Quem acompanha o GP de São Paulo neste fim de semana deve ter percebido uma novidade em Interlagos: um mural de quase 2 mil m², produzido pelo artista Eduardo Kobra, que retrata Ayrton Senna ao lado de personagens e símbolos da capital paulista. A obra, porém, reacendeu um debate sobre o excesso de homenagens ao tricampeão em comparação com outros grandes nomes brasileiros da Fórmula 1.
O assunto foi tema também da coletiva de imprensa em Interlagos e, nas redes sociais, diversos internautas questionaram o excesso de homenagens ao tricampeão mundial, em detrimento de outros pilotos brasileiros que também fizeram história na F1, como o tricampeão Nelson Piquet e o bicampeão Emerson Fittipaldi, além de vencedores de corridas, como Felipe Massa, Rubens Barrichello e José Carlos Pace.
Além do novo mural, há também uma pintura de corpo inteiro de Senna em uma torre do autódromo, também produzido por Kobra, em 2020, e um busto gigante, localizado no setor A, inaugurado em 2023, criado pela sobrinha do piloto, Lalalli Senna. Interlagos
Divulgação prefsp O jornalista Reginaldo Leme, que cobre a Fórmula 1 desde os tempos de Emerson Fittipaldi e acompanhou todos os títulos mundiais de pilotos brasileiros, comentou a polêmica e lembrou que o nome oficial do Autódromo é José Carlos Pace, em homemangem ao piloto brasileiro que venceu o GP do Brasil de 1975 e morreu em um acidente de helicóptero em 1977.
No cirucito há um busto de Pace próximo a uma das entradas. — Eu acho que é uma coisa meio natural, porque é um grande ídolo da maioria dos brasileiros, mas os outros todos mereciam, inclusive o José Carlos Pace, que dá nome ao circuito.
Mas esquecer de Piquet, de Emerson, o desbravador... Tinham que ser lembrados.
E tem também os vencedores, não é? Rubinho e Massa, que venceram 11 corridas de Fórmula 1, o que não é para qualquer um. Então todos eles tinham que sido lembrados assim numa homenagem.
O Brasil é Fórmula 1 por causa deles. Kimi Antonelli diante de painel de Ayrton Senna pintado pelo artista visual Kobra, em Interlagos
NELSON ALMEIDA / AFP Alonso e Verstappen falam sobre a polêmica
O assunto foi tema da coletiva de imprensa desta semana em Interlagos. Espanhol, o bicampeão Fernando Alonso deu sua opinião:
— Respeitamos o Brasil por causa dos grandes campeões, não só Senna. Ayrton tinha mais carisma, personalidade.
Talvez tivesse algo diferente dos outros campeões, não apenas pelas vitórias, porque todos eles conquistaram muito. Nelson também foi tricampeão mundial.
Mas Ayrton se conectava mais com as pessoas. Ou você tem isso ou não tem.
Pode tentar o quanto quiser se conectar com as pessoas e, às vezes, não consegue, porque não está sendo natural, não está sendo você mesmo. Acho que Ayrton não precisava disso.
Provavelmente essa é a diferença. Alonso, inclusive, contou que o nome de Emerson virou até uma expressão popular na Espanha, como referência à velocidade:
— Emerson é bastante popular porque costumávamos dizer, quando alguém chegava muito rápido a algum lugar: “Para onde você está indo, Fittipaldi?”. É como se perguntássemos: “Por que você está indo tão rápido?”.
Se você vai pegar um trem ou algo assim, “para onde você está indo tão rápido, Fittipaldi?”. Então, o Fittipaldi é sempre muito conhecido na Espanha.
Presente na coletiva, Verstappen também comentou o tema, mas sem se estender. Ele lembrou que Senna era paulista, sem levar em conta que, entre os campeões, Emerson também nasceu no estado.
— Os três têm personalidades muito diferentes, na minha opinião. Todos os três conquistaram muito no esporte.
Agora, naturalmente, o Ayrton também é paulista, então é normal que o apoio seja um pouco maior por aqui. Pintura em homenagem a Ayrton Senna foi inaugurada em 2020, no Autódromo de Interlagos
Divulgação Além de Senna, mural retrata pessoas reais: 'cidadãos que fazem São Paulo acontecer'
O mural localizado na curva do Laranjinha tem 225 metros de comprimento e 8,17 metros de altura e é intitulado “Nós Somos São Paulo”. Segundo o prefeito Ricardo Nunes, o painel simboliza a identidade da capital paulista:
— Aqui nós teremos retratos de inspirações do Ayrton Senna, da enfermeira, da gari, personagens da melhor idade, das nossas crianças, dos nossos estudantes — disse o prefeito Ricardo Nunes. Ao lado de Senna, foram retratadas pessoas reais, que representam diferentes atividades e trajetórias da população paulistana: a enfermeira Viviane Araujo Passos, o guarda civil Joseilson dos Santos Alves, a gari Daniele Cristina Pedro, o aposentado Adolfo Ferreira da Rocha e a estudante Ana Clara Rodrigues dos Santos.
Segundo a prefeitura, a proposta é destacar não apenas o tricampeão mundial, mas também o cidadão Ayrton da Silva e as histórias de quem, com seu trabalho e sua vida cotidiana, constrói a cidade. — Nesse mural, o Ayrton está ao lado de pessoas reais, que representam milhões de cidadãos que fazem São Paulo acontecer.
Quero que esta obra seja mais do que uma homenagem, quero que ela seja uma reflexão sobre pertencimento, respeito e cidadania — reforçou o artista. Kobra explicou que quis retratar Senna para além da figura do piloto, destacando sua identidade como cidadão paulistano.
— Eu já tive o privilégio de homenagear o Ayrton Senna em murais, em Ímola e em Miami, mas desta vez eu quis retratar não apenas o piloto, o ídolo, mas o Ayrton Senna da Silva, o cidadão, o ser humano por trás do capacete. Um paulistano como tantos outros que, com seu trabalho, suas histórias, suas lutas, ajudam a construir essa cidade todos os dias.
Além de Senna e dos cidadãos paulistanos, o painel reúne referências que ajudam a contar a história e a diversidade urbana de São Paulo, como o Pateo do Collegio, o Estádio do Pacaembu, o Theatro Municipal, a Oca do Ibirapuera, a Catedral da Sé, o edifício do Masp e o Monumento às Bandeiras.
O Globo