Na mesma quinta-feira, 5 de novembro, dois homens chamados Lucas apareceram no noticiário brasileiro. Juntos eles formam um retrato incômodo do que este país espera de um homem.
O primeiro, Lucas Portela Fontana Gomes, lutador de jiu-jítsu, foi preso em flagrante na Tijuca, segundo a investigação, depois de invadir o apartamento de uma idosa e agredir outra moradora do condomínio. Essa segunda vítima foi estrangulada e levou socos no rosto e na cabeça, e a Justiça converteu a prisão em preventiva por tentativa de feminicídio.
O segundo, João Lucas, cantor, marido de Sasha Meneghel e futuro pai, passou por momentos rebatendo um influenciador que o chamou de afeminado, frágil, comandado pela mulher e vestido “que nem o Aladim”. Não pretendo colocar um Lucas como herói e o outro como vilão.
Quero olhar para o ponto em que as duas histórias se tocam, porque é ali que se arma o desconforto social diante da pergunta sobre o que é ser homem, e esse desconforto não se distribui de forma justa. Começo pelo lutador, com o cuidado que o caso exige, ele ainda vai ser julgado, e o que sabemos vem da investigação, das câmeras do condomínio e do registro de que foi baleado nas pernas ao tentar pegar a arma de um policial.
Não me interessa aqui a biografia dele nem um diagnóstico que eu não tenho como fazer. Interessa a figura social que ele ocupava antes da madrugada de quinta-feira.
O lutador de jiu-jítsu é, no imaginário brasileiro, uma das versões mais aprovadas do masculino, é o corpo disciplinado, a força treinada para não explodir por acaso, a violência guardada numa faixa amarrada na cintura e liberada só dentro das regras do tatame. A sociedade gosta desse homem justamente porque ele parece controlado, por que ele sabe matar e não mata, e é a promessa de que não vai matar que o torna admirável.
O ideal masculino que celebramos é, no fundo, uma potência de destruição que aceita ficar quieta. Ele aparece passivo porque é contido, e é contido porque, em tese, poderia não ser.
Rita Segato chamou de “mandato de masculinidade” essa exigência de que o homem prove aos outros homens, o tempo todo, que é capaz de dominar, e mostrou como esse mandato se escreve no corpo das mulheres. A potência violenta que o homem bem-visto carrega não desaparece por ser disciplinada.
Ela fica guardada como capital, como reputação, como algo que se pode sacar a qualquer momento. Quando o controle falha, e as câmeras de um prédio na Zona Norte registram o que a investigação descreve, não estamos diante do contrário daquele ideal.
Estamos diante do ideal sem a contenção que o tornava aceitável. A mesma sociedade que admira o lutador vai chamá-lo de monstro, de exceção, de descontrolado, e assim consegue não perguntar o que havia, desde o começo, no modelo que ela própria aplaudia.
Agora o outro Lucas. O que Pedro Ortega viu num vídeo de João num evento foi uma roupa, um gesto e uma maneira de ocupar o espaço que não cabia na moldura que outros homens aplaudem.
Dali tirou uma tese sobre a geração inteira, afirmando que os rapazes de hoje parecem “militantes que estudam jornalismo na PUC”. Fechou com um conselho aos pais, que façam de tudo para o filho homem ter testosterona e não virar um ser frágil que foge do perigo “que nem uma gazela”.
Precisamos enteder essa pedagogia! O menino ideal é aquele que não foge, que enfrenta, que responde à ameaça com força, então exige-se de João Lucas exatamente aquilo que, no primeiro caso, terminou com três mulheres agredidas e uma delas no Hospital Municipal Souza Aguiar.
A estética fluida dele não é atacada por ser feia ou estranha. É atacada porque não exibe a reserva de violência que o mandato cobra como prova.
A reserva de violência do João Lucas não é vista! Em 2020, quando escrevi sobre as cotas trans, chamei de transfobia recreativa o riso que humilha enquanto finge que só está brincando, a agressão que se protege atrás do “nada contra, mas”.
O texto de Ortega tem essa gramática de ponta a ponta, ele começa com “nada contra esse cara porque não conheço ele” e logo depois o reduz a fantasia de desenho animado, a animal de presa, a homem governado pela esposa. É uma homofobia recreativa, e o nome importa.
Ela não precisa que João seja gay para funcionar, porque não mira a orientação sexual de ninguém, mira o feminino, onde quer que ele apareça. Ser chamado de “gay” ali é só o atalho mais curto para dizer que você saiu da fila, que deixou de pagar o pedágio do macho e por isso perdeu o direito de ser lido como homem.
Por isso João Lucas precisa fazer duas coisas ao mesmo tempo, e isso me parece o mais cruel, ele precisa afirmar uma masculinidade mais reflexiva, mais sensível, mais honesta com o próprio tempo, e precisa também se defender de uma acusação que, em si, não deveria ser acusação nenhuma.
Quando Sasha republica o vídeo dele com a legenda “esse é o meu homem”, o gesto é bonito e, ao mesmo tempo, revela a armadilha. Até a defesa precisa passar pela certificação de que ele é homem e é dela, como se a heterossexualidade comprovada fosse o documento que devolve a João o direito de existir do jeito que existe.
Chamo de prolepCIS essa antecipação em que a norma chega antes do corpo e decide, antes de qualquer fala, o que aquele corpo pode ser. Ela não atinge só pessoas trans, atinge qualquer pessoa cuja aparência desmente a expectativa, e por isso um cantor cisgênero e heterossexual, casado e prestes a ser pai, se vê obrigado a dar explicações apenas pela roupa que veste.
O vídeo que João resgatou é de 1º de março, e nele já estava a frase que resume o problema melhor do que muita teoria, “para homens inseguros, o feminino deixa de ser uma admiração e passa a ser uma ameaça”. Raewyn Connell descreveu a masculinidade hegemônica como uma posição que se sustenta subordinando outras masculinidades, sobretudo as que se aproximam do feminino, e mostrou que essa hierarquia entre homens é inseparável da hierarquia sobre as mulheres.
João chega ao mesmo lugar por outro caminho quando liga o desprezo pelo feminino à cultura de violência contra mulheres e pede outra educação para os meninos. Os comentários daquele vídeo, feitos meses atrás, já desenhavam o campo.
Mônica Martelli escreveu que o modelo de macho que não chora e não mostra vulnerabilidade está matando as mulheres. Erika Hilton deixou um elogio curto.
Um rapaz trans comentou que o que João dizia também servia à experiência de quem não rejeita o feminino. Esse último comentário é, para mim, o mais precioso da lista, porque desloca o ponto de vista e revela o objeto inteiro.
É disso que trato quando falo em paralaxe trans. Do lugar de onde eu olho, como travesti, como alguém que passou a vida sendo cobrada a provar o que é, os dois Lucas não são opostos.
São dois pontos de uma mesma régua. Num extremo está o homem cuja violência a sociedade aceitava enquanto parecia domesticada.
No outro, o homem a quem a mesma sociedade cobra violência porque desconfia da sua doçura. A régua é uma só, e mede quanto de capacidade de dominação cada corpo masculino carrega.
Quem tem demais e deixa transbordar vira caso de polícia e quem tem de menos vira alvo de chacota, e a chacota sempre vem com uma ordem embutida: endureça, reaja, seja mais assim ou assado, mostre que é homem. Nunca se pergunta se a régua faz sentido.
As mulheres estão nas duas pontas dessa história, e isso também não é acaso, de um lado a idosa e outras duas vizinhas na Tijuca, cujos nomes não sabemos e cujos corpos viraram o lugar onde o ideal desmoronou. E Sasha, grávida, transformada por Ortega em prova da fraqueza do marido, como se uma mulher com voz própria rebaixasse o homem ao lado.
Nossa sempre necessária, bell hooks, escreveu que o patriarcado exige dos meninos, antes de tudo, a morte da própria vida emocional, e que essa amputação é a primeira violência, da qual derivam as outras. Lendo as duas notícias lado a lado, penso que estamos vendo os dois desfechos possíveis dessa amputação, onde um homem que, segundo a acusação, levou até o fim a lógica do domínio e um homem que se recusou a ser amputado e por isso passou o dia inteiro tendo que se justificar.
O conselho de Ortega aos pais merece ser levado a sério, mas pelo avesso, quando ele diz para fazermos de tudo para que nossos filhos não fujam do perigo como gazelas. Eu diria que o perigo, na madrugada de quinta, não estava do lado de quem foge, estava do lado de quem aprendeu que ser homem é nunca recuar, e a educação que ele defende é a mesma que produziu o primeiro Lucas antes de ele se tornar notícia.
Um país que ri do segundo Lucas e só se espanta com o primeiro depois que alguém vai parar no hospital continua formando meninos, todos os dias, para ocupar o lugar do primeiro. Qual deles você gostaria de ter em casa?
Brasil 247