Antigamente, e nem faz tanto tempo assim, esperar fazia parte da vida. A gente aguardava o ônibus olhando a rua, ficava na fila observando o movimento, via uma viagem passar pela janela e, às vezes, simplesmente não fazia nada. Hoje, basta surgir um intervalo de alguns segundos para a mão procurar o celular. O silêncio ganhou notificações, vídeos curtos, mensagens e uma infinidade de conteúdos esperando por um toque. Não é preciso romantizar o passado nem demonizar a tecnologia. A questão é: será que estamos perdendo a capacidade de ficar sem estímulo? O intervalo virou conteúdo Observe uma fila de banco, uma sala de espera ou um elevador. É cada vez mais comum encontrar pessoas olhando para a tela. No ônibus, no metrô, no carro parado no trânsito ou enquanto aguardam o café, o celular aparece como uma espécie de preenchimento automático do tempo. Até o ato de caminhar mudou. Muita gente já não percorre um trajeto apenas caminhando: escuta um podcast, responde mensagens, acompanha vídeos ou resolve pendências. O intervalo deixou de ser um espaço vazio e passou a ser uma oportunidade de consumo.
O cérebro também se acostuma O problema não é usar o celular na fila ou assistir a um vídeo durante uma viagem. O ponto de atenção está no hábito de recorrer à tela automaticamente, mesmo quando não existe uma necessidade. Quando cada momento livre é preenchido, fica menos frequente a experiência de deixar a mente vagar. É nesses espaços, sem uma tarefa definida, que muitas pessoas organizam pensamentos, lembram de algo importante, tem uma boa ideia, observam o ambiente ou simplesmente descansam.
A espera também tem seu valor Quem nunca teve uma ideia no banho, durante uma caminhada ou olhando pela janela? Pensamentos não surgem apenas quando estamos concentrados em produzir alguma coisa. Às vezes, aparecem justamente quando a atenção não está ocupada. E há ainda um efeito curioso: quanto mais nos acostumamos a estímulos constantes, mais entediante pode parecer um momento tranquilo. O silêncio, que antes era apenas parte do dia, começa a ser percebido como algo que precisa ser preenchido.
Não é preciso abandonar o celular O celular é ferramenta de comunicação, trabalho, informação, segurança e lazer. Esperar não precisa ser uma oportunidade de comprar, responder, assistir ou aprender. Às vezes, pode ser apenas esperar. O celular não precisa desaparecer da nossa vida. Mas talvez seja saudável que, de vez em quando, a gente consiga deixá-lo quieto e descobrir que o silêncio não é falta de alguma coisa. É também uma parte da vida.
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