A reação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao ser chamado de "nove dedos" e as propostas de Flávio Bolsonaro (PL) para a segurança pública estiveram entre os momentos de maior aprovação de eleitores que acompanharam o debate da TV Globo, na sexta-feira, em pesquisas qualitativas, que avaliam as percepções e reações de grupos de participantes.
Do lado negativo, pesaram o aparente cansaço do petista e a confusão do senador ao trocar o nome da mãe da menina Ana Clara pelo da própria filha. Os levantamentos consultados pelo GLOBO também mostraram que uma avaliação positiva do desempenho nem sempre se traduz em intenção de voto.
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Renato Meirelles, do Instituto Locomotiva, afirma que parte dos participantes considerou Flávio mais consistente durante o confronto. O excesso de preparação, contudo, despertou desconfiança, com respostas vistas como ensaiadas e pouco espontâneas.
Lula, por sua vez, conseguiu despertar solidariedade ao transformar uma provocação pessoal em um relato sobre sua trajetória como trabalhador. — O momento mais forte da noite foi a resposta do Lula aos "nove dedos".
Quando ele trocou a ofensa pela história de quem perde um dedo na fábrica, agradou até quem não gosta dele. A provocação do Flávio, ao contrário, soou insensível — aponta Meirelles.
A percepção também apareceu em outro levantamento, realizado com 80 eleitores divididos em oito grupos, em cinco capitais. Segundo um pesquisador responsável por estudos de opinião voltados ao mercado financeiro, ouvido sob condição de anonimato, a cobrança de desculpas foi o momento de maior aprovação de Lula.
As críticas ao presidente, porém, não se concentraram em uma fala específica, mas em sua postura ao longo do confronto. Os participantes o consideraram cansado, com pouca energia e dificuldades para administrar o tempo das respostas, avaliação também identificada pelo Locomotiva, que registrou incômodo com a exaltação do petista.
No caso de Flávio, os levantamentos apontaram diferentes momentos de aprovação. Para Meirelles, o senador se destacou ao defender propostas de segurança pública, como a redução da maioridade penal e o endurecimento das punições.
— Redução da maioridade penal e pena mais dura são propostas que o eleitor entende de primeira. Já no grupo de 80 eleitores, a maior aprovação veio com as propostas para as regiões Norte e Sul.
Flávio prometeu reajustes do salário mínimo e das aposentadorias acima da inflação, investimentos na prevenção de enchentes no Rio Grande do Sul, medidas para enfrentar o endividamento do estado e melhorias nas rodovias de Santa Catarina. Também defendeu o emprego da Marinha contra o tráfico no Porto de Paranaguá, no Paraná, e a ampliação do saneamento básico na região Norte.
Confira: Veja o que é #FATO ou #FAKE nas falas de Flávio Bolsonaro e Lula no debate da Globo Os dois estudos, contudo, registraram reações negativas ao episódio envolvendo a mãe de Ana Clara, menina de cinco anos morta por um tiro de fuzil em Niterói, em 2021.
Durante o debate, Lula questionou Flávio sobre sua atuação na defesa do policial militar acusado de efetuar o disparo. Ao responder, o senador tentou se solidarizar com a mãe da criança, presente na plateia, mas a chamou pelo nome da filha.
A confusão foi apontada como o pior momento de Flávio entre os 80 participantes. Segundo Meirelles, o episódio também repercutiu negativamente nos grupos do Locomotiva, sobretudo entre as mulheres.
O pesquisador acrescenta que as referências insistentes do senador ao uísque e seus apelos à religião provocaram desgaste. Desempenho não se traduz necessariamente em voto
Na avaliação de Meirelles, Lula conseguiu melhorar sua imagem entre parte dos indecisos, mesmo com Flávio sendo considerado mais consistente por alguns participantes. A diferença esteve na percepção de autenticidade: enquanto o senador transmitiu uma imagem de preparação, o presidente estabeleceu uma conexão emocional ao recorrer à própria experiência de vida.
— O Lula ganhou por pontos. Num debate em que ninguém brilhou, a experiência passou segurança, e o Flávio pareceu ensaiado demais: falava para a câmera, não para o adversário.
Mas ganhar por pontos não é nocaute — afirma. No WhatsApp: Entre na comunidade Eleições 2026 e receba as notícias em primeira mão
Brasil dividido: Saiba em quais estados Flávio e Lula venceram no primeiro turno Segundo o pesquisador, houve indecisos que se aproximaram de Lula por considerarem mais seguro manter alguém conhecido no comando do país do que apostar em uma alternativa incerta.
A mudança de percepção, porém, não significou necessariamente uma alteração na intenção de voto. — Também teve quem achou que o Lula foi melhor e mesmo assim saiu dizendo que não vota em nenhum dos dois.
A percepção mudou mais do que o voto. O baixo impacto do confronto também apareceu no levantamento com 80 participantes.
Ao fim do debate, 60 deles, o equivalente a 75%, continuavam sem definir o voto. Os outros 20 se dividiram entre Lula e Flávio.
De acordo com o pesquisador ouvido sob anonimato, o resultado contrasta com o observado no debate anterior, promovido pela Band, no domingo, quando houve maior estímulo ao não voto, com manifestações de desinteresse em escolher qualquer um dos candidatos. Na Globo, esse movimento não se repetiu com a mesma intensidade.
Debate final: na TV Globo, Flávio e Lula trocam cobranças e ataques, enquanto buscam explorar pontos fracos do rival Para Meirelles, o principal dilema dos indecisos é o desejo de mudança acompanhado do receio de que a troca de governo piore a situação do país.
Isso, ressalta, não significa identificação com Lula. — Esse eleitor quer mudança, mas tem medo de mudar para pior.
Não é fidelidade ao Lula. É medo da alternativa, somado à dúvida de que o Flávio seja menos mudança e mais continuidade do próprio pai.
Propostas agradam, mas ataques cansam eleitores Os dois levantamentos também registraram boa receptividade à discussão de propostas e rejeição à escalada de ataques pessoais no último bloco.
Nos grupos do Locomotiva, o debate foi considerado mais civilizado, mas também mais monótono que o da Band. Alguns participantes o descreveram como um "vestibular pra presidente".
Os temas mais bem recebidos foram os ligados ao cotidiano, como emprego, salário, preço dos alimentos e segurança pública, diz Meirelles. E provocações pessoais, deboches e respostas ensaiadas provocaram rejeição.
As acusações de corrupção, exploradas pelos dois candidatos, tampouco atraíram os participantes. — Virou empate: cada um acusa, ninguém convence — resume.
e-Título: Como baixar e usar o app no dia da eleição 2026; confira o passo a passo Os eleitores ainda cobraram explicações mais concretas sobre como as propostas seriam executadas.
Meirelles cita as promessas de Flávio de cortar gastos públicos e preservar programas sociais, sem detalhar como conciliaria as duas medidas. Outra ausência percebida foi a de discussões sobre os impactos da inteligência artificial no mercado de trabalho, tema que, segundo o pesquisador, já preocupa os eleitores.
Para ele, as reações também mostraram que relatos pessoais têm mais força do que indicadores econômicos apresentados isoladamente. — A emoção vence a estatística: quando o Lula fala da própria vida, conecta; quando fala de PIB, perde o eleitor.
Como funcionam as pesquisas qualitativas? Um dos levantamentos reuniu 80 eleitores, divididos em oito grupos em Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Recife.
Os participantes tinham entre 25 e 45 anos, faixa etária apontada pelo pesquisador como uma das que concentram maior indefinição eleitoral. A seleção incluiu indecisos, pessoas que votaram em branco ou nulo no primeiro turno, mas admitiam escolher um candidato no segundo, e apoiadores de Lula ou Flávio dispostos a mudar de voto.
Eleições 2026: Quem não votou em primeiro turno pode votar no segundo? Reunidos em salas filmadas, os eleitores acompanhavam o debate ao redor de mesas, com moderadores responsáveis por conduzir as discussões.
Alguns grupos eram mistos, enquanto outros reuniam apenas homens ou mulheres. Diferentemente das pesquisas quantitativas de intenção de voto, os levantamentos qualitativos buscam compreender as motivações e percepções dos participantes, sem representar estatisticamente o eleitorado.
Assim, os 75% que terminaram o debate sem definir o voto correspondem apenas às 80 pessoas acompanhadas, não a uma estimativa nacional de indecisos. — A pesquisa qualitativa não mede o tamanho do eleitorado, mostra a lógica dele.
Serve para entender por que o eleitor decide, não para prever quem vai ganhar — conclui Meirelles.
O Globo