O pior momento de Lula e Milei
Na tarde da última segunda-feira, quando foi confirmado que a Comissão Nacional para Refugiados (Conare) da Argentina, órgão vinculado ao Ministério do Interior do país, concedera o status de refugiado político a Joel Borges Correa, condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 13 anos e 6 meses de prisão por sua participação nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, uma fonte diplomática disse à coluna, de forma taxativa: “Brasil e Argentina vivem o pior momento de suas relações desde a redemocratização de ambos os países.”
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Não se trata apenas do pior momento no vínculo entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Javier Milei. O buraco é bem mais embaixo e ecoa na região. Desde dezembro de 2023, quando Milei assumiu o poder, o governo brasileiro trabalha para tentar preservar um mínimo de relação entre dois países vizinhos que já foram parceiros estratégicos, lideraram a fundação do Mercosul há mais de 30 anos, enfrentaram juntos iniciativas como a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) — lançada pelos Estados Unidos e derrubada definitivamente numa cúpula no balneário argentino de Mar del Plata em 2005 — e que, até hoje, são sócios comerciais importantíssimos. Hoje, a sensação entre fontes oficiais brasileiras é de que o pior está por vir.
Não há confirmação de interferência política de Milei na decisão da Conare, mas as justificativas dadas pela comissão deixam dúvidas no ar. Os advogados de Correa, que cumpria regime de prisão domiciliar na Argentina e usava tornozeleira eletrônica, segundo confirmaram fontes diplomáticas, convenceram a comissão argentina de que há “fundado temor de perseguição política”. A decisão pode se tornar um precedente favorável para outros condenados pelo STF.
Até segunda-feira, o governo brasileiro apostava, segundo fontes, “numa atuação profissional e séria da Conare, sem envolvimento do governo Milei”. Agora ninguém sabe o que esperar. Em palavras de uma fonte em Brasília, “de Milei, nada nos surpreende”.
O governo Lula vem tentando estabelecer relações pragmáticas com a direita latino-americana. Na próxima segunda-feira, o presidente brasileiro receberá em Brasília seu par da Bolívia, Rodrigo Paz. Em janeiro, Lula foi até o Panamá participar de um foro econômico onde se reuniu com o então presidente eleito do Chile, o conservador José Antonio Kast, entre outros.
A estratégia de Lula tem chances de funcionar no âmbito econômico. Os governos da região têm interesse em manter boas relações com o Brasil em matéria comercial e de investimentos. Paz vai colocar sobre a mesa a necessidade de que a Petrobras volte a investir na Bolívia, e de que seu país amplie as exportações de gás para o mercado brasileiro.
Mas quando o assunto é política, está ficando claro que Lula está cercado de adversários. Milei talvez seja o caso mais delicado, pela importância da relação bilateral. Mas ele não está só. Em Santiago, o novo presidente empossado quarta passada disse ao senador Flávio Bolsonaro que “temos muito trabalho a fazer no Peru e na Colômbia”. O primeiro terá eleições presidenciais em abril e o segundo, em maio. Em ambos, a direita tem chances de vencer.
Não restam dúvidas de que Milei e os demais presidentes latino-americanos de centro-direita e direita terão um papel nas eleições presidenciais de 2026, inclusive a brasileira. E por trás de todos estará o americano Donald Trump.
