O pesadelo de Mickey Rourke: despejo, dívidas que se multiplicam e uma carreira decadente em Hollywood
Corria a década de 1980, e Mickey Rourke era uma das figuras mais magnéticas de Hollywood. Sua sensualidade, rebeldia e intensidade interpretativa incomum rapidamente o transformaram num dos atores mais cobiçados de sua geração. A consagração veio com filmes como "Nove e meia semanas de amor" (1986), em que sua química com Kim Basinger o transformou num símbolo sexual da época. Depois vieram títulos como "Coração satânico" (1987) e "Barfly — Condenados pelo vício" (1987), nos quais demonstrou talento para interpretar personagens sombrios, vulneráveis e complexos.
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Naqueles anos, Rourke era considerado um dos atores mais promissores de sua geração. Diretores e produtores o viam como uma estrela destinada a dominar as telas graças à intensidade quase selvagem que levava a cada papel. No entanto, sua personalidade indomável, os conflitos com a indústria e a decisão de abandonar temporariamente o cinema para se dedicar ao boxe acabaram alterando esse destino que parecia inevitável.
Foi assim que, ao longo de décadas, o ator se tornou uma das figuras mais imprevisíveis de Hollywood: capaz de passar do estrelato ao ostracismo e de se reinventar repetidas vezes. Um exemplo disso ocorreu em 2008, quando ressurgiu das cinzas com "O lutador", filme no qual interpretou um lutador profissional que havia sido uma estrela nos anos 1980, mas que, décadas depois, vive agarrado a uma fama que já ficou para trás.
Mickey Rourke em cena do filme 'O lutador' (2008)
Divulgação
Embora a atuação de Rourke tenha sido muito elogiada pela crítica, muitos viram em Randy Robinson um reflexo de sua própria história. Esse papel parece ter se transformado numa espécie de confissão cinematográfica para Mickey. A vulnerabilidade, o cansaço e a dignidade ferida que ele transmitia na tela eram, na verdade, um retrato sobre a passagem do tempo, a fama perdida e a necessidade de continuar lutando — mesmo quando tudo indica que a luta já terminou.
Desde então, sua presença nas telas tem sido irregular. E, numa tentativa de continuar em evidência (e pagar suas dívidas), em 2025 Mickey aceitou mostrar sua vida 24 horas por dia na versão britânica do reality "Celebrity Big Brother". No entanto, sua experiência não foi das melhores. Segundo o próprio programa, o participante fez comentários ofensivos dirigidos à influenciadora JoJo Siwa, inclusive com declarações sobre sua orientação sexual e o uso de um insulto homofóbico. Após algumas advertências, Rourke e os produtores decidiram, de comum acordo, pela saída antecipada do ator do programa.
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A partir dessa saída controversa, suas aparições públicas passaram a ser esporádicas: uma ou outra foto roubada enquanto passeava com seus cães pelo bairro ou, como ocorreu em janeiro passado, quando foi visto com uma aparência completamente irreconhecível retirando seus pertences de sua casa em Los Angeles. Nos últimos meses, o artista de 73 anos voltou a ser notícia por seu delicado estado pessoal e financeiro, enfrentando uma ordem de despejo por uma dívida de aluguel próxima de US$ 60 mil.
De estrela a “inadimplente”
Não é a primeira vez que Rourke enfrenta um conflito desse tipo. Em 2017, o ator morava num loft em Nova York e foi processado pelo proprietário por uma dívida de aluguel que chegava a US$ 30 mil. Também se soube que o ator havia provocado danos significativos ao imóvel.
Mickey Rourke, que foi um dos rostos mais marcantes do cinema nos anos 1980, sofreu transformações faciais que, segundo ele próprio declarou em entrevistas, foram consequência de múltiplas cirurgias corretivas após ‘lesões no boxe’
Reprodução
No final de 2025, a situação voltou a se repetir com a casa que Mickey alugava no bairro Beverly Grove, em Los Angeles. O proprietário do imóvel, Eric Goldie, iniciou um processo de despejo por falta de pagamento. Segundo documentos judiciais obtidos pelo "TMZ", o ator alugou a propriedade por cerca de US$ 5,2 mil mensais, valor que depois aumentou para US$ 7 mil, acumulando uma dívida de aproximadamente US$ 59,1 mil.
“Tudo ia bem por cinco ou seis anos, e então dois canalhas de Nova York compraram a casa e não quiseram consertar nada. Então eu disse: ‘Não pago o aluguel porque há camundongos e ratos, o chão está podre, numa das banheiras não há água, em duas pias diferentes não há água...’”, revelou Rourke sobre os motivos que o levaram a deixar de pagar o aluguel.
Diante do não pagamento, o proprietário enviou uma notificação formal exigindo que ele quitasse a dívida ou deixasse a casa no prazo de três dias. Também solicitou uma compensação adicional para cobrir honorários advocatícios e possíveis danos à propriedade.
A situação se tornou pública e rapidamente gerou preocupação entre seus fãs. Diante da necessidade de uma solução rápida, sua empresária lançou uma campanha na plataforma GoFundMe com o objetivo de arrecadar US$ 100 mil para ajudá-lo a evitar o despejo. “A fama não protege contra dificuldades e o talento não garante estabilidade. Esta arrecadação de fundos foi criada com sua permissão para ajudá-lo a cobrir os custos imediatos de moradia e evitar que isso [o despejo] aconteça”, dizia o texto publicado na plataforma.
A iniciativa viralizou e, em poucos dias, a arrecadação superou amplamente o valor necessário graças a milhares de fãs que quiseram ajudar seu ídolo.
A arrecadação que irritou Rourke
No entanto, o próprio Rourke não reagiu bem à iniciativa. Ao tomar conhecimento da campanha, ele negou qualquer envolvimento com a arrecadação. Num vídeo divulgado nas redes sociais, o ator se mostrou indignado e garantiu que jamais pediu ajuda financeira.
Mickey Rourke no Celebrity Big Brother
ITV/Reprodução
“Estou realmente frustrado e confuso. Alguém criou algum tipo de fundo para que as pessoas doem dinheiro como se fosse caridade, e esse não sou eu”, afirmou, olhando para a câmera ao lado de seu cachorro, Lucky.
“Se eu precisasse de dinheiro, preferiria não pedir nenhuma maldita caridade. Preferiria enfiar uma arma no meu rabo e puxar o gatilho”, confessou, envergonhado. “Eu não saberia o que é uma fundação GoFundMe nem em um milhão de anos. Minha vida é muito simples, eu não recorreria a fontes externas como essa”, acrescentou.
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Depois de pedir a seus seguidores que não fizessem mais doações, o ator disse que se reuniria com seu advogado para decidir o que fazer. Momentos depois, confirmou que havia pedido “dinheiro emprestado a um grande amigo” após sofrer um revés financeiro, mas ressaltou que “nunca pediria um centavo a desconhecidos, fãs ou a qualquer outra pessoa”.
“Só consigo pensar em uma pessoa capaz de fazer algo assim, e espero que não seja quem estou imaginando. É humilhante”, acrescentou.
Segundo a imprensa americana, a organizadora do financiamento coletivo foi sua empresária, Kimberly Hines. “Dissemos: ‘Mickey, há pessoas que querem ajudá-lo’. Ele respondeu: ‘Ótimo’. Acho que ele não entendeu, e agora a situação virou um alvoroço na mídia, e ele ficou furioso”, disse a representante à revista "Hollywood Reporter".
Ela explicou que a intenção era ajudá-lo a encontrar um novo lugar para morar, uma empresa de mudanças e um espaço para guardar seus pertences. “Minha assistente iniciou a campanha para ajudar Mickey, como um gesto gentil, já que ele estava sendo obrigado a deixar sua casa. Não houve má intenção. O dinheiro não foi para lugar nenhum. Se Mickey decidir que não o quer, devolveremos aos fãs.”
E foi exatamente isso que vem acontecendo nos últimos meses: a devolução de cada centavo aos doadores. “Ainda há mais de US$ 90 mil que precisam ser reembolsados. Por favor, recuperem seu dinheiro”, escreveu Rourke em outra publicação.
Versões contraditórias
À medida que a controvérsia crescia, o ator acabou deixando a casa onde morava havia mais de uma década. Mas a dúvida permaneceu: ele saiu voluntariamente ou foi despejado?
Enquanto algumas versões afirmam que Rourke foi despejado e atualmente estaria hospedado temporariamente num hotel em West Hollywood, pessoas próximas ao artista apresentam outra versão. Segundo fontes ouvidas pelo jornal "La Nación", Rourke teria se mudado por vontade própria para um apartamento que já havia encontrado anteriormente e negam completamente que ele esteja vivendo em um hotel.
Quanto ao dinheiro arrecadado, afirmam que ele já foi devolvido aos participantes da campanha. Após confirmar que a campanha foi organizada por sua empresária, a fonte também revelou que, embora Rourke continue trabalhando com ela, essa relação profissional pode estar perto do fim.
A decisão judicial que complica a situação do ator
Nas últimas horas, o Tribunal Superior do Condado de Los Angeles decidiu a favor do proprietário Eric T. Goldie. A sentença, apresentada em 9 de março, foi proferida “à revelia”, o que significa que o ator indicado ao Oscar não respondeu à ação nem apresentou defesa dentro do prazo previsto pela legislação da Califórnia.
Como resultado, Goldie recebeu a posse da propriedade localizada na Avenida Drexel, com o cancelamento do contrato de aluguel. Com essa decisão, o ator de "Sin City — A cidade do pecado" (2005) já não tem mais direito legal de ocupar a casa.
Essa situação volta a evidenciar a montanha-russa que tem sido a vida de Rourke. Hoje, longe do brilho de seus anos dourados, o ator atravessa um dos momentos mais delicados de sua vida pessoal e profissional: sem trabalho nas telas e sem casa. Ainda assim, há algo que nem a Justiça nem as dívidas podem tirar dele: o amor e o apoio incondicional de milhares de fãs dispostos a ajudá-lo.
