Há cerca de dois meses, uma das pistas da Avenida Vieira Souto foi fechada às 22h de um sábado para operação invulgar: o içamento de um fogão de duas toneladas e meia ao 21º andar do prédio no número 460. No endereço, reabrirá em outubro o cinco estrelas Sofitel, e aquele forno era a cereja no bolo de uma reforma que já dura sete anos.
Fabricado manualmente e sob medida nas oficinas da centenária Molteni, em Saint-Vallier (sul da França), o equipamento custou US$ 2 milhões — é de longe, portanto, o fogão de restaurante mais caro do Brasil. E quem vai pilotar essa Ferrari dos fornos é Rafa Costa e Silva, cujo multiestrelado Lasai trocará uma casinha em Botafogo pelo topo do Sofitel assim que ele reabrir. O fogão só chegou ao topo do Sofitel após quase oito horas de trabalho. — A particularidade da operação é que não podia estar ventando. Quando começamos a subi-lo, à uma hora da manhã, começou a ventar muito. Tivemos que esperar até o limite máximo, às 3h, para tentar de novo, e deu certo — conta Rafa, como é conhecido, que foi duas vezes à França para acompanhar a fabricação da máquina: — Cada centímetro do fogão foi, literalmente, desenhado por mim e pelo Zigor (Sololuze, arquiteto espanhol que trabalha há anos no Lasai). Segundo a própria Molteni, é o projeto mais completo e complexo que eles já fizeram em todas as Américas. Nunca sonhei em ter um fogão desses, meu sonho era ter um fogão bem pior (risos)! (O projeto foi tão sob medida que o chef conseguiu incluir no desenho até um escudo do Flamengo, pelo qual é fanático). Transação O novo Sofitel é um dos principais projetos imobiliários do BTG Pactual no Rio. O hotel foi parar nas mãos do banco de André Esteves em 2024, em transação revelada pela coluna. Na ocasião, o BTG pagou R$ 1,7 bilhão por 18 prédios hoteleiros da rede da francesa Accor, entre eles o Fairmont de Copacabana.
A operação acabou viabilizando a retomada das obras do Sofitel, que vinham se arrastando, e o BTG chegou a colocar 700 pessoas para trabalhar no canteiro. Agora, só falta a finalização de dois andares. A Accor se desfez dos imóveis, mas seguirá operando os hotéis, inclusive o Sofitel. Segundo Michel Wurman, diretor da área imobiliária do BTG, além da compra do prédio, o banco investiu cerca de R$ 350 milhões na reforma do hotel. Antes, a própria Accor já tinha investido quase R$ 200 milhões, apurou a coluna junto a fontes de mercado. Poucos lugares O fogão do Rafa entrou nessa conta, e o chef explica o que ele tem de especial. Para começar, só dois restaurantes do Brasil têm um Molteni, parte do Electrolux Professional Group, entre eles o do Rosewood em São Paulo. Mas a configuração desses equipamentos é muito mais simples que a do Lasai. — São três partes. Uma delas é o fogão de cocção, com tudo o que eu pedi. Chapa, área para banho-maria, indução, gás etc. Nessa peça, há quatro buracos apenas para esterilizar as colheres com que os chefs provam os pratos. Outra peça é só para empratamento, com quatro placas independentes para aquecer os pratos durante a montagem, além de uma luz quente superior, estufas, congelador e geladeira. A última parte é uma robata, churrasqueira japonesa com três níveis de calor. Estamos agora à procura do melhor carvão do Brasil que seja semelhante ao carvão japonês… — derrete-se o dono do Lasai. E tudo isso para pouquíssimos comensais. O novo Lasai terá apenas oito lugares na mesa da cozinha, duas mesas de quatro lugares e uma sala privativa para oito pessoas. Ou seja, na lotação máxima, receberá apenas 24 pessoas. O novo Sofitel — que fechou as portas em 2019 e, até 2017, se chamava Caesar Park — terá 178 quartos e projeto arquitetônico de Patricia Anastassiadis, brasileira que se tornou referência internacional no desenho de hotéis de luxo.
O Globo