Cerca de 50 anos depois da fusão entre os antigos estados do Rio e da Guanabara, a nova derrota de Eduardo Paes (PSD) evidenciou a dissonância entre a capital e os demais municípios. O carioca nunca havia concorrido ao governo em situação tão favorável.
Vinha de mandatos bem avaliados, o PL de Douglas Ruas acumulava desgastes e o presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Ricardo Couto, estava como governador interino, o que deixou o partido do adversário sem a máquina. Mesmo assim, sofreu o revés ainda no primeiro turno e conseguindo a maioria dos votos em apenas 13 dos 92 municípios.
Após retotalização: Com 50,88% dos votos válidos, Douglas Ruas (PL) é eleito governador do Rio no primeiro turno Douglas Ruas: 'Missão está apenas começando', afirma governador eleito após retotalização no TRE-RJ
A eventual vitória não seria nada trivial. Além do desafio de minar a força do bolsonarismo em uma eleição casada com a nacional, deparava-se com um obstáculo histórico.
Não é comum, no Rio, o comandante da capital conseguir fazer da cidade um trampolim, mesmo com quase 40% do eleitorado fluminense concentrado nela. Concluída a apuração no último dia 4, essa realidade se impôs, e o que se viu foi uma vitória expressiva do agora governador eleito fora do município, o que compensou — com sobras — a vantagem do candidato do PSD em seu reduto.
Na Região Metropolitana, extremamente adensada e fundamental para o desempenho de qualquer candidato, Paes só venceu em Niterói, além da própria capital. O único prefeito a conseguir o feito foi Marcello Alencar, em 1994, mas em circunstâncias específicas.
Ele já tinha completado o mandato na prefeitura e migrado do PDT de Leonel Brizola, com quem rompeu, para o PSDB de Fernando Henrique Cardoso, que estava embalado pelo Plano Real. O adversário era de seu antigo partido, Anthony Garotinho, à época um jovem trabalhista de Campos dos Goytacazes.
Brizola estava no segundo mandato no Palácio Guanabara e registrava baixa aprovação naquele ano. Padrinho político de Eduardo Paes na década de 90, Cesar Maia também não conseguiu chegar ao governo depois da experiência municipal.
Em movimento parecido com o de Alencar, tinha sido forjado no brizolismo e rompido com Brizola antes de construir uma trajetória em partidos de centro e centro-direita. Em 1998, após finalizar dois anos antes um mandato na capital, Maia perdeu no segundo turno para Garotinho, já mais consolidado do que na disputa anterior.
O ex-prefeito de Campos, a maior cidade do interior, venceu em quase todos os municípios, enquanto o carioca, assim como Paes, se destacou na capital e em poucos outros locais. Depois daquela derrota, Maia foi eleito prefeito outras duas vezes.
Paes, surpreendido em 2018 pela onda bolsonarista que elegeu Wilson Witzel, também acabou voltando à cidade para novos mandatos. Do último, conquistado há apenas dois anos, saiu no meio para tentar novamente o estado — um movimento comum em outros lugares, mas até então inédito no Rio.
Com 50,88% dos votos válidos após retotalização, Douglas Ruas (PL) é eleito governador do Rio no primeiro turno No ano passado, o atual estado do Rio completou 50 anos.
Foi em 1975 que entrou em vigor a decisão da ditadura, à época presidida pelo general Ernesto Geisel, de fundir o antigo Rio e a Guanabara, que tinha status de cidade-estado depois da transferência da capital para Brasília, cerca de 15 anos antes. A maioria dos pesquisadores e políticos atribui o movimento de Geisel à tentativa de neutralizar a força política do PMDB, único partido legalizado de oposição ao regime, que tinha na Guanabara uma importante base.
Dois entes de culturas políticas distintas acabaram unidos, com reflexos até hoje. O ressentimento mútuo entre as partes permanece, afirma a historiadora Marly Motta, professora aposentada da FGV CPDOC e notória pesquisadora do tema.
Não é mero acaso, afirma, que o show da Madonna em Copacabana tenha aparecido na campanha de Douglas Ruas, político de São Gonçalo, como símbolo do perfil carioca de Eduardo Paes. É algo que alimenta, mesmo que inconscientemente, esse contraponto.
— O Rio foi capital do país, então o processo da fusão, anos depois, tem um impacto diferente do visto em outros estados que passaram por mudanças de território. Ambos os lados fundidos se sentem prejudicados.
A fusão foi percebida como uma perda — afirma a pesquisadora. — Uma cidade como Campos dos Goytacazes, por exemplo, era relevante no antigo estado do Rio, e depois virou só mais uma.
A capitalidade é até hoje um obstáculo ao pertencimento do resto do estado. Eduardo Paes e Cesar Maia, observa Motta, não eram apenas políticos da capital, mas lideranças que exerceram atuação muito voltada para “uma certa identidade carioca” e que se projetaram via prefeitura.
É diferente de Sérgio Cabral, que, embora carioca, teve na Assembleia Legislativa seu principal trampolim antes de conquistar o Senado e o governo. Baixada
Neste ano, nem mesmo o apoio de dez dos 13 prefeitos da Baixada Fluminense, por exemplo, fizeram Eduardo Paes ganhar em algum desses locais. Douglas Ruas venceu em todos.
Em 2018, contra Witzel, o carioca foi varrido no segundo turno com 19 pontos de diferença, mas conseguiu ganhar na capital, enquanto municípios da Baixada lhe impuseram derrotas com até metade dos votos do adversário. Apesar de Paes ainda não ter conversado a fundo sobre isso, aliados indicam que é muito improvável ele encarar, no futuro, outra disputa pelo Palácio Guanabara.
Além da derrota recente e a de 2018, ele concorreu em 2006, antes de ser prefeito e conhecido do eleitorado.
O Globo