A renda por habitante do Brasil cresceu 40% desde 2002, mas o país perdeu a corrida. Investimento baixo, produtividade parada e erros de vários governos, inclusive do PT, ajudam a explicar o atraso.
De manhã vimos que 14 países passaram o Brasil em renda por habitante desde 2002. Agora a tarde, a pergunta é: por quê? E de quem é a responsabilidade? A resposta honesta incomoda todos os lados, porque a tabela atravessa quatro tipos de governo.
O economista pode dizer em uma frase: o Brasil investe pouco e produz pouco por hora trabalhada. A taxa de investimento brasileira ficou em torno de 18% do PIB entre 2003 e 2023, abaixo da média latino-americana (20%), da Índia (31%) e da China (41%), segundo a McKinsey.
O FGV Ibre calcula 17% hoje, contra 26% da média global, com uma poupança de 14,5% do PIB em 2024. O resultado aparece na produtividade.
Entre 1997 e 2022, só 33% do crescimento brasileiro vieram de ganhos de produtividade, contra 81% na Índia e 97% na China. Em 1950, o trabalhador brasileiro era duas vezes mais produtivo que o coreano.
Hoje, tem pouco mais de um terço da produtividade coreana. Em 2024, a produtividade por hora variou 0,1%, depois de subir 2,3% em 2023.
Há ainda a demografia. Entre 2012 e 2025, a fatia da população com menos de 30 anos caiu de 49,9% para 41,4%, e a dos maiores de 60 subiu de 11,3% para 16,6%.
Segundo o FGV Ibre, parte do crescimento passado foi sustentada pelo bônus demográfico, que está se esgotando. Além disso, os benefícios fiscais consomem 4,4% do PIB, segundo a Receita Federal, em subsídios que poderiam financiar investimento.
Lula I e II (2003–2010): o melhor período. O PIB cresceu 4,05% ao ano, acima dos 2,73% da média mundial, segundo a Unicamp, e a renda por habitante subiu 2,3% e 3,6% ao ano nos dois mandatos, segundo a Fundação Perseu Abramo.
Mas foi impulsionado pelo superciclo de commodities, pelo bônus demográfico e pela expansão do crédito, e não por ganhos de produtividade. Dilma (2011–2016): o pior.
A economia caiu 3,5% em 2015 e 3,3% em 2016. A avaliação predominante entre economistas liberais atribui a recessão ao fim do ciclo de commodities somado a erros de política (a chamada Nova Matriz Econômica, com desonerações e controles de preços).
A esquerda contesta essa leitura, mas o fato é que o país saiu do período mais pobre do que entrou. Temer e Bolsonaro (2017–2022): o crescimento foi de 1,3% e 1,8% sob Temer, e de 1,12% ao ano em média sob Bolsonaro, abaixo da média mundial de 1,95%, segundo a Unicamp, com a pandemia no meio.
Houve reformas importantes: teto de gastos, reforma trabalhista, da Previdência e autonomia do Banco Central. Mas elas não bastaram para destravar o investimento.
Lula III (2023–2025): o PIB cresceu 3,2%, 3,4% e 2,3%, uma média perto de 3%, e a reforma tributária foi aprovada, o que é um crédito. Mas a conta fiscal piorou: a dívida bruta deve chegar a 83,4% do PIB em 2026 e 87% em 2027, e o Focus projeta 95,1% em 2030.
A Selic está em 13,75% e o investimento continua perto de 17% do PIB. O saldo do PT é misto, e a crítica mais forte é de modelo.
O crescimento de 2003–2010 foi de consumo e crédito, não de investimento e produtividade, e quando o ciclo virou, o país ficou sem alternativa. Na volta, o governo apostou em gasto e política industrial, com a dívida em alta e juros que travam o investimento privado.
Por outro lado, os governos que vieram depois também não resolveram o problema. Na segunda-feira, depois da reeleição, o dólar chegou a subir 12%, para perto de R$ 5,60, e o DI de janeiro de 2033 saltou quase 2 pontos, a 14,58%.
É o preço que o mercado cobra pela dúvida fiscal. Nenhum dos países que passaram o Brasil ficou rico por decreto.
A agenda é conhecida. Fiscal crível: regra que estabilize a dívida e permita juros menores.
Investimento: subir de 17% para 20% ou mais do PIB, com concessões e infraestrutura. Abertura: o acordo Mercosul-UE está em vigor provisório desde 1º de maio, e o Mercosul-EFTA já vale com a Islândia.
Usar essas portas é parte da agenda. Educação: o Brasil está em 66º no PISA 2025, e a produtividade começa na sala de aula.
Gasto tributário: reduzir os 4,4% do PIB em benefícios fiscais. Tailândia e República Dominicana não tiveram milagre.
Tiveram rotina: investimento e abertura por duas décadas. O Brasil ainda não escolheu essa rotina, nem sob Lula, nem sob quem veio antes.
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