O estado é um só. A desconfiança, não

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Com muito orgulho, nasci em Petrópolis. Apesar de ter crescido no Rio, perto da Lapa, nessa Zona Sul oriental, os finais de semana invariavelmente eram na Serra.

Na rua da casa dos meus avós, convivi com as mais distintas crianças, de diferentes realidades econômicas e sociais. Naquele começo de anos 90, só parávamos o futebol se algum automóvel se aproximava.

No domingo, após a missa, encontrava meu avô no armazém do pai do Fred, para comer uma linguiça e tomar refrigerante — vovô Paulo se rendia à batidinha, não custa lembrar. Certo dia, um grupo de novos meninos estava em campo.

Deveriam ser filhos ou sobrinhos de funcionários de uma fábrica que ficava (ou ainda fica, sei lá) no fim da Floriano Peixoto. Com o jogo pegado, e sendo eles meus adversários, ouvi “não vamos dar mole pra moleque do Rio”.

Em segundos, Fred avisou que eu era da cidade. Filho de uma costureira vizinha de meus avós, Davi, outro amigo da época, endossou.

Nunca mais esqueci essa frase. Eram crianças.

Mas o sentimento acendeu uma luz vermelha. Em uma conversa no podcast “Charla”, dos intrépidos Betão e Bruno Cantarelli, no dia 20 de maio de 2025, cravei “tem uma briga por poder entre Rio de Janeiro capital e interior”.

Na sequência, explico como historicamente a complicada fusão a fórceps de 1975 ajudou a alimentar isso, além das multiplicações de municípios nas décadas seguintes. “Há uma desconfiança com quem é da capital”, concluí.

Há cinco anos, escrevo um livro sobre os 92 municípios do estado. Todas as cidades, sem exceção, foram e continuam sendo estudadas.

São raros os grupos locais na web que não estou acompanhando, exatamente para trazer mais e mais elementos da memória regional — e que depois são trabalhados de diferentes formas. Nesse período de eleições, não parei minha travessia pelo RJ, e por isso cruzei digitalmente com pensamentos similares aos dos meninos da rua de Petrópolis.

Como se deve imaginar, não me surpreendeu o resultado a favor de Douglas Ruas. Sinto pena por não poder sentar com meu avô, mineiro de Viçosa, no armazém do pai do Fred, para ouvir atentamente o pensamento.

Ex-morador da Lapa, ele que me ensinou que a rua é grande professora e pune. Por falar em escutar

Um cachimbo aceso teria dado nome ao bairro do Pito, em Natividade, no noroeste fluminense. Segundo a memória popular, Dona Maria sentava-se diante de sua casa de pau-a-pique depois do trabalho e dizia estar “dando um pito”.

Na escuridão, a brasa servia de referência aos moradores. O bairro tornou-se majoritariamente negro na primeira metade do século XX, com famílias que buscavam trabalho perto do centro após a abolição e o declínio das lavouras.

A memória oral da cidade também preserva relatos de segregação, como a proibição da entrada de negros em um clube e de sua circulação nas mesmas calçadas que brancos. Já que falei de Petrópolis

Quando caminhar pela cidade, não deixe de ver, pertinho do Palácio de Cristal, a Casa de Mauá. Essa foi a última residência de Irineu Evangelista de Souza, o Visconde de Mauá, um dos principais empresários do Brasil no século XIX.

Nascido em Arroio Grande, no Rio Grande do Sul, ele investiu em bancos, na iluminação a gás do Rio, na navegação na Amazônia e nas comunicações por telégrafo, além de construir a primeira ferrovia do país. Sua trajetória também teve disputas políticas e uma falência.

Mauá morreu em Petrópolis, em outubro de 1889. Em Belford Roxo, olhe isso

O quintal do hoje Centro Cultural Donana foi berço do Cidade Negra. Ali, os músicos se encontravam e dividiam instrumentos para ensaiar.

Em 1986, a banda Lumiar adotou o nome que levaria a Baixada Fluminense ao cenário nacional do reggae. O primeiro disco, “Lute para Viver”, saiu em 1991, com participação de Jimmy Cliff.

Em 1994, Toni Garrido assumiu os vocais e gravou “Sobre Todas as Forças”, álbum que reuniu sucessos como “Onde Você Mora” e “A Sombra da Maldade”. Donana era Dona Ana, importante rezadeira da cidade.

Por fim Ganhamos aquele e todos os outros jogos.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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