Por Fernando de Jesus, especial para a Gazeta do Povo O Brasil vive um crescimento sem precedentes no volume de carros elétricos nas ruas, principalmente de marcas chinesas.
Mas enquanto o avanço dos veículos eletrificados no país ainda está em fase de expansão, mercados mais maduros já começam a enfrentar uma etapa diferente da transição: o envelhecimento da frota. China, Europa e Estados Unidos acumulam experiências que ajudam a antecipar alguns dos desafios que podem chegar ao mercado brasileiro nos próximos anos.
A China é o principal exemplo: no fim de 2025, cerca de 44 milhões de carros elétricos circulavam pelo país, enquanto as vendas de elétricos usados ultrapassaram 1,5 milhão de unidades no ano. O crescimento do mercado secundário, porém, ocorre em meio a uma forte pressão sobre os preços.
Em 2024, um carro elétrico chinês com três anos de uso mantinha, em média, 46% do valor original, contra 55% para o mercado geral de veículos usados. No fim de 2025, a retenção média de valor dos elétricos havia caído para 42%.
Cerca de 80% dos lojistas chineses de veículos usados já recusavam modelos elétricos com mais de cinco anos. A rápida evolução tecnológica é um dos fatores por trás desse movimento.
A chegada de modelos mais baratos e com baterias mais eficientes reduz o preço dos veículos novos e, consequentemente, aumenta a pressão sobre os modelos que já estão nas ruas. Em 2025, o preço médio dos carros elétricos caiu mais de 10% na China.
Enquanto a China já enfrenta os desafios de um mercado de elétricos mais maduro, o interesse por esses veículos cresce no Brasil. Dados do Google Trends mostram que as buscas por carros elétricos chineses aumentaram 250% nos últimos cinco anos, atingindo o maior volume de pesquisas neste ano.
A redução dos preços dos modelos novos cria um efeito que pode ser particularmente relevante para o Brasil, que vem recebendo novos modelos elétricos em ritmo acelerado. Quanto mais rapidamente os fabricantes reduzem preços e incorporam novas tecnologias, somados a incentivos fiscais, maior pode ser a diferença entre um veículo novo e outro com alguns anos de uso.
Além da China, na Europa a pressão sobre os valores de revenda também aparece. Segundo a IEA (International Energy Agency), a retenção de valor dos carros elétricos caiu de aproximadamente 50% em 2022 para 35% em 2025 nos mercados analisados.
A manutenção de um carro elétrico envolve menos componentes mecânicos tradicionais, mas exige conhecimento específico para lidar com sistemas de alta tensão, baterias e componentes eletrônicos. A expansão da frota, portanto, cria uma necessidade que vai além das redes autorizadas: oficinas independentes, profissionais especializados e sistemas de diagnóstico também precisarão acompanhar a evolução da tecnologia.
Como mostrou reportagem recente da Gazeta do Povo, apesar do crescimento dos eletrificados a grande maioria das oficinas brasileira ainda não está preparada para atender esses veículos. Segundo Evaldo Kosters, diretor do Sindicato das Empresas de Reparação de Veículos (Sindirepa-PR), cerca de 99% das oficinas associadas à entidade ainda não estão preparadas para atender veículos híbridos e elétricos.
A condição da bateria tende a ganhar importância à medida que os veículos elétricos envelhecem. Embora a perda de capacidade seja gradual e não signifique necessariamente uma falha, ela pode reduzir a autonomia e influenciar o valor de revenda.
Um levantamento da Geotab divulgado em janeiro de 2026, com dados de mais de 22,7 mil veículos elétricos de 21 modelos, identificou uma degradação média de 2,3% ao ano. Nos veículos que utilizavam recarga rápida em corrente contínua acima de 100 kW, a taxa chegou a 3% ao ano.
Os resultados variam conforme o modelo e as condições de uso. A avaliação da bateria, portanto, pode se tornar um fator importante na compra de um elétrico usado.
Além da quilometragem e do histórico de manutenção, o comprador precisa saber quanta capacidade de armazenamento o conjunto ainda preserva. Testes específicos podem ajudar a identificar o desgaste e eventuais problemas, reduzindo a incerteza sobre a autonomia e os custos futuros.
O envelhecimento também traz questionamentos sobre o destino das baterias que deixam de atender às necessidades de autonomia do veículo. Dependendo de suas condições, elas podem passar por reparos, ter módulos substituídos ou ser reaproveitadas em outras aplicações.
Quando essas alternativas não são viáveis, a reciclagem permite recuperar parte dos materiais. Para o Brasil, o desafio será desenvolver uma cadeia de diagnóstico, reparo, reaproveitamento e reciclagem capaz de acompanhar o crescimento da frota eletrificada.
Outro efeito da eletrificação aparece fora do veículo. A necessidade de baterias maiores para ampliar a autonomia, somada à preferência crescente por SUVs e veículos maiores, contribui para o aumento do peso médio dos carros.
A questão pode ter impacto sobre a infraestrutura urbana. Veículos mais pesados aumentam as cargas sobre pavimentos e podem elevar os custos de manutenção das vias.
Na China, por exemplo, o governo começa a estudar alternativas para financiar a restauração do pavimento. Segundo dados da Associação de Automóveis de Passeio da China, 60% dos veículos novos lançados no primeiro semestre deste ano possuem mais de cinco metros de extensão.
Em contrapartida, os modelos com menos de 4,5 metros representaram somente 2% dos lançamentos – um recuo expressivo quando comparado aos 13% registrados no mesmo período de 2025. Como parte dos recursos usados na conservação das vias chinesas vem dos tributos sobre combustíveis, a expansão dos veículos elétricos reduz essa fonte de receita.
Como mostrou a Gazeta do Povo, no Brasil já há discussões sobre a possibilidade de uma tributação exclusiva para proprietários de carros elétricos para financiar a restauração de rodovias. Outro efeito da eletrificação aparece fora do veículo.
A necessidade de baterias maiores para ampliar a autonomia, somada à preferência crescente por SUVs e veículos maiores, contribui para o aumento do peso médio dos carros. A questão pode ter impacto sobre a infraestrutura urbana.
Veículos mais pesados aumentam as cargas sobre pavimentos e podem elevar os custos de manutenção das vias. Na China, por exemplo, o governo começa a estudar alternativas para financiar a restauração do pavimento.
Segundo dados da Associação de Automóveis de Passeio da China, 60% dos veículos novos lançados no primeiro semestre deste ano possuem mais de cinco metros de extensão. Em contrapartida, os modelos com menos de 4,5 metros representaram somente 2% dos lançamentos – um recuo expressivo quando comparado aos 13% registrados no mesmo período de 2025.
Como parte dos recursos usados na conservação das vias chinesas vem dos tributos sobre combustíveis, a expansão dos veículos elétricos reduz essa fonte de receita. Como mostrou a Gazeta do Povo, no Brasil já há discussões sobre a possibilidade de uma tributação exclusiva para proprietários de carros elétricos para financiar a restauração de rodovias.
A experiência americana acrescenta outro elemento à análise: o mercado de elétricos também pode reagir fortemente a mudanças nos incentivos. Nos Estados Unidos, as vendas de elétricos ficaram ligeiramente abaixo de 2024 e sofreram uma queda de 45% no quarto trimestre de 2025, depois do fim dos créditos tributários federais.
No Brasil, os incentivos seguem uma lógica semelhante. O programa Mover prevê créditos tributários para empresas do setor automotivo que investem em pesquisa, desenvolvimento e produção tecnológica no país, enquanto benefícios de IPVA para veículos elétricos e híbridos variam conforme o estado.
Ao mesmo tempo, o governo retomou gradualmente o imposto de importação sobre eletrificados, que chegou a 35% em julho de 2026. Antes disso, a alíquota havia sido reduzida temporariamente, chegando à metade desse percentual em algumas etapas da retomada.
Esse conjunto de medidas pode influenciar os preços e a oferta de modelos no mercado brasileiro. A experiência americana, no entanto, mostra que mudanças nos incentivos podem alterar o ritmo das vendas em pouco tempo.
Para o Brasil, o desafio será ampliar a frota eletrificada sem perder de vista questões que ganham importância à medida que os veículos envelhecem, como a desvalorização, o custo dos reparos e a estrutura de manutenção. ** Esta reportagem faz parte de uma parceria com o Google, que apoia projetos jornalísticos baseados em dados do Google Trends.
A apuração é de responsabilidade exclusiva da Gazeta do Povo, sem qualquer interferência editorial do Google. Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Gazeta do Povo (Economia)