O paradoxo de Alckmin na Fazenda

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Geraldo Alckmin ganhou a preferência de interlocutores da Faria Lima ouvidos pelo Radar Econômico para assumir o Ministério da Fazenda no quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Mas a solução que agrada a parte do mercado financeiro também traz um dilema político para o presidente.

A nomeação do vice significaria entregar o comando da economia a um aliado com mandato próprio, peso político e uma posição institucional muito diferente da de um ministro convencional. Em outras palavras, a força que faz de Alckmin uma alternativa atraente para os investidores é a mesma que torna sua escolha mais complexa para o Planalto.

O governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, surgiu como favorito nas primeiras articulações entre aliados de Lula, impulsionado pelo protagonismo que assumiu durante o segundo turno. Além da experiência como secretário estadual da Fazenda, o petista reúne atributos valorizados por dirigentes do partido: pertence a uma geração mais jovem, tem formação técnica e poderia ganhar projeção nacional em uma pasta estratégica.

Sua escolha também estaria alinhada às movimentações para renovar os quadros do PT de olho na sucessão presidencial de 2030. Fonteles, porém, teria de renunciar ao mandato recém-conquistado no Piauí, hipótese sobre a qual afirmou ainda não ter conversado com Lula.

O problema de Alckmin é de outra natureza. Filiado ao PSB, ele já ocupa o segundo cargo mais importante da República e passaria a concentrar também o comando da política econômica.

Não existe impedimento legal para acumular as funções, como ocorreu quando esteve à frente do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. A diferença é que a Fazenda tem influência direta sobre as prioridades orçamentárias, a negociação do ajuste fiscal e decisões que atravessam praticamente todas as áreas do governo.

Uma eventual divergência entre presidente e ministro ganharia dimensão singular: Lula poderia retirar Alckmin da Fazenda, mas não da Vice-Presidência. Continua após a publicidade

Há ainda um componente partidário. A possibilidade de Alckmin assumir a Fazenda já enfrentava resistências em setores do PT durante a campanha eleitoral, enquanto seu próprio partido defendia a indicação.

A alternativa de entregar a pasta ao vice também precisa ser examinada à luz da reorganização da equipe de Lula. Com Camilo Santana cotado para a Casa Civil e Fonteles para a Fazenda, o PT teria dois de seus quadros em posições privilegiadas para ganhar projeção nacional.

A entrada de Alckmin mudaria esse desenho e ampliaria a influência de um aliado externo ao partido sobre as decisões econômicas. Continua após a publicidade

O paradoxo não termina na distribuição de poder. Embora Alckmin seja associado à moderação e tenha defendido a necessidade de superávits fiscais, suas propostas não correspondem necessariamente ao ajuste mais profundo desejado por determinados segmentos do mercado.

Na semana passada, o vice-presidente rejeitou mudanças que retirassem os ganhos reais das aposentadorias e defendeu concentrar os cortes em supersalários, privilégios, emendas parlamentares e incentivos fiscais. São medidas com potencial de enfrentar resistências no Congresso e em outros Poderes.

Resta saber até que ponto a preferência pelo nome de Alckmin sobreviveria à apresentação de um programa fiscal com essas características. Continua após a publicidade

A situação recupera uma contradição antecipada pelo Radar em agosto. Na ocasião, a coluna revelou que Dario Durigan apresentava aos investidores um programa de contenção de despesas para o próximo mandato, incluindo a redução do limite de crescimento real dos gastos de 2,5% para 1,5%, sem ter recebido qualquer garantia de Lula de que permaneceria na Fazenda.

Com Alckmin, o dilema seria outro: um ministro com respaldo político próprio, mas cuja nomeação, por si só, não asseguraria autonomia para executar o ajuste prometido ao mercado. Continua após a publicidade

Lula ainda não anunciou sua escolha. Fonteles continua entre os nomes considerados, enquanto a possibilidade de Alckmin ganha espaço nas discussões.

A decisão envolve mais do que a capacidade de acalmar investidores após a turbulência provocada pela eleição. Ao escolher quem comandará a Fazenda, Lula também definirá quanto poder político está disposto a concentrar nas mãos do responsável pelo ajuste fiscal de seu quarto mandato.

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Publicação Original Notícias Veja veja.abril.com.br
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