O Irã tem uma bomba atômica? Como a República Islâmica montou programa nuclear alvo de ataque de EUA e Israel
Quase oito anos depois de rasgar o mais conciso acordo sobre o programa nuclear do Irã, acusando o texto de ser “o pior da História”, o desejo do presidente dos EUA, Donald Trump, de obter um novo acerto, agora em seus termos, criou uma das maiores crises de segurança no Oriente Médio desde a Guerra do Iraque, em 2003, e abriu caminho para os ataque deste sábado. O republicano acusa Teerã de buscar uma bomba atômica e quer o fim de todas as atividades de enriquecimento — os iranianos negam ter tais planos e não há indícios de que tenham um artefato ou estejam perto de obtê-lo. Ironicamente, foram os EUA, há mais de sete décadas, que deram o passo inicial para o desenvolvimento nuclear do país.
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No final dos anos 1950, quando o Irã era comandado pelo xá Mohammad Reza Pahlavi, um aliado de Washington, o país foi convidado para fazer parte de um programa da Casa Branca chamado “Átomos pela Paz”. Dez anos depois, em 1967, os americanos forneceram o primeiro reator nuclear de pesquisa, com capacidade de 5 MW, hoje localizado em em Teerã. Além de equipamentos e insumos, o programa abriu caminho para a formação de profissionais no setor e para a expansão dos planos do monarca no campo nuclear.
Nos anos seguintes, o xá firmou um acordo para a aquisição de cinco reatores com tecnologia francesa. Sob a égide da soberania nacional, passou a defender o direito do Irã de enriquecer urânio “para fins pacíficos” sem limitações externas, retórica similar à dos discursos das atuais autoridades iranianas. Com três países da vizinhança— Israel, Índia e Paquistão — em etapas distintas de suas corridas por uma bomba, o imperador sugeria que seguiria pelo mesmo caminho.
— Sem dúvida alguma, e mais cedo do que se poderia pensar — respondeu Pahlavi, em 1974, quando indagado por um jornalista francês se o poderia buscar uma arma nuclear, um mês depois do primeiro teste atômico da Índia, o “Buda Sorridente”.
A imperatriz do Irã, Farah Pahlavi (centro) e o imperador Mohammed Reza Pahlavi (centro), junto do presidente americano, Jonh F. Kennedy (direita) e da primeira-dama, Jackie Kennedy (esquerda)
Reprodução: farahpahlavi.org
Em meados de 1978, após longas negociações e pressão do governo do presidente Jimmy Carter, Washington chegou a um acordo preliminar para a venda de seis a oito reatores nucleares para Teerã, mas estipulou regras rígidas. Entre elas, o veto ao reprocessamento de combustível nuclear para uso militar sem autorização prévia. Meses depois, a deposição do xá em meio à Revolução Islâmica e a invasão iraquiana em 1980 mudaram radicalmente o jogo político em Teerã, mas nem tanto suas bases estratégicas.
Com a sobrevivência nacional em jogo — mais de um milhão de pessoas morreram nos oito anos de guerra contra o Iraque, à época apoiado pelos EUA e pela União Soviética —, a recém-nascida teocracia se voltou para um dos mais polêmicos nomes do campo nuclear no Século XX: Abdul Qadir Khan, considerado o pai da bomba atômica paquistanesa e que vendeu clandestinamente modelos de centrífugas de enriquecimento de urânio para Líbia, Coreia do Norte e o Irã. O cardápio de Khan incluía ainda projetos completos para o desenvolvimento de ogivas nucleares.
Equipamentos usados no processo de enriquecimento de urânio na central nuclear de Natanz, no Irã
AFP
Os primeiros modelos, conhecidos como P1, foram montados em Natanz (alvo dos EUA em junho do ano passado), nos anos 1990, com os projetos e peças enviados através da Malásia e dos Emirados Árabes Unidos. Eles serviram de base para o desenvolvimento de centrífugas fabricadas no próprio Irã, como as IR-1, IR-2 e IR-3. Atividades desenvolvidas em sigilo, por vezes com o apoio de países aliados, além da extensa rede subterrânea de Khan, que morreu em 2021.
— Quero questionar a atitude hipócrita e arrogante dos americanos e britânicos. Será que esses bastardos são os guardiões do mundo escolhidos por Deus para estocar centenas de milhares de ogivas nucleares? — disse Khan em entrevista no início do século, quando sua rede nuclear subterrânea começava a ser exposta ao mundo.
Em 2002, o programa sofreu um golpe que não levou ao seu fim, mas passou a alimentar a desconfiança da comunidade internacional sobre suas finalidades.
Documentos secretos obtidos pelo Conselho Nacional de Resistência do Irã, uma aliança de opositores no exílio liderados pelo grupo Mujahedins do Povo, revelaram a existência de duas instalações secretas — Natanz e Arak — onde o regime buscaria enriquecer urânio suficiente para usar em uma arma. Nos anos seguintes, novas unidades foram reveladas, como Fordow, construída sob uma montanha e atacada pelos EUA em 2025, embora os danos não sejam exatamente conhecidos.
Sob pressão da ONU, Teerã reconheceu suas atividades, mas assegurava que elas tinham apenas finalidades pacíficas. Entre os argumentos, uma fatwa (decreto religioso) emitida pelo líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, em 2003, que considerava haram (proibido) a construção e o uso de armas de destruição em massa.
Mural com imagem do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, em cruzamento de Teerã
AFP
Contudo, investigações da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e documentos obtidos pela inteligência israelense em 2018 apontaram para a existência de um suposto projeto, conhecido como Plano Amad, para construir armas nucleares. Segundo as alegações, o plano era liderado pelo cientista Mohsen Fakhrizadeh — assassinado por Israel em 2020 — e foi encerrado em 2003, sem que uma ogiva tenha sido desenvolvida ou montada.
O Irã nega sua existência, e garante sempre ter seguido seus compromissos junto ao Tratado de Não Proliferação Nuclear, assinado pelo país em 1968 (como também dizia o xá Reza Pahlavi) Isso não impediu a imposição de sanções internacionais, que, aliadas a problemas estruturais e de gestão, estão no cerne da crise econômica enfrentada na nação.
Caminhão levando míssil Shahab-3 durante parada militar em Teerã
Behrouz MEHRI/AFP
Em paralelo às atividades nucleares— seja para fins militares, como alegam o Ocidente e Israel, seja para fins pacíficos, como declara o Irã —, Teerã desenvolveu um dos mais robustos arsenais de mísseis balísticos do Oriente Médio. Surgido nos anos 1980, em meio à guerra contra o Iraque, o programa usou como base modelos soviéticos, chineses e da Coreia do Norte: o Shahab-3, baseado no norte-coreano No Dong 1, teria a capacidade de levar uma ogiva atômica, e há menções ao míssil nos documentos atribuídos ao Plano Amad.
Mapa do alcance estimado dos mísseis balísticos do Irã
Arte O Globo
Hoje, o Irã tem mísseis capazes de atingir alvos a até 2 mil km, o que inclui o Oriente Médio, partes da Europa, África e Ásia Central. Alguns desses modelos atingiram Israel durante a guerra de 12 dias em junho de 2025, e embora a maior parte tenha sido abatida, eles provocaram estragos em áreas urbanas e instalações militares e de serviços de segurança. Em suas conversas com Trump, o premier israelense, Benjamin Netanyahu, insistiu que qualquer acordo firmado com Teerã incluísse limites ao programa de mísseis.
— Dissemos aos americanos que atacaremos sozinhos se o Irã ultrapassar a linha vermelha que estabelecemos para mísseis balísticos — disse um integrante das Forças Armadas de Israel ao jornal Jerusalem Post, no início do mês.
Irã volta a atacar Israel, que atinge alvos militares em Teerã, em terceiro dia de conflito.
Reprodução / X / Exército iraniano
Por mais que Trump se apresente como o “presidente da paz”, ele tem uma boa parcela de culpa na crise envolvendo o Irã. Em 2018, o republicano rasgou um acordo internacional (Plano de Ação Conjunto Global, o Jcpoa), firmado por EUA, Irã, Alemanha, Rússia, China, França e Reino Unido, que estabelecia limites ao grau de enriquecimento de urânio pelos iranianos, ao desenvolvimento de novas centrífugas e ao volume de material enriquecido armazenado no país. Inspetores tiveram acesso a instalações outrora vetadas, e podiam verificar em tempo real as atividades. Em troca, sanções foram suspensas, mecanismos de comércio restabelecidos e teve início um lento processo de normalização de laços com o Ocidente.
Representantes dos países e organizações signatários do Plano de Ação Conjunto Global, destinado a controlar o programa nuclear do Irã, logo após sua aprovação em Genebra
Carlos Barria/Pool/The New York Times
Ao quebrar o acordo, o chamando de “o pior da História”, Trump retomou e ampliou as sanções e deixou sobre a mesa a ameaça de um ataque. Teerã, por sua vez, começou a descumprir seus compromissos, acumulando urânio enriquecido a 60%, ampliando sua capacidade de enriquecimento e barrando inspetores.
Ao contrário do que prometeu na campanha, em 2020, o então candidato democrata à Presidência Joe Biden não retomou o Jcpoa. Com Trump de volta à Casa Branca, em 2024, aumentou a pressão por um acordo maximalista, incluindo o fim do programa nuclear, limites ao desenvolvimento de mísseis e às redes de milícias aliadas no Oriente Médio. Como ele demonstrou, o uso da força para fazer cumprir sua vontade não era mais apenas um exercício retórico.
