Mais de R$ 2 bilhões emprestados e mais de 174 mil hectares em recuperação. Esses são os números do Reverte, programa desenvolvido pelo Itaú Unibanco em parceria com a Syngenta para recuperar áreas degradadas e citado por Luciana Nicola, diretora de Relações Institucionais e Sustentabilidade do banco, durante o painel “A força delas no agro”, que abriu a etapa de Goiânia do projeto Marie Claire Legados, evento que celebra os 35 anos da publicação feminina. “Olhar hoje para o esforço ambiental no agro não é mais uma agenda de custo, é uma agenda de oportunidade”, disse a executiva, ressaltando que o financiamento descrito pela iniciativa mencionada tem prazo de uma década e três anos de carência, combinados com assistência técnica para que o produtor recupere a área e gere receita antes de começar a pagar.
Luciana também citou o Eco Invest Brasil, do Tesouro Nacional, cuja segunda edição foi voltada à recuperação de áreas degradadas, e destacou condições de crédito com taxas ou carências diferenciadas para determinadas práticas sustentáveis. Iniciativas que mostram como o apoio à transição dos clientes se conecta à própria agenda climática do banco. Segundo ela, as emissões associadas aos negócios financiados são cerca de 700 vezes maiores que as das operações do Itaú Empresas. Alcançar o equilíbrio entre emissões e remoções de gases de efeito estufa exige, portanto, apoiar mudanças nas atividades que recebem esses recursos. “O Itaú só vai ser net zero se seus clientes também forem”, salientou. Recuperar a capacidade produtiva de terras já abertas oferece um caminho para ampliar a produção e reduzir a pressão pelo desmatamento e abertura de novos espaços para a agricultura. Essa transformação precisa considerar o tempo do campo, reforçou Aline Maldonado Lopes, cofundadora e CEO da Produzindo Certo. A plataforma acompanha mais de 10 mil propriedades rurais ativas, com assistência técnica e monitoramento socioambiental. “O crédito, com certeza, é o principal insumo para alavancar qualquer transformação”, disse Aline. Os benefícios da recuperação do solo e da adoção de práticas regenerativas, explicou, não aparecem necessariamente em uma única safra. Por isso, prazos e condições de pagamento precisam acompanhar o retorno do investimento. O desafio ganha urgência diante dos efeitos projetados do aquecimento sobre o Cerrado. Pesquisa da Embrapa e da Universidade de Brasília, com simulações para 2021 a 2070 nas condições estudadas em Planaltina, no Distrito Federal, aponta queda no rendimento de milho e soja tanto no plantio direto como no preparo convencional do solo. Em um cenário onde todos devem perder de alguma forma, aquele que se preparar melhor terá menos prejuízo. Para Luciana Nicola, as clientes do Itaú Empresas possuem características importantes para a agenda ambiental como visão de longo prazo e antecipação de riscos climáticos e de mercado Rosilaine Campos Cassimiro A aposta nas mulheres Na avaliação de Luciana, as clientes do Itaú Empresas apresentam características importantes para enfrentar esse cenário: visão de longo prazo, pesquisa de soluções, planejamento da sucessão e antecipação de riscos climáticos e de mercado. “A mulher é uma tomadora de crédito às vezes mais conservadora, mas é muito melhor pagadora”, afirmou. Ao observar as práticas dessas empreendedoras, acrescentou, “a gente vê um risco menor no negócio dela”. Aline também identifica maior abertura das produtoras para incorporar a sustentabilidade à estratégia das propriedades. Para ambas, ampliar a presença feminina nas decisões pode contribuir para transformar o setor. O apoio do banco inclui o Itaú Mulher Empreendedora, que, segundo Luciana, completou 13 anos e já impactou mais de 900 mil mulheres em seus programas.A iniciativa combina capacitação e conexão em rede, acompanhando empreendedoras da formalização à expansão dos negócios. “Cada produto desse programa fazemos ouvindo as mulheres”, explicou. A aposta também orienta sua atuação pessoal. Mentora dentro e fora do banco, Luciana decidiu concentrar essa atividade no público feminino. “Hoje eu sou mentora só de mulheres”, contou. Para ela, compartilhar experiências e aprender com os caminhos já percorridos por outras empresárias amplia as possibilidades de crescimento: “Juntas, chegamos mais longe”. Aline também falou sobre a importância de duas mulheres estarem discutindo soluções para um setor historicamente dominado por homens. “Enquanto a gente ainda continuar enaltecendo mulheres em posição de destaque e isso ser uma coisa super diferente, que precisa ser destacada, é sinal de que ainda não chegamos lá”.
Globo Rural