Janones: ordens e missões aos “soldados de Lula” são disparadas ao longo do dia, pelo canal do WhatsApp Marina Calderon/Agência O Globo “Pessoal, urgente!”. “A estratégia que eu vou mandar para vocês agora definirá a eleição de uma vez por todas”. “Explodam [o compartilhamento]”. “Subam a hashtag e compartilhem no WhatsApp”. As ordens aos apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não param de chegar ao longo do dia, disparadas pelo deputado federal André Janones (Rede-MG) no “Exército do Lula”, canal do Whatsapp com mais de 5,6 milhões de seguidores. “É o desafio da vida de vocês”. Janones, ou “general Janones”, como tem sido chamado nas redes sociais, é um dos principais responsáveis pela estratégia digital da campanha de Lula no segundo turno, na disputa contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O parlamentar ajudou a dar uma guinada na campanha do petista contra Flávio. Com suas ordens e orientações, Janones tem impulsionado e mobilizado manifestações em favor de Lula em redes como X, Instagram e Facebook, e nas ruas. Na sexta-feira (16), por exemplo, impulsionou um “panelaço” contra Flávio durante entrevista do senador à TV Globo. No dia seguinte, incentivou as pessoas a postarem fotos vestidas com as cores do Brasil e fazendo o “L” de Lula. “A extrema-direita nunca mais vai ter hegemonia nas redes sociais, porque o conhecimento que tenho, a maneira como algoritmo funciona, eu já passei adiante”, diz Janones. Com a desvantagem de Lula nas urnas no primeiro turno, quando terminou atrás de Flávio (47,03% do senador a 45,15% do petista), a campanha petista acendeu um sinal de alerta e escalou uma “tropa de choque”, ou melhor, um “Exército do Lula”, para ajudar na estratégia digital. Desde o início do segundo turno, ampliou os seguidores do canal de 50 mil para mais de 5 milhões. O parlamentar entende a linguagem das redes e em 2022 assumiu essa mesma função para estancar parte da força do bolsonarismo nesse campo. Desta vez, conta com colegas eleitos com presença digital como Ana Elisa (PT-MG), Guilherme Cortez (Psol-SP), Jones Manoel (Psol-PE) e Erika Hilton (Psol-SP). “Em 2026 comecei a ser mais ouvido. Isso que sei comecei a aprender há 10 anos, e aprendi observando. Não era tão ouvido quanto sou hoje”, diz. Nas últimas semanas, o deputado diz ter passado por “privação do sono”, descuidado da alimentação e da hidratação para dedicar-se à campanha. Na madrugada de segunda-feira, depois do debate da TV Band, foi internado na UTI de um hospital em São Paulo, por conta de uma arritmia cardíaca. Teve alta na terça-feira e foi recebido por um “exército” de apoiadores. Parlamentar ajudou a dar uma guinada na campanha do PT no 2º turno, para ganhar espaço nas plataformas O “janonismo cultural” - maneira como a tática do deputado é conhecida - divide espaço com um perfil mais jovem na campanha. As ideias e sugestões do grupo foram adotadas por Lula, que passou a fazer vídeos vistos como mais despojados e com menos perfil de comunicação institucional. “Atropelamos a extrema direita nas redes sociais. Juntando um povo que realmente acredita na democracia”, diz. Janones está no centro da polêmica com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O canal comandado por ele foi tirado do ar ao menos duas vezes, a pedido da campanha de Flávio, que alegou uso de “fake news” no espaço. A situação gerou mal-estar na Corte. O presidente do tribunal, Kassio Nunes Marques protagonizou uma guerra de decisões com o corregedor do TSE, Ricardo Villas-Bôas Cueva. Por conta disso, o canal ficou fora do ar por cerca de 24 horas no dia 14. Nunes Marques argumentou que o espaço não estava registrado como meio oficial de campanha de Lula. O canal “Tropa do Flávio”, ligado ao senador, também não estava registrado no TSE, mas não sofreu punições. O deputado chamou atenção dos bolsonaristas em 2022 ao publicar um texto em que fazia referência a um vídeo do então presidente Jair Bolsonaro, discursando em uma loja maçônica. “Urgente: satanistas ateus da Maçonaria pedem que Bolsonaro seja eleito para representá-los”, dizia a mensagem. A situação gerou constrangimentos na campanha de Bolsonaro com os evangélicos. Essas histórias e táticas da campanha de 2022 ele detalhou no livro “Janonismo Cultural: O uso das redes sociais e a batalha pela democracia no Brasil”, lançado em 2023. Segundo o parlamentar, os enfrentamentos não têm uma estratégia previamente elaborada, e partem do princípio de que o período eleitoral é algo urgente. Ele afirma que monitora o que é compartilhado nas redes sociais e páginas voltadas ao eleitorado, filtrando assuntos que possam ser mais pertinentes. “Não adianta mostrar mais escândalos do adversário, nada vai fazer efeito na bolha mais fiel a ele. Vamos vencer com argumentos.” Pesquisador e integrante do Instituto de Estudos Avançados da USP, Agnaldo Montesso, analisa as táticas utilizadas pelo deputado e mencionadas no livro. Ele diz que, em 2022, a campanha de Lula criticou a maneira como o deputado fazia a comunicação, mas, agora, ele tem sido responsável por ocupar o espaço, visto que a maneira tradicional não está sendo eficaz. Montesso compara a estratégia utilizada com tática de guerrilha em que Janones seria o comandante do exército, mas questiona a efetividade dela. “Traz engajamento, mas a partir de que momento tem convencido as pessoas indecisas ou que votaram em outras pessoas a confiarem no Lula? Ele está certo em adotar esse tom de urgência porque a eleição é agora e a campanha não tem tempo a perder”, explica. Uma estratégia que chama atenção é o disparo em massa de informações através do “status” do WhatsApp, que, segundo o pesquisador, não estão sujeitos ao algoritmo. Antropóloga e professora na UFSC, Leticia Cesarino avalia o cenário: “Com o resultado do primeiro turno, houve um despertar e isso foi uma janela de oportunidade para as pessoas que sempre defenderam o uso das redes ganharem espaço.” Apesar disso, a antropóloga vê o movimento chegando atrasado na mobilização. Cesarino ressalta que, independentemente do período eleitoral, a estratégia utilizada faz com que lideranças políticas se reposicionem nas redes sociais. “Não é usar as mesmas táticas do inimigo, mas falar nos mesmos termos. Paralelo a isso tudo é o letramento digital das pessoas e um entendimento de como usar o algoritmo”.
‘Nunca mais a extrema-direita será hegemônica nas redes’
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