O pé frio, a rua e o início de uma era humana

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Fonte da notícia: Cafezinho Cafezinho

Inspirado em Marx e Paulo Freire, este manifesto humanitarista defende que a economia, a tecnologia e o Estado devem priorizar a dignidade e os direitos das pessoas. Na conversa com André Janones, Lula usou a expressão mais brasileira que existe para zombar de um adversário: “pé frio”.

O adversário, que segundo o presidente vivia beijando a bandeira americana, correu para os Estados Unidos em busca de proteção e, quando chegou lá, Trump perdeu. A piada é boa, e o riso faz parte da política.

Mas a graça só sobe até certo ponto. Porque o “pé frio” não derrotou Trump, e o “pé quente” também não elegeu ninguém.

Quem mudou o jogo foi gente de carne e osso: eleitores cansados do custo de vida, estudantes nas ruas, trabalhadores em greve, famílias que não conseguem mais pagar aluguel. O que o episódio revela, por trás do deboche, é uma verdade desconfortável para qualquer projeto de poder fundado no culto ao líder e à bandeira: quando se aposta a vida em padrinhos estrangeiros, o padrinho um dia perde a eleição.

Ficam, porém, as pessoas. E é nelas que esta reflexão quer se concentrar.

Proponho aqui um ponto de partida que chamo, sem pretensão de escola ou partido, de humanitarismo: a ideia simples e exigente de que a medida de toda ordem política, econômica e tecnológica deve ser a dignidade concreta das pessoas. Não o lucro trimestral, não a glória do chefe, não a pureza da nação.

Este é um manifesto no sentido antigo da palavra: uma declaração pública de intenção, aberta à crítica, feita para ser discutida na praça e não decretada do alto. O mundo voltou às ruas

Greve geral na França pressiona contra reforma da Previdência de Macron / Reprodução Durante anos, repetiu-se que a geração Z seria acomodada, viciada em telas, incapaz de se organizar fora delas.

O mundo de 2026 desmentiu a caricatura. Na França, o movimento nasceu em setembro, nos arredores de Paris, como revolta de estudantes contra a falta de professores, as salas superlotadas e a precariedade das escolas.

Em poucas semanas incorporou o custo de vida, a moradia, os serviços públicos e os salários. Sindicatos e estudantes convocaram uma greve geral para 5 de novembro, e a Torre Eiffel chegou a ser fechada.

O slogan que circula entre os manifestantes carrega uma ironia histórica deliciosa: “vamos pôr fim à era contemporânea” — justamente a era que a Revolução Francesa inaugurou em 1789. Não foi só a França.

Na Alemanha, o grupo Gen Z regelt (“a Geração Z assume o comando”) organizou atos em dezenas de cidades. Em Portugal e na Espanha, jovens articulam paralisações contra aluguéis impagáveis e despejos.

No Brasil, os protestos estudantis de outubro combinaram rua e rede, e o debate digital sobre eles movimentou centenas de milhares de publicações em poucos dias. Antes disso, levantes da mesma geração já haviam sacudido países da Ásia e da África.

As pautas variam: escola, teto, emprego, corrupção. O sentimento de fundo é o mesmo, e foi bem descrito por muitos analistas: a sensação de que as promessas feitas às gerações anteriores — estude, trabalhe, e terá estabilidade — deixaram de valer.

Uma geração que não consegue pagar o aluguel, que vê a inteligência artificial rondar seu futuro profissional e que herda uma crise climática que não criou tem todas as razões para estar inquieta. Chamar isso de “preguiça” é a forma mais barata de não responder.

O que Marx ainda tem a dizer Milhões de pessoas protestam contra Trump ao redor do mundo/ Imagem de 2017

É moda declarar Marx morto a cada crise e ressuscitá-lo a cada crise seguinte. Sem ser dogmático, vale reconhecer o que nele continua vivo.

No Manifesto Comunista, ele e Engels escreveram que, no capitalismo, “tudo que é sólido desmancha no ar”. Pouca frase descreve melhor o presente de um jovem de vinte e poucos anos: contratos que se desfazem, carreiras que evaporam, a casa própria que vira miragem, a certeza de que o esforço leva a algum lugar que se dissolve a cada ano.

Marx também observou que o capital, ao tratar o trabalho como mercadoria, tende a esvaziar de sentido aquilo que o ser humano faz com a própria vida. Ele chamou isso de alienação.

Quando um jovem estuda dez anos para disputar uma vaga precária, ou trabalha por aplicativo sem direitos, a palavra deixa de ser abstração acadêmica e passa a descrever a rotina. Há ainda uma passagem do Manifesto que me parece a melhor síntese de um humanitarismo possível: a ideia de uma sociedade em que “o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos”.

Não se trata de sacrificar o indivíduo ao coletivo, nem o coletivo ao indivíduo, mas de reconhecer que ninguém é plenamente livre numa sociedade em que o vizinho passa fome. E há as Teses sobre Feuerbach, com a famosa provocação de que os filósofos apenas interpretaram o mundo e o que importa é transformá-lo.

A geração que hoje bloqueia escolas e ocupa praças está, a seu modo, levando essa tese a sério. Dito isso, convém uma dose de honestidade.

“O fim do capitalismo” é uma expressão que empolga em cartaz e exige cautela em artigo. O sistema já mostrou enorme capacidade de se reinventar, absorver críticas e transformar rebeldia em mercadoria.

O que se pode afirmar com segurança é mais modesto e, por isso mesmo, mais sólido: um modelo que produz abundância e, ao mesmo tempo, não garante teto, escola e futuro para os jovens perdeu parte de sua legitimidade. Se isso será superado por reforma profunda, por regulação, por uma economia mais democrática ou por algo ainda sem nome, é um debate que a própria história terá de responder.

O humanitarismo não precisa da certeza do desfecho para saber qual é a direção: mais gente com dignidade, menos gente descartável. Direitos humanos como bússola

Morte de idosa despejada aos 87 anos vira símbolo de luta por moradia na Espanha; direita rejeita medidas para conter crise habitacional / Reprodução A tradição dos direitos humanos nasceu dos escombros de guerras e genocídios, com uma promessa que ainda soa radical: a de que toda pessoa tem valor por existir, e não por produzir.

Moradia, saúde, educação, trabalho digno, liberdade de expressão, proteção contra a tortura e a violência de Estado não são favores de governo nem prêmios de mérito. São direitos.

Um manifesto humanitarista parte de alguns princípios que, a meu ver, deveriam unir pessoas de tradições bem distintas: A dignidade antes do lucro.

Nenhuma meta de crescimento justifica a miséria evitável. Direitos universais, sem exceção por origem.

Migrantes, mulheres negras, pessoas trans, muçulmanos, indígenas, pobres: ou o direito vale para todos ou vira privilégio. Educação e saúde públicas como infraestrutura da liberdade.

Não se é livre sem saber ler o mundo e sem estar vivo para vivê-lo. Tecnologia a serviço de pessoas.

Inteligência artificial e plataformas digitais devem ampliar autonomia e trabalho digno, e não apenas concentrar riqueza. Democracia como método e como fim.

A transformação social que passa por cima de liberdades e do pluralismo trai o próprio humanismo que a inspira. Cuidado com o planeta.

Não há humanidade possível num mundo inabitável. O ponto 5 merece ênfase.

Se há uma lição do século XX, é que causas nobres corrompem-se quando perdem o freio dos direitos. Um humanitarismo que sacrifica pessoas em nome da causa deixou de ser humanitarismo.

Paulo Freire e a consciência que vira ação Ato de Lula em Copacabana / Reprodução

Se há um pensador brasileiro que ajuda a entender o momento, é Paulo Freire. Ele ensinou que a leitura do mundo precede a leitura da palavra: antes de aprender o alfabeto, o oprimido já sabe, no corpo, o que é a fome, o aluguel atrasado e a porta fechada.

A educação libertadora seria o processo de transformar essa percepção em consciência crítica, a conscientização: compreender as causas do que se sofre e perceber que a realidade, por ser histórica, pode ser mudada. É por isso que os protestos estudantis são, antes de tudo, um fenômeno pedagógico.

Estudantes que bloqueiam a própria escola por falta de professores estão fazendo uma pergunta freiriana: por que a educação que nos prometem não existe, e quem decide isso? Freire também recordava que ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho, e que os seres humanos se educam entre si, mediados pelo mundo.

Assembleias, grupos de conversa, canais de WhatsApp, coletivos de bairro são, nesse sentido, escolas. Há nele também um alerta valioso para a esquerda.

Freire desconfiava de líderes que “depositam” ideias nas massas, o que chamava de educação bancária, e desconfiava igualmente de uma política em que o povo apenas cumpre ordens. É aqui que a discussão sobre o chamado “método Janones” fica interessante.

Seu uso das redes, com canais de WhatsApp, tarefas para apoiadores e resposta rápida a ataques, despertou curiosidade na França, na Argentina, na Colômbia e na Espanha. Reconheço a eficácia e a capacidade de furar bolhas.

Mas os próprios especialistas ouvidos pela imprensa fazem ressalvas que um leitor crítico deve levar em conta: o risco de uma campanha “muito mais personalista”, de privilegiar o ataque que rende ganho momentâneo em detrimento do debate de ideias, e a limitada capacidade de sustentar, a médio e longo prazo, uma mobilização feita de “missões” e apelos de urgência.

Como lembrou uma das cientistas políticas consultadas, é importante articular sempre redes e ruas. Em termos freirianos: mobilização que apenas obedece comandos não forma consciência crítica.

A rede pode convocar, mas é o diálogo que educa. O que as urnas e as ruas estão dizendo

Geração Z de Portugal e Espanha articulam greve geral conjunta / Reprodução Há também motivos para alguma cautela no entusiasmo.

A narrativa de que a juventude gira inteira à esquerda é incompleta. Em 2024, parte significativa dos jovens votou na extrema direita, atraída pela promessa de ruptura com “tudo isso que está aí”.

Nas eleições de meio de mandato americanas desta semana, os democratas tiveram uma vitória histórica, e a guerra contra o Irã, que encareceu combustíveis e pressionou o custo de vida, é apontada por analistas e até por integrantes do próprio governo como um dos fatores. Em outras palavras: o que une os jovens não é um catecismo ideológico, mas a cobrança por resultados concretos.

Quem entregar moradia, emprego e escola recebe apoio. Quem decepcionar, perde, venha da direita ou da esquerda.

Isso deveria servir de aviso a quem comemora cedo demais. A energia que hoje se volta contra governos conservadores pode, amanhã, voltar-se contra governos progressistas que não cumprirem o que prometem.

Há quem veja nessa geração um risco, como o debate de setores liberais sobre um suposto “socialismo da Geração Z” que ameaçaria a prosperidade. Essa crítica merece ser ouvida e respondida com argumentos, não com desdém: a prosperidade, afinal, interessa a todos, e o desafio é construir uma que não deixe ninguém para trás.

Há, por fim, um dado que a boa-fé obriga a registrar: em algumas manifestações recentes houve confrontos, vandalismo e saques, e autoridades francesas chegaram a decretar toques de recolher em áreas de cidades como Paris e Lyon. A violência, venha de quem vier, é o oposto do humanitarismo.

O movimento que quer inaugurar uma era mais humana precisa ser, ele mesmo, exemplar na defesa da vida e da integridade de todos, inclusive dos que discordam. O início de uma era humana

A Liberdade guiando o Povo / Eugène Delacroix / 1830 O que significa, então, falar em “início de uma era humana”? Não é profecia de paraíso, nem anúncio do fim da história.

É uma escolha de critério. Durante muito tempo, a pergunta que organizou a vida pública foi “quanto cresce a economia?”.

Era contemporânea, para usar a expressão que ecoa nas ruas francesas, é também a era da quantificação de tudo: PIB, juros, metas, algoritmos. Nada disso é inútil, mas tudo isso é meio.

A pergunta humanitarista é outra: quantas pessoas vivem com dignidade, e o que estamos fazendo para que mais vivam? Imagine um mundo em que o debate eleitoral fosse medido por essa régua: quantos jovens conseguem morar perto de onde trabalham, quantas crianças têm professores em sala, quantas pessoas conseguem se tratar sem se endividar, quantos migrantes são acolhidos em vez de caçados, quantos trabalhadores de plataforma têm proteção.

Imagine a inteligência artificial tratada como oportunidade de reduzir a jornada e ampliar o tempo livre, e não apenas como ferramenta de substituição. Imagine a política externa orientada por direitos humanos, e não por tarifas e bandeiras beijadas.

Nada disso é utopia ingênua. É escolha, e escolhas se fazem com organização, com leis, com orçamento, com voto e com rua.

A geração Z não inventou a ideia; apenas se recusa a aceitar que ela seja adiada para sempre. Contra o cinismo

Paulo Freire escreveu sobre a esperança não como espera passiva, mas como necessidade ontológica, algo que precisa de prática para virar história concreta. O cinismo, ao contrário, é a ideologia dos que já desistiram e querem que os outros desistam também.

É por isso que a imagem do “pé frio”, de que partimos, serve de epílogo. A política não é uma questão de sorte, nem de bênção de padrinhos poderosos, nem de bandeiras.

É trabalho coletivo, paciente, muitas vezes ingrato, de pessoas que decidem se organizar para que a vida de todos seja um pouco menos dura. Quem pensa que os jovens estão apenas “reclamando” não prestou atenção: eles estão estudando, na prática, o que Freire chamava de leitura crítica do mundo, e já começaram a escrever o próximo capítulo.

O manifesto humanitarista cabe em poucas linhas: toda pessoa importa; nenhuma pessoa é descartável; a economia, a tecnologia e o Estado existem para servir à vida; e a transformação do mundo se faz com os outros, por meio do diálogo, nunca contra a dignidade de ninguém. Quem concordar pode chamar de humanitarismo.

Quem discordar tem todo o direito de dizer por quê, e o debate fica melhor com isso. A era que se abre, se for humana de verdade, será aquela em que se possa discordar sem deixar ninguém para trás.

Publicação Original Cafezinho ocafezinho.com
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