O cardápio da mesa ao lado

O cardápio da mesa ao lado - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Se tem uma coisa que anda cada vez mais escassa nas mesas da cidade são os cardápios de couro sintético, com o nome do restaurante em relevo na capa dura e acolchoada ao mesmo tempo. Extensos, costumam passar um bom tempo nas mãos de quem se senta à mesa. Nem sempre como instrumento de consulta. Às vezes, o prato já está escolhido antes mesmo de chegar ao lugar, mas o ir e vir das folhas funciona como uma ferramenta para se desconectar do mundo lá fora e fazer uma pausa antes da refeição. Esse pequeno ritual quase imperceptível vem sofrendo seguidos reveses nos últimos tempos. O maior baque, sem dúvida, veio com a pandemia, quando surgiram os cardápios em QR Code. Entendo que foi necessário na época. Mas entendo também que essa época passou. Tudo o que eu menos quero é chegar num bar e ter que ficar mais tempo no celular. Isso sem falar que a escolha do que será pedido acaba ficando um pouco mais egoísta, sem graça. Com cada um de olho na sua tela, a magia de encontrar junto um prato preferido no cardápio se quebra Solução moderninha disfarçada de vintage são os quadros de giz. Não falo das tabuletas de caligrafia duvidosa que servem para informar o que a cozinha está soltando no dia. Falo das que precisam ser levadas à mesa por um garçom, que geralmente explica a maioria dos pratos, e precisa ainda rebolar para guiar o painel entre uma mesa e outra. Sinto-me em uma gincana onde tenho que decidir o que vou querer no menor tempo possível para liberar o garçom, que deve ter mais o que fazer. Consultar novamente as sugestões do dia? Só no dia seguinte. Para evitar constrangimentos, acabo pedindo para tirar uma foto e crio meu próprio cardápio QR Code mambembe. Lasanha da Cozinha dos Ferrari Marcella Sobral Com fotos e vídeos cada vez mais profissionais, os perfis das redes sociais de bares e restaurantes são cardápios móveis, compartilháveis e que geram desejos urgentes que eu nem sabia que tinha. Vivo caindo nessa, e isso não é uma reclamação. Tem sido fácil me seduzir pelas ofertas de especiais do dia e do fim de semana que aparecem no meu feed. Tanto já aceitei que sou presa fácil para essas coisas que há dois pratos em especial que fico monitorando para saber quando estão em cartaz. Duas lasanhas, na verdade. Uma é a com ragu de carne de lata feita na lenha de pessegueiro que raramente dá pinta no Capiau, no Beco das Sardinhas. Desafio qualquer um a ver o vídeo do preparo e não ter vontade de experimentar. A outra também é no Centro, na Cozinha dos Ferrari, carinhosamente chamada de espelunca carioca. Restaurante familiar e sem afetação que veio da Mooca para a Avenida Beira-Mar. Ali, a lasanha aparece como prato secreto do cardápio, que muda semanalmente. A graça é o ovo de gema mole que derrete à mesa. Mas nada supera o olho no olho, ou olho no prato. Mais eficiente do que qualquer cardápio, físico ou digital, é a mesa ao lado. Outro dia, fui a um restaurante grã-fino em busca de um prato especial do dia que vi no Instagram. Ainda estava nos bebes quando passou uma outra sugestão do dia, lindíssima. Perguntei ao garçom o que era só por desencargo de consciência e pedi um igual.

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