O que faz um diretor de elenco? Entenda profissão de nova categoria do Oscar que indicou Brasil
Muito antes do primeiro grito de "ação" no set de filmagem, toda produção de cinema precisa cumprir algumas etapas, e uma delas é a escolha do elenco. O desafio é encontrar talentos para dar vida ao roteiro, estudando os personagens e conduzindo um processo seletivo em busca de pessoas mais adequadas para representá-los. Para isso, é preciso pensar tanto de forma individual quanto coletiva, considerando também o fator "química" entre atores.
‘Estrangeiros têm fascínio por conjunto de pessoas tão diverso’, diz diretor de elenco de ‘O Agente Secreto’
A seleção dos atores que darão corpo à história de um filme pode acontecer de diferentes formas: o artista pode se oferecer para o papel, o diretor pode escolher um nome de sua confiança e até mesmo o roteirista pode influenciar na decisão, principalmente quando escreve um papel pensando em determinado intérprete. Mas existe um profissional responsável pela escalação, que busca ativamente aqueles que irão compor a equipe: o diretor de elenco.
Uma nova categoria de premiação é inaugurada no Oscar de 2026 para reconhecer esse trabalho, e o Brasil conseguiu ser indicado de primeira: 'O Agente Secreto' concorre a quatro estatuetas, e uma delas é a de Melhor Casting (ou Melhor Direção de Elenco), que estreia na cerimônia deste domingo (15). O longa brasileiro concorre com as produções 'Hamnet: A vida antes de Hamlet' (Chloé Zhao), 'Marty Supreme' (Josh Safdie), 'Uma batalha após a outra' (Paul Thomas Anderson), e 'Pecadores' (Ryan Coogler), todas americanas ou do Reino Unido.
E coube a Gabriel Domingues escolher o conjunto de atores de 'O Agente Secreto' que tem causado fascinação na mídia internacional. Formado em Cinema pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Domingues já atuou tanto em produções da sétima arte quanto em séries de tv e streaming, assinando trabalhos como "Cidade de Deus - A Luta Continua" (2024), "Cangaço Novo" (2023), e "Notícias Populares" (2023).
Gabriel Domingues explica que a seleção de atores consiste em pensar conceitualmente sobre os personagens do roteiro e levantar as opções mais cabíveis para cada um, "que estejam mais alinhadas ao discurso estético, político e cinematográfico do filme", e destaca a importância da pluralidade de origens geográficas para 'O Agente Secreto'.
"Eu me preparei tendo uma formação de cinefilia, consumindo e estudando muito cinema, e também conhecendo as regiões do Brasil, os polos artísticos de determinadas cidades e entendendo a geografia humana do país. É sempre uma luta árdua pensar em cada personagem e todas as opções possíveis para eles. No caso do 'Agente', havia uma vontade muito grande por parte do Kleber em respeitar as origens e as formas próprias de falar, ou seja, a prosódia, o sotaque."
'Hamnet: A vida antes de Hamlet'; 'Marty Supreme'; 'Uma batalha após a outra'; 'O agente secreto'; e 'Pecadores' foram indicados a Melhor Direção de Elenco no Oscar 2026.
Divulgação
Cena de 'O Agente Secreto', com Wagner Moura e Fafá Dantas, a Das Dores (segunda à esquerda).
Divulgação
Até mesmo as redes sociais ajudaram na busca de Domingues por novos rostos para o filme. Foi por lá que o diretor descobriu Fafá Dantas, que interpreta Das Dores, umas das funcionárias do instituto de identificação onde o personagem de Wagner Moura, Marcelo, trabalha disfarçado.
Fafá conta que não havia visto nenhuma chamada oficial de elenco, mas foi contatada por Carolina Martins, assistente de Domingues, pelo Instagram. O processo para ser escolhida foi mais rápido do que a atriz imaginava.
"Eu não sabia qual era o filme. Após eu mandar um vídeo, ela perguntou se eu poderia participar de uma reunião com o diretor. Nessa reunião, ele me apresentou a Das Dores, que é a minha personagem, e conversamos sobre esse universo dessa personagem e ele já me convidou para participar do projeto."
'Trabalho de detetive'
Parte do elenco de 'Ainda Estou Aqui', de Walter Salles, vencedor do Oscar 2025 de Melhor Filme Internacional.
Reprodução/Instagram
Um "trabalho de detetive". É assim que a diretora de elenco de 'Ainda Estou Aqui', Letícia Naveira, descreve a profissão. "É um campo bem sensível, porque você vai tentando captar que características que esse personagem tem, como ele é fisicamente, como ele poderia ser. Você começa a desenhar. Às vezes já vem vindo atores no pensamento. Ou às vezes eu penso 'nossa, esse perfil aqui não consta! Vou ter que pesquisar'", explica.
Para escolher os atores do filme de Walter Salles, que conquistou o primeiro Oscar brasileiro da história, ela teve de pensar em dois grupos para interpretar a família Rubens Paiva nos diferentes períodos da história, fazendo "milhares de testes com milhares de crianças".
"Tinha eles jovens, depois eles mais velhos, e também tinha todo o elenco militar, que era um desafio grande, porque a gente queria trazer muita verdade. O Walter é muito naturalista, e a gente estava completamente focado em encontrar uma família que realmente fizesse sentido juntando os dois momentos."
Naveira destaca a escalação do ator mirim Guilherme Silveira, descoberto aos 13 anos, que interpretou Marcelo Rubens Paiva criança, que sentiu como um momento de "magia do cinema", descrevendo como o "encontro mais incrível".
"Ele foi descoberto na praia do Leblon, que é exatamente onde a família e o próprio Marcelo [da vida real] ia brincar. Essas coincidências que não são tão coincidências assim, a gente vê que tem uma conexão, uma coisa maior que está trabalhando para o filme. E no teste do Guilherme, ele estava tão natural, parecia que ele já tinha feito aquilo várias vezes, então foi definitivamente emocionante."
Novos talentos
Isadora Ruppert é Daniela em 'O Agente Secreto'.
Divulgação
O "trabalho de detetive" envolve a busca de atores e atrizes que podem ser desconhecidos do público. Ainda que pareça uma aposta arriscada, no caso de "O Agente Secreto", deu certo. O exemplo da atriz Tânia Maria comprova o sucesso: descoberta por acaso durante as filmagens de "Bacurau", em 2018, a atriz, de 79 anos, roubou a cena interpretando Dona Sebastiana, aparecendo em jornais internacionais e sendo cotada para indicações a Melhor Atriz Coadjuvante.
A atriz Isadora Ruppert interpretou uma das pesquisadoras que ouvem gravações de Marcelo no tempo futuro do filme, a Daniela. Isadora também foi Laura, filha de amigos do casal Paiva em 'Ainda Estou Aqui". Pra a atriz, que está no início da carreira, o aspecto da direção de elenco de revelar novos talentos faz toda a diferença para o artista e para o cinema brasileiro.
"É muito bonito quando a gente vê que houve uma pesquisa profunda, de buscar novos talentos, pessoas que não têm um trabalho tão extenso. E eu me coloco nesse bolo, sabe? É o meu terceiro longa. Então eles acreditaram em mim, mesmo eu não tendo um currículo super extenso. E mesmo as pessoas que têm, quando você vê na tela, está todo mundo de igual para igual. Nosso maior exemplo é a Dona Tânia."
Como funciona a nova categoria do Oscar de Melhor Direção de Elenco?
Gabriel Domingues, diretor de elenco de 'O Agente Secreto'.
Fábio Audi/Divulgação
Em Los Angeles para participar da cerimônia da premiação da Academia de Hollywood, Domingues explica que a categoria avalia qual filme tem o melhor casting, ou seja, a melhor escalação de elenco. Os critérios “ainda são um pouco nebulosos” – “é tudo uma novidade” –, e podem dizer respeito à inovação, à qualidade das performances, ao conjunto da escalação e à interação entre os atores. “Se o trabalho é bem feito, se os personagens são memoráveis, e o público se deixa afetar pela presença de rostos e corpos interessantes, ainda que desconhecidos”, avalia.
O diretor considera que ‘O Agente Secreto’ alcança esse lugar, e traz em seu elenco a "riqueza do Brasil", “sempre com figuras interessantes interpretando grandes personagens, entre pessoas famosas e ‘não famosas’”, como os muitos recifenses "não atores" que se orgulham de fazer parte do filme.
“Eu acho que, para os estrangeiros, essas caras são inimagináveis. Se nem a gente no Brasil tem a dimensão real da geografia humana brasileira, imagina eles. Então o fator espanto, surpresa, uma espécie de fascínio diante do conjunto de pessoas tão diverso, tão diferente entre si, isso revela a riqueza do Brasil.”
A votante do Globo de Ouro Barbara Demerov afirma que, sem o trabalho de casting, o efilme não acontece. A crítica de cinema acredita o trabalho de diretor de elenco pode ser mais reconhecido com a nova categoria do Oscar, após ser "invisibilizado por muitas décadas".
"O cinema existe há mais de 120 anos e demorou tudo isso para, numa premiação tão conhecida, ter um reconhecimento desses profissionais que estão atuando ao lado do diretor. O diretor de casting está ali desde muito cedo numa produção. Eu acredito que sim, que essa nova categoria ela vem para mudar algumas coisas de uma forma bem positiva, principalmente falando sobre valorização dos diretores de elenco nessas equipes criativas das novas produções."
Esta edição do Oscar é a primeira vez em mais de 20 anos que a Academia inclui uma nova categoria. Pra 2028, quando a premiação chega à centésima edição, está prevista a estreia do prêmio para melhores equipes de dublês.
