio. — Somos a família com mais moradores aqui. A gente ama, se sente acolhido. E Copacabana é o templo do planeta! Me desculpe quem mora em Ipanema, no Leblon, na Barra. A Praia de Copacabana, com seu circuito arredondado, realmente é a mais bonita, é de capotar!
Liliane Carneiro Costa em sua janela no Edifício Chopin, em Copacabana
Custódio Coimbra
A corretora de imóveis Liliane Carneiro Costa se mudou há um ano para o Chopin para ampliar seus negócios. Natural de Minas Gerais, ela vê no mercado carioca grandes oportunidades para vender mais.
— Trabalho com uma imobiliária boutique em Minas Gerais, com imóveis de alto luxo. Entendi que aqui seria uma localização-referência, porque o Chopin e o Copacabana Palace são duas construções ícones no Rio e em Copacabana — afirma.
Gilberto Gil, por sua vez, está de saída. Após sete anos, pôs o apartamento de 344 metros quadrados à venda. Em outro andar, no entanto, tem morador novo. Fábio Porchat conta que chegou ali por um motivo simples: “estava há seis meses procurando casa e achei uma”. Na internet, o humorista mantém o clima e brinca com perrengues, entre eles o desafio de içar o sofá pela janela.
Recentemente, houve ainda o retorno de Regina Gonçalves. A socialite, viúva do empresário Nestor Gonçalves, reocupou seu apartamento, após um raro momento em que o Chopin foi cena de um caso de polícia: com a prisão de seu ex-motorista, José Marcos Chaves Ribeiro, denunciado por tentativa de feminicídio, sequestro, cárcere privado, violência psicológica e furto qualificado, ela volta a abrir os salões para receber os amigos. Um alívio para ela, que foi acolhida por vizinhos saudosos. No prédio, socialites enviam quitutes umas para as outras e trocam figurinhas sobre acessórios fashion.
— Micheline Tomé manda um arroz de lentilha que é uma maravilha, o melhor da vida! — diz Alice Tamborindeguy.
Os shows do Todo Mundo no Rio e as festas de réveillon também unem a vizinhança, seja para festas ou para reclamações: há quem fique indignado por não conseguir acessar o próprio prédio ou se incomode com a passarela montada na frente de casa. Quando o evento passa, as reclamações arrefecem.
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Privacidade blindada
Mostrar a casa para quem quer que seja, comportamento comum aos famosos, está fora de cogitação para ocupantes mais discretos do Chopin. Mesmo compradores interessados precisam passar por um crivo para serem habilitados à visita. Para ter a oportunidade de circular pelo triplex de R$ 35 milhões e 980 metros quadrados, piscina com turbilhão para natação, varanda gourmet com churrasqueira e chão de mármore Botticino, é preciso ter a ficha analisada previamente.
Fichas sujas, no sentido figurado, distinguem os bons dos maus moradores. Anos atrás, quando maus-tratos aos trabalhadores do prédio estavam se tornando comuns, os preconceituosos receberam uma carta de advertência.
Edifício Chopin, na Avenida Atlântica
Custodio Coimbra
— Entre outras histórias, a muitos a gente dava bom dia e eles não respondiam — lembra Cassiano Fernandes, que já foi da faxina e está há sete anos na portaria.
O “renascimento” do Chopin é, além de estrutural, comportamental.
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