A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) nas eleições presidenciais deste domingo (25) também foi celebrada como uma conquista dos fandoms, comunidades de fãs de artistas que transformaram as redes sociais em espaços de mobilização política. Em análise publicada após o resultado, a revista americana Variety destacou o papel de admiradores de nomes como Taylor Swift, Billie Eilish, Lady Gaga, Harry Styles, Katy Perry e Selena Gomez na campanha petista, que buscou ampliar seu alcance entre o eleitorado jovem.
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Segundo o jornal The Guardian, mais de 600 grupos de fãs brasileiros declararam apoio a Lula na reta final da disputa. Já o coletivo Fandoms pelo Brasil, que reúne cerca de 250 grupos, organizou manifestações e ações digitais em defesa da democracia.
A mobilização ganhou força após o primeiro turno, em 4 de outubro, quando Flávio Bolsonaro terminou à frente do petista, e culminou em atos públicos em diferentes cidades. De fã-clubes a agentes políticos
A articulação não surgiu do zero. Conforme mostrou o Nexo, perfis dedicados a artistas no X, começaram a oferecer suas plataformas para divulgar ações de campanha ainda na noite da apuração do primeiro turno.
Dois dias depois, o Fandoms pelo Brasil passou a organizar a chamada Marcha pela Democracia, realizada em 11 de outubro em São Paulo e, no dia seguinte, no Rio de Janeiro. A estratégia aproveitou uma característica central desses grupos: a capacidade de mobilizar milhares de pessoas em torno de interesses comuns e fazer conteúdos circularem rapidamente.
Fã-clubes de artistas diferentes, e até de nomes cujos admiradores mantêm rivalidades entre si, passaram a atuar em torno de uma pauta política compartilhada. O movimento também levou o debate eleitoral para espaços que tradicionalmente não são associados à política partidária.
Representantes de fandoms participaram de uma transmissão ao vivo com o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), na DiaTV, e formularam perguntas sobre temas como o fim da escala de trabalho 6x1 usando referências a músicas pop. A ideia, segundo os organizadores ouvidos pelo Nexo, era aproximar questões políticas do cotidiano dos jovens.
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A relação entre os fandoms e o governo Lula também passa por uma pauta anterior à eleição: as mudanças nas regras para a venda de ingressos de shows, aprovadas em agosto. A iniciativa ajudou a aproximar o vice-presidente de comunidades de fãs, que frequentemente se mobilizam contra práticas como a cobrança abusiva de preços e a atuação de cambistas.
Para os organizadores, a participação política também está relacionada à defesa de direitos. Rafaella Silveira, fundadora do perfil Beyoncé Brasil e uma das responsáveis pelo Fandoms pelo Brasil, afirmou ao Nexo que a comunidade reúne mulheres, pessoas LGBTQIA+, indígenas e negros, grupos diretamente afetados por diferentes debates políticos.
Tainá Lacerda, responsável pelo perfil Anitta Crave, também destacou ao jornal a preocupação com os direitos da população LGBTQIA+ e a defesa da democracia. A mobilização, portanto, não se limitou à admiração por artistas: os fandoms passaram a utilizar suas redes para discutir políticas públicas e ampliar o acesso a informações eleitorais.
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Redes sociais viraram campo de disputa A Variety ressaltou que a campanha presidencial foi disputada nas redes sociais antes mesmo da votação.
No primeiro turno, a comunicação digital de Lula enfrentou dificuldades para produzir conteúdos virais, enquanto a campanha buscou novas estratégias na etapa final. Entre as iniciativas estavam vídeos do próprio candidato falando diretamente com o eleitor e o canal de WhatsApp Exército de Lula, criado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG).
A mobilização dos fandoms se encaixou nesse esforço para alcançar públicos jovens. Para Adriane Buarque de Holanda, coordenadora do Laboratório de Pesquisa Política da ESPM, ouvida pelo Nexo, esses grupos podem ajudar a disseminar informações e ampliar a circulação de conteúdos políticos por meio dos algoritmos das plataformas.
O resultado também chama a atenção para uma mudança na forma de participação pública: comunidades originalmente organizadas em torno da música e do entretenimento passaram a atuar na disputa eleitoral, levando suas linguagens, referências e redes de relacionamento para o debate democrático.
Na avaliação da Variety, a vitória de Lula representa ainda um alívio para a indústria cinematográfica brasileira, que temia cortes no financiamento público caso o adversário vencesse. O resultado, assim, foi interpretado por diferentes setores culturais não apenas como uma escolha eleitoral, mas também como uma decisão com consequências para as políticas sociais, os direitos e o financiamento da cultura.
O Globo