Para onde vai o capital quando a política entra em jogo? Dados provam que a inovação tecnológica não é imune às urnas. No ecossistema de negócios, existe uma máxima silenciosa que dita o ritmo dos grandes cheques: a inovação exige capital de longo prazo, mas as eleições geram incerteza de curto prazo. Quando o cenário político se torna imprevisível, a reação instintiva dos conselhos de administração e dos fundos de Venture Capital (VC) não é cancelar o futuro, mas colocá-lo em modo de espera.
Longe de ser apenas "sentimento de mercado", a relação entre eleições e investimento é mensurável. Em estudo de referência publicado no Journal of Finance ("Political Uncertainty and Corporate Investment Cycles"), os economistas Brandon Julio e Youngsuk Yook analisaram 48 países e quantificaram o efeito: o investimento corporativo cai, em média, 4,8% em anos eleitorais na comparação com anos sem eleição. A queda é maior onde o resultado é mais incerto.
A lógica é simples. Diante da dúvida sobre quem comandará a economia, a política tributária e a regulação de novos mercados, como Inteligência Artificial e transição energética, as empresas esperam para ver. Como o capital aplicado em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) é irreversível (não há como revender o custo de um software que fracassou ou de uma biotecnologia barrada por uma nova lei), adiar o investimento vira estratégia de mitigação de risco. Projetos ambiciosos são engavetados e o caixa é retido.
O estudo trata do investimento corporativo em geral, mas o mesmo raciocínio se aplica ao venture capital, onde o risco já é mais alto. Em períodos de turbulência, os fundos tendem a fazer menos negócios e a concentrar aportes em empresas mais maduras. As startups em estágio inicial ficam sem oxigênio.
Este ano, o teste é concreto. No primeiro trimestre, as startups brasileiras movimentaram US$ 428,6 milhões em investimentos de venture capital, uma queda de 36,3% em relação ao trimestre anterior e de 53,2% na comparação anual, segundo o relatório Venture Pulse, da KPMG. O levantamento aponta que a retração pode estar relacionada a diferentes fatores, entre eles a concentração de operações no segundo semestre de 2025 e as incertezas associadas ao ano eleitoral. A KPMG também observa uma mudança no perfil dos investimentos, com maior atenção à governança, ao crescimento sustentável e à economia unitária. O cenário regional, porém, apresenta outra dinâmica. No segundo trimestre, o ecossistema latino-americano de startups movimentou US$ 3,03 bilhões, alta de 31% em relação ao trimestre anterior, segundo dados da Sling Hub publicados pela Bloomberg Línea. O Brasil respondeu por 57% do total regional, e os negócios relacionados à inteligência artificial somaram US$ 1,58 bilhão. O resultado mostra que o capital continua circulando, embora parte expressiva dos valores venha de operações de crédito e de investimentos corporativos, o que exige cautela ao interpretar os números como uma retomada generalizada do venture capital. E a incerteza ficou maior do que o previsto. Com 100% das seções apuradas, o primeiro turno terminou com Flávio Bolsonaro (PL) em 47,03% e Lula (PT) em 45,16% dos votos válidos, uma diferença de 1,87 ponto percentual. O resultado contrariou a maior parte das pesquisas. A decisão só sai em 25 de outubro. É exatamente nesse tipo de cenário, com resultado apertado, que o efeito de retração descrito por Julio e Yook tende a ser mais forte. Passada a eleição e definida a transição, a incerteza se dissipa. O capital que estava represado volta a fluir, mas não necessariamente para os mesmos lugares. A inovação pós-eleitoral é direcionada pelas novas regras do jogo: o dinheiro segue os incentivos fiscais e regulatórios do novo mandato. Um governo focado em ajuste fiscal e abertura de mercado tende a atrair certos tipos de capital e de tese. Um governo focado em política industrial e transição energética tende a atrair outros. Em ambos os casos, quem entende o calendário se posiciona antes.
Para fundadores e CEOs, isso se traduz em decisões práticas. Planejar o runway para cobrir o período eleitoral, já que comitês de investimento em modo de espera alongam o ciclo de uma rodada. Definir com antecedência se a captação será fechada antes da eleição ou se as conversas só avançam depois. Diversificar as fontes de capital, porque corporate venture, recursos públicos e instrumentos como Finep e BNDES têm ciclos diferentes dos fundos de VC. Construir cenários para cada resultado possível, mapeando como cada agenda de governo afeta mercado, regulação e clientes. E, num mercado mais seletivo, chegar à mesa com fundamentos sólidos: governança e unit economics são o que mantém a conversa aberta. A tecnologia pode ser neutra, mas o dinheiro que a financia nunca é. Entender o calendário eleitoral vai além de uma questão de compliance: pode ser, para uma startup, a diferença entre captar a maior rodada da sua história e ficar sem caixa antes de chegar lá. *André Nunes é partner & managing director da Beta-i Brasil Mais Lidas
Epoca Negócios