Por Guilherme de Souza A. Filho (*) – O mundo ainda tentava digerir os horrores do Regime Nazista na Alemanha quando o Mato Grosso das gigantescas lavouras e pastagens começou a ser desenhado no mapa geopolítico nacional.
Se na década de 1950 a empresa Conomali dava os primeiros passos rumo ao Noroeste, os colonizadores Ariosto da Riva e Ênio Pipino nos anos 70 rasgavam a densa floresta de Mognos e Castanheiras no Norte, para fincar o marco definitivo da ocupação da Amazônia mato-grossense. Sob o lema de “integrar para não entregar”, o governo militar do general Geisel buscava a qualquer custo povoar a Amazônia sob o pretexto de garantir a segurança nacional.
Foi então que milhares de hectares foram entregues a empresas colonizadoras que as fatiavam e distribuíam os lotes quase de graça, preferencialmente a famílias sulistas. Seduzidos pela propaganda estatal, que prometia facilidades e omitia a malária e a acidez do solo, levas de paranaenses, catarinenses e gaúchos venderam o que possuíam e desembarcaram no Norte de Mato Grosso movidos pela utopia da “terra prometida.” Chegavam dispostos a fundar ali uma sociedade baseada não apenas no trabalho, mas também numa rígida e excludente homogeneidade cultural.
Essa pretensa harmonia, contudo, revelou sua face mais excludente e desagregadora em 1978 com a descoberta das jazidas de ouro na calha do Rio Teles Pires e seus afluentes. A febre do metal precioso desencadeou uma onda migratória de pessoas das regiões Norte e Nordeste do país.
Uma convulsão social foi então instalada na região em decorrência daquele fato imprevisto no processo da ocupação, que contou até mesmo com o abandono dos lotes por pessoas que trocavam o trabalho penoso pelo dinheiro rápido dos garimpos. Foi então que a elite sulista não hesitou em acionar seus mecanismos de segregação.
Os trabalhadores nortistas e nordestinos passaram a ser criminalizados e rotulados como vetores da desordem, violência e de doenças além de serem culpados pela chegada das casas de prostituição que invadiam Alta Floresta e os pequenos povoados de Apiacás e Paranaíta. Enquanto Alta Floresta se transformava em um palco de violentos conflitos pelo subsolo, o vilarejo de Sinop operou como um autêntico “anteparo social”, implementando medidas abertamente antidemocráticas para controlar e barrar o fluxo desses migrantes indesejados, empurrando-os para as margens para tentar preservar uma pureza regionalista artificial.
Eu vi essa engrenagem funcionar de perto. Como repórter fotográfico atuando na imprensa até meados dos anos 1990, viajei com frequência ao “Nortão”.
Produzi matérias especiais para veículos como O Globo, Folha de S.Paulo e Estadão, mas foi o Suplemento Especial sobre Sinop e Alta Floresta em 1984, para o jornal Folha de Londrina, que me marcou profundamente. Trabalhando ao lado de jornalistas como Paulo Barros e José Carlos Quatti, com participação do emblemático Montezuma Cruz, colhi o testemunho do próprio Da Riva.
Pude ouvir dos líderes da colonização os relatos sobre as dificuldades de fixação das famílias diante do fenômeno do ouro. O garimpo deixava claro que o preconceito regional não era um subproduto do acaso, mas uma política deliberada de exclusão.
A Sinop que hoje se impõe como a capital do agribusiness esconde em sua historiografia oficial que a sua tão celebrada consolidação urbana foi financiada também pelo capital desses mesmos nordestinos que enriqueceram nos garimpos de Apiacás. Eles injetaram dinheiro na economia local comprando caminhões e maquinários pesados.
Instalando postos de combustível e os primeiros maquinários para o benefício da madeira. O progresso da região, portanto, não se iniciou por um monólogo europeu, embora a mística do pioneirismo higienizado insista em apagar o outro lado da história.
Esse comportamento hostil nos obriga a olhar retrospectivamente para o cordão umbilical que liga o pujante “Nortão” de Mato Grosso às origens geográficas de seus colonos. Ao deixarem o Sul nas décadas de 1970 e 1980, aquelas famílias carregavam uma herança silenciosa: o fato de o Brasil ter abrigado a maior seção do Partido Nazista fora da Alemanha, cuja primeira célula oficial nasceu exatamente em Timbó (SC), em 1928.
Não imaginavam que sua região de origem sustentaria, por décadas, a marca de maior concentração de células neonazistas ativas no país. Estudos antropológicos mais modernos revelam como o extremismo contemporâneo no Sul do Brasil se apoia em mitos de identidade que exaltam o imigrante europeu como o único herói civilizador, gerando um terreno fértil para narrativas da supremacia branca e a aversão ao “outro” — aceitando o migrante apenas como mão de obra subordinada e reagindo com violência à sua ascensão social.
Hoje, as redes sociais transformaram o que antes era só um preconceito de fronteira em um espetáculo explícito de intolerância racial e política. Depois das eleições presidenciais, em pleno 2026, assistimos a propostas de boicote, demissões de trabalhadores pobres e ameaças de expulsão de nordestinos baseadas unicamente no resultado do pleito eleitoral.
O teor dessas mensagens ultrapassa a mera disputa partidária; flerta abertamente com a segregação e a supremacia ideológica que remetem aos períodos mais sombrios da história moderna. Diante desse cenário, uma indagação é inevitável: ao romperem o isolamento geopolítico e transformarem a Amazônia Legal, teriam os arrojados pioneiros do Sul trazido consigo, na bagagem cultural da migração, o DNA da intolerância e os fragmentos ideológicos das células extremistas contemporâneas?
(*) Jornalista em Cuiabá, Mato Grosso Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
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