O que as redes sociais fazem com os jovens? Documentário estreia no SXSW com alerta sobre o dano da internet para crianças e adolescentes
No início de 2024, uma audiência no Congresso dos Estados Unidos sobre o impacto das redes sociais em crianças reuniu altos representantes das empresas de tecnologia Meta, X, TikTok, Discord e Snap. O próprio fundador e CEO da Meta, Mark Zuckerberg, estava no grupo e protagonizou uma cena emblemática e rara de se ver entre executivos do Vale do Silício. Ele se desculpou. E fez isso em pé, olhando para mães e pais de jovens que morreram em decorrência de interações on-line nocivas em plataformas como Facebook e Instagram, essas duas de propriedade da Meta. “Sinto muito por tudo que vocês passaram. Ninguém deveria passar pelas coisas que suas famílias sofreram”, disse Zuckerberg.
Kristin Bride: 'Quando o incentivo é maximizar engajamento, o bem-estar das crianças corre risco', diz ativista por regulação das redes sociais
Desculpas: Relembre o momento em que Mark Zuckerberg se dirigiu a pais de vítimas de redes sociais no Congresso americano
Quatro anos antes, em junho de 2020, o adolescente Carson Bride, de 16 anos, se suicidou em sua casa, na cidade de Portland, Oregon. No celular de Carson, havia uma centena de mensagens de agressões e ameaças enviadas anonimamente pelo Snapchat — uma rede social menos popular no Brasil, mas comum nos Estados Unidos. No dia da morte, ele havia pesquisado na internet se era possível descobrir os autores das mensagens.
Kristin Bride, mãe de Carson, estava dentro do Congresso americano, sentada a poucos metros de Zuckerberg, quando ele se desculpou. Ela segurava um cartaz com a foto do filho.
— O modelo de negócios dessas empresas é construído em torno de métricas de engajamento que priorizam crescimento e tempo de permanência, às vezes à custa da segurança on-line das crianças — diz Bride em entrevista ao GLOBO (leia a entrevista completa aqui).
Desde a morte de Carson, Bride se dedica a lutar por justiça e por mudanças na legislação a fim de proteger os jovens de possíveis malefícios das redes sociais. Ela é a principal personagem do documentário “Your attention please”, que terá sua estreia mundial nesta quinta-feira (12), no South by Southwest (SXSW), tradicional festival de cinema, música e inovação que acontece anualmente em Austin, no Texas. Dirigido por Sara Robin, o filme explora as mudanças provocadas pelas redes sociais na forma como vivemos, nos relacionamos e prestamos atenção no mundo.
As conclusões assustam: por trás da promessa de conexão permanente, o filme enxerga um ecossistema que explora vulnerabilidades emocionais, captura tempo e dificulta a construção de vínculos reais.
Sequestro de atenção
Além de Bride, um conjunto grande de entrevistados reflete sobre o tema. A socióloga Sherry Turkle, por exemplo, destaca que o botão de like do Facebook, criado em 2009, consolidou uma mudança decisiva: a internet deixou de ser apenas um espaço de descoberta e virou também um palco de validação pública, em que o que mais importa é agradar o outro em troca do tal joinha. Coautor de “Screen Schooled”, livro ainda não lançado no Brasil e que se propõe a expor “como o uso excessivo da tecnologia está deixando nossas crianças mais burras”, Matt Miles acrescenta que, ao massificar a busca por aceitação, as redes aumentam em muito a insegurança dos adolescentes.
— Aprendemos no processo do filme o quanto essa questão é global. Falamos com gente de São Paulo, Tóquio, Nairóbi, vários lugares, e em toda parte as pessoas manifestam preocupação com tempo de tela, descrevem os efeitos negativos sobre suas comunidades e se preocupam com seus filhos. Pessoas do mundo inteiro concordam que é um problema. — revela a diretora Sara Robin.
Cena de 'Your attention please', com manifestantes carregando cartazes com os dizeres: 'Meta lucra, nós pagamos o preço'
Divulgação
Diante desse sequestro de atenção orquestrado pelas redes sociais, “Your attention please” exibe alguns caminhos possíveis. Num lado do oceano, o filme mostra como a americana Trisha Prabhu criou o ReThink, aplicativo concebido para frear impulsos de agressão e cyberbullying antes que a mensagem seja enviada. Do outro, visita o Offline Club, um projeto gestado em Amsterdam para promover encontros e experiências sem telefones celulares.
— O futuro não está escrito em pedra. Redes sociais, IA, nossos celulares, todas essas tecnologias foram desenhadas por nós. O que significa que elas podem ser redesenhadas. O primeiro passo é conseguir imaginar como elas poderiam funcionar de outro jeito — pondera Sara Robin. — Conseguimos visualizar em detalhes como um apocalipse da IA poderia acontecer, e é claro que é importante entender os riscos. Mas precisamos, com a mesma força, desenvolver nossa capacidade de imaginar um futuro tecnológico positivo. Como seria um futuro tecnológico mais humano? Que tipo de tecnologia queremos para os nossos filhos? E para os filhos deles?
A luta de Kristin Bride ganha destaque no documentário ao mostrar como pais vêm transformando o luto da perda dos filhos em pressão política por mudanças na regulação das plataformas.
No caso americano, esse embate esbarra na Section 230, dispositivo da legislação federal de telecomunicações que virou a principal proteção legal das empresas de tecnologia. Ela estabelece que provedores de serviços interativos não devem ser responsabilizados pelo conteúdo publicado por seus usuários. A ideia em 1996, quando a lei foi concebida, era evitar a possibilidade de censura prévia. Mas os entrevistados de “Your attention please” sugerem que a Section 230 não previu a era de algoritmos e likes, portanto já não dá conta dos danos produzidos pelo ecossistema digital.
Esse mesmo tema já foi debatido no Brasil e levou a uma mudança de legislação. Em junho do ano passado, o Supremo Tribunal Federal decidiu que o Artigo 19 do Marco Civil da Internet — texto semelhante ao Section 230 — era parcialmente inconstitucional. Na prática, o principal efeito da decisão foi ampliar a responsabilização das plataformas por conteúdos ilícitos. Nos EUA, ao contrário, a lei segue inalterada.
— Aprovar legislação federal aqui é muito difícil, em parte pelo peso do lobby das empresas de tecnologia — explica a diretora Sara Robin. — Hoje, o debate também passa por uma escolha: proibir o uso de certas tecnologias por menores de idade ou regular o design das plataformas e responsabilizar produtos nocivos. Acho que, no longo prazo, regular o design é mais eficaz. Mas restrições mais amplas também podem ter um papel importante no curto prazo, ao dar às crianças mais tempo para crescer longe das pressões das redes sociais.
E toda essa discussão, lembra o documentário, só tende a ficar mais difícil com o avanço das tecnologias de inteligência artificial. Ou seja: se nada mais mudar, em breve vamos nos esquecer completamente de um tempo em que passávamos horas conversando sem precisar olhar para uma tela.
