O 'feirão do carro usado': quem ainda tem paciência para esses apps de relacionamento?

 

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“Como foi a tal festa?”, perguntei à amiga. Mais uma vez não apareci aonde fui convidado, minha bateria social anda mais descarregada do que celular de adolescente.

Um apagão carnavalesco: teve um baile na minha sala; a dúvida é se não acordei ou se participei

Passado o carnaval: que venham os ovos da Páscoa

— Foi boa. Tipo “feirão de carro usado”.

Oi?

Tive que correr atrás para entender o comentário. Tô rindo até agora.

Para quem não está ligado, o feirão do carro usado é um método raiz de negociar automóveis. Acontece nos fins de semana, em estacionamentos de shoppings ou supermercados. A galera frequenta porque ali não tem burocracia ou enrolação. É Pix, é dinheiro vivo, é cartão; até cheque pré-datado ainda deve haver. Vale tudo: trocas, rolos, promessas, esquemas. O maior chamariz do feirão é que dali ninguém sai de mãos abanando.

Sacaram o espírito?

Mais uma pista: quando alguém quer um carro novo, tem que ir a uma concessionária de marca. Custa caro, precisa pensar muito e a longo prazo. Ir várias vezes, olhar, olhar mais uma vez, comprar revistas, fazer mil perguntas ao vendedor. Tem que consultar os amigos e parentes. É toda uma função, o contrário do feirão, no qual é pá, pum.

Agora, sim, vocês pegaram a ideia, né?

Me contaram — sou um eremita — que os “feirões do carro usado” sem automóveis acontecem em festas, shows, rodas de samba e nos “baixos” da cidade. Estão cada vez mais populares. Se você está casado há tempos, tranquilo no CLT afetivo e já esqueceu como é a vida de freelancer, vou de papo reto:

Há um pessoal de 40+, homens e mulheres, que já casou, separou, casou de novo, voltou a separar, enfim, rodou por aí, está na pista e, por experiência, sabe como a banda toca. Ainda tem fé no amor, mas enquanto ele não aparece, vai levando a vida do jeito que dá, se é que estou sendo claro.

Chega o sábado à noite, e o pessoal querendo esquecer do trabalho, ficar de boas, relaxar. Como o caderninho de telefones está empoeirado, tem que ir à luta: achar algum lugar que possa resultar num Hully Gully, num baiãozinho a dois, num “vamo lá pra casa que aqui tá muito cheio”.

E aí, onde?

Está cheio de tinders por aí, mas a galera não tá só usando IA para retocar a própria imagem, mas também para escrever cantadas. Muito caô artificial, muito lero-lero digital, e, na hora do vamos ver, do encontro na lata, é só decepção. Quem ainda tem paciência para esses apps de relacionamento? Só quem tem tempo a perder, o que não é o caso dos 40+.

Melhor tentar ao vivo, como faziam os incas e os vikings.

Esse é o significado de “feirão do carro usado” que a minha amiga falou: um lugar no qual pessoas mais experientes — gostaram da sutileza? — vão para se arrumar. Sabe aquela história do “se organizar direitinho todo mundo se dá bem”? Pois é: o feirão é o lugar. Lá você não se preocupa se vai levar ghosting no dia seguinte, não precisa manter conversas profundas sobre o sentido da vida e não vai ter emocionado fazendo planos para o futuro. É pá, pum.

Aliás, dizem que faz um bem danado para a pele.

E se você é um ser superior, que acha que isso é objetivo demais, que é preciso ter mais sentimento e essas coisas, aviso que já tem algo ainda mais radical e direto: o “leilão de automóveis recuperados”. Esse, sim, é fim de festa, o “barata voa” dos relacionamentos.

Mas é assunto para outra coluna. Vocês ainda não estão preparados para esta conversa.

Ou estão?