Superar o descompasso entre indicadores favoráveis e a percepção negativa da economia pelos eleitores exige que candidatos à reeleição carreguem em dois temperos, na visão do consultor político Karl Rove: empatia e pé no chão. A receita do republicano conhecido como “o arquiteto”, responsável pelas duas campanhas vitoriosas de George W.Bush à Casa Branca, tem como destinatário o presidente Lula (PT), que tenta novo mandato no Brasil e encara essa desconexão econômica.
Felipe Nunes: Flávio se saiu melhor que Jair. É o agro, estúpido!
Ipespe: Flávio tem 49% de intenções de voto totais ante 44% de Lula no 2º turno; veja os dados Nos Estados Unidos, uma das razões apontadas pelos próprios democratas no obituário interno depois da derrota de Kamala Harris para Donald Trump, em 2024, foi a incapacidade de traduzir os bons números para eleitores que sentiam o bolso vazio.
Agora é o republicano quem se vê às voltas com o mesmo problema nas eleições de meio de mandato, que acontecem em novembro. As pesquisas mostram esta como uma das razões centrais para a vitória arrasadora da oposição prevista pelas sondagens.
Aos 75 anos, no comando de sua consultoria política no Texas, Rove é um raro crítico de dentro do Partido Republicano tanto do presidente Donald Trump quanto do movimento “Faça os Estados Unidos Grandes Novamente” (Maga, na sigla em inglês). Vive às rusgas com ambos, e é alvo constante da fúria do presidente.
Ao GLOBO, ele também afirma que, quando a Casa Branca interfere em eleições internacionais, como ocorre no Brasil, “o tiro tende a sair pela culatra”. Rove inaugura neste domigo a série “Brasil visto de fora”.
Daqui até o dia 25, quando o Brasil volta às urnas, estrategistas internacionais analisam pautas caras à eleição brasileira. Muitas delas, como a incapacidade de os bons números econômicos garantirem reeleições ou as seguidas vitórias de opositores nos últimos anos, se inserem em contexto global e se provaram centrais em disputas em outros países.
Assim como Joe Biden e Kamala Harris em 2024, e agora Donald Trump, o presidente Lula enfrenta a desconexão entre indicadores econômicos positivos e a percepção de bolsos mais vazios por parte dos eleitores. Qual é a saída para candidatos governistas diante desse aparente paradoxo?
Um: empatia. Dois: mantenha o pé no chão, não exagere ao falar das condições atuais.
Há uma tendência de quem está no poder de dizer: “Espere aí, espere aí. Você acha que as coisas estão ruins, mas vejam os números, na verdade está tudo muito, muito bom”.
Isso nunca funciona se o eleitor não está sentindo. É preciso reconhecer que as pessoas querem ter certeza de que você vai tentar melhorar as coisas.
Diga algo sobre como você sabe que, sim, algumas coisas estão mesmo fora do eixo. Mas destaque os sinais positivos e diga o que pretende fazer.
Pensando especificamente nos EUA, o interessante é que nenhum dos dois lados faz isso. Isso ajuda a explicar a escassez de governantes mundo afora com bons índices de aprovação e o baixo percentual de reeleições?
Vivemos em uma era em que as redes sociais e a atitude geral das pessoas tendem a minar a confiança nas instituições. Após a pandemia da Covid, passamos por uma fase em que, de maneira geral, a inflação foi significativa sem reposição salarial adequada.
Aqui nos EUA, se você considerar apenas os últimos seis meses, até há aumento salarial que, em média, supera a inflação. Mas, se incluir no cálculo o ano inteiro, a defasagem ainda é sensível.
Como avalia os movimentos do governo Trump para interferir nas eleições brasileiras, que incluem a imposição de tarifas e a classificação de facções criminosas como narcoterroristas, na linha do que defende Flávio Bolsonaro? Trump parece acreditar ter carta branca para a interferência.
Vimos um envolvimento muito direto na Hungria, em apoio ao governo de Viktor Órban. Isso é um exemplo de política externa ruim, e que tende a sair pela culatra — como foi o caso lá, com a vitória da oposição.
Suspeito que os esforços do vice-presidente JD Vance (que participou de comícios de Órban) atrapalharam mais do que ajudaram o candidato favorito da Casa Branca. O mesmo se deu antes no Canadá, onde os conservadores lideravam as pesquisas até ficarem muito identificados com o presidente americano.
Boa parte trocou de candidato e o liberal Mark Carney venceu. A lição é de que é um tiro no pé? Há exceções?
A lição é a de que os presidentes americanos servem melhor a si mesmos e aos EUA deixando que os outros países cuidem de seus próprios processos políticos. Para causar impacto efetivo em outros países, deveriam atuar apenas nos bastidores, sempre em favor de comprometidos com a democracia, e ainda assim de forma comedida.
Essa movimentação nos foi útil no período posterior à Segunda Guerra Mundial, com a ajuda aos anticomunistas na Europa Central e na Itália, para afastá-los da órbita soviética durante a Guerra Fria. Mas, ainda assim, não se via o presidente ou seu vice em comícios, apoiando candidatos ou assumindo um papel ativo, como a Casa Branca faz hoje.
Acredita, portanto, que esse apoio de Trump, se intensificado, poderia prejudicar a candidatura de Flávio Bolsonaro no segundo turno no Brasil? Sempre que um presidente americano parece favorecer um lado, aumenta o risco de um efeito negativo.
É diferente, por exemplo, de (o ex-presidente dos EUA) Ronald Reagan abraçar (a ex-primeira ministra britânica) Margaret Thatcher. Os dois eram populares e tinham pensamentos semelhantes.
Naquele caso, apoiar era um gesto. O envolvimento ativo, contudo, é problemático.
Outros países, inclusive nossos aliados históricos, não gostam da percepção de que o presidente americano dita sua política interna. Trump caminha para uma derrota graúda nas eleições legislativas de meio de mandato, em 4 de novembro.
Nesse sentido, não seria particularmente desvantajoso para a oposição no Brasil se associar a um presidente fragilizado? Sim.
Mesmo que Trump vencesse em novembro, já seria o que chamamos de “pato manco”, pois a sucessão presidencial começa no dia seguinte. E insisto: as pessoas não gostam de estrangeiros se intrometendo em seu processo eleitoral.
Mesmo que admirem aquele líder estrangeiro, reagem com a ideia de que “a decisão é nossa, não sua. Por favor, chega para lá.” Se o presidente americano é popular em outros países, lideranças locais podem ir a Washington e ser vistas com ele quando a campanha começar.
Isso é uma coisa. Mas desempenhar um papel ativo na política alheia é problemático tanto para os EUA a longo prazo quanto, a curto prazo, para os países-alvo.
O interesse dos EUA na eleição brasileira atual faz parte da agenda de Trump ou é mais especificamente uma pauta do secretário de Estado, Marco Rubio? Digamos que, quando se trata da região, em particular de Venezuela e de Cuba, Marco tende a ter opiniões fortes.
O governo de George W. Bush invadiu e ocupou o Iraque e o Afeganistão.
Como vê a situação hoje na Venezuela após a ação militar de Washington que sequestrou Nicolás Maduro? Relações estáveis com outros países não funcionam se desempenhamos papel dominante na organização e na operação de suas economias.
Uma coisa é a Chevron, empresa americana com presença de longa data na Venezuela. Outra é Washington impor acordo sobre o petróleo explorado lá.
Veremos consequências duradouras disso. Politicamente, falamos agora em estabilizar um regime hostil à democracia e aos interesses dos EUA, que não é considerado parceiro confiável pelas empresas que terão de financiar a tecnologia e a infraestrutura para desenvolver essas reservas de petróleo.
Portanto, sou um pouco cético sobre como isso vai terminar. Lula, apesar de ser de esquerda, teve ótima relação com o republicano Bush.
Quais eram as razões da química entre eles? Bush enxergava em líderes importantes a expressão de seus povos.
O objetivo era manter e, quando possível, até melhorar a relação. Obviamente, era mais fácil fazer isso com líderes de centro-direita, como eram os da Austrália e do Canadá, por exemplo.
Mas um dos principais aliados do presidente era de centro-esquerda, o primeiro-ministro britânico Tony Blair. Bush não deixava que as políticas internas de cada país interferissem nas relações internacionais.
Cada relação foi construída de acordo com as exigências do momento e a natureza das pessoas com as quais lidávamos. O que se lembra das idas de Lula aos EUA para visitar Bush, que também comeu um churrasco com o brasileiro na Granja do Torto?
Eram dois “caubóis” se conhecendo. Foi um grande acontecimento.
Diante do caos trumpista, há até líderes do Partido Democrata que, de forma jocosa, confessam ter saudade de Bush. O que o senhor acha disso?
Eu adoro (rindo muito). Todos achávamos que estávamos vivendo no meio de uma grande briga naquela época.
Que a política era polarizada demais e bastante feia. Ao revisitar aqueles tempos com as lentes de hoje, parece que estávamos todos brincando no parquinho e que iríamos, no fim, dividir sanduíches de pasta de amendoim.
Bons tempos.
O Globo