Em busca de empatia. Este é o cinema que move Asghar Farhadi.
Diante de um mundo muitas vezes cínico em que as diferenças entre as pessoas são colocadas em todo momento em evidência, o cineasta segue à procura de conexões. Um dos principais nomes do cinema iraniano, com dois longas vencedores do Oscar de melhor filme internacional — “A separação”, em 2012, e “O apartamento”, em 2017 —, ele chegou ao Brasil na sexta-feira para apresentar seu mais novo projeto no Festival do Rio.
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“Contos paralelos” acompanha Sylvie (Isabelle Huppert), uma escritora em busca de inspiração para seu novo romance. Reclusa, ela passa os dias em seu apartamento de Paris acompanhando a rotina dos vizinhos do prédio em frente.
É quando Adam (Adam Bessa), um jovem assistente, começa a trabalhar com ela e passa a desenvolver o mesmo tipo de interesse voyeurístico com relação aos vizinhos. O elenco conta ainda com nomes como Vincent Cassel, Virginie Efira e Catherine Deneuve.
O filme tem última sessão na programação do festival amanhã, às 16h, no Estação Claro Gávea, e entra em cartaz nos cinemas no dia 12 de novembro. Após lançar “Um herói”, vencedor do Grande Prêmio do Festival de Cannes, em 2021, Farhadi decidiu não mais filmar em seu país em razão das dificuldades impostas pelo governo local.
O cineasta conversou com O GLOBO num hotel de Copacabana, na Zona Sul do Rio, sobre o novo projeto, a relação com a terra natal e os sentimentos com relação à guerra entre Irã e Estados Unidos. O que te levou à história de ‘Contos paralelos’?
Há cinco anos, minha agente americana me mandou um e-mail falando sobre o projeto de fazer uma série inspirada em “Decálogo”, de Krzysztof Kieslowski. Inicialmente, eu recusei porque sempre escrevo meus roteiros e sou responsável pelas minhas ideias.
Meses depois, recebi uma mensagem de que Krzysztof Piesiewicz, roteirista que trabalhava com Kieslowski, queria falar comigo. Fizemos uma reunião por Zoom e ele me disse que a ideia não seria fazer uma refilmagem, que eu poderia pegar um episódio como fonte de inspiração, então eu disse que iria pensar.
Após “Um herói”, eu e meu irmão (Saeed Farhadi, corroteirista) começamos a pensar na ideia de uma pessoa que acompanha a vida dos vizinhos por um telescópio (trama presente em “Decálogo: seis”) e o conceito foi crescendo em nossas mentes. Isabelle Huppert em cena de "Contos paralelos", de Asghar Farhadi
Divulgação É seu segundo longa rodado na França.
Você também tem um trabalho na Espanha. Como é trabalhar fora do Irã e em outras línguas?
A minha preferência é sempre trabalhar com minha língua e cultura, mas às vezes tem uma ideia que te faz pensar como seria o resultado fazendo em outra língua. O meu processo de escrita e direção é o mesmo, mas, quando trabalha com outras culturas, você acaba tendo mais trabalho, especialmente nos detalhes sobre a vida ordinária.
Quando filmo na França sempre procuro compartilhar ideias com os atores e a equipe francesa, porque não quero que o filme pareça como se fosse feito por um estrangeiro. Mas, no set, meu trabalho com os atores é sempre igual.
Eu chego a esquecer que estou em um país diferente. Ouvimos sobre dificuldades impostas a artistas no Irã.
Pode falar um pouco sobre a situação do cinema lá? Existem dificuldades, mas ao mesmo tempo temos muitos artistas que tentam, apesar de tudo, encontrar um modo de não parar.
É sempre um desafio, e você sente este desafio em suas obras. Apesar das dificuldades, você segue vivendo no Irã.
Como é isso para você? Eu moro lá, minha família é de lá, é minha casa.
Quando faço um filme fora, eu volto pro Irã no dia seguinte em que o projeto acaba. Em “Contos paralelos”, terminei a pós-produção do filme às 13h e, às 17h, eu tinha passagem marcada para o Irã.
É onde moram minhas filhas, minha esposa, meus pais, meus amigos. É onde eu prefiro estar.
Vemos isso em muitos artistas iranianos, que mesmo perseguidos decidem voltar ao país. Lá, a vida faz sentido, apesar de todas as dificuldades.
Quando eu saio na rua e vejo as pessoas, eu aprendo com elas. Eu preciso estar lá.
Acho que é importante que você esteja conectado com a sua essência, com sua cultura. É uma decisão emocional.
Como tem sido a vida no Irã diante com o conflito do Estados Unidos? Tem sido um período triste.
Esta guerra é triste e sou contra ela. A guerra não é a solução, ela torna os problemas mais profundos e fortes.
Espero que a guerra acabe em breve. A situação econômica está muito dura.
Ninguém quer ver uma nação estrangeira atacando seu país. Asghar Farhadi em visita ao Rio de Janeiro, em outubro de 2026, para apresentar "Contos paralelos" no Festival do Rio
Ana Branco / Agência O Globo Você tem sentimentos mistos sobre ver seu país sendo atacado e ao mesmo tempo não se relacionar com o governo local?
Sim, muitas pessoas como eu vivem essa situação um pouco paradoxal. Somos sempre contra a guerra, especialmente uma que matou muitas pessoas, e ao mesmo tempo temos problemas com algumas regras do país.
Hoje em dia, você consegue exibir seus filmes no Irã? Depende, quando você tem autorização para filmar lá, você tem a permissão para exibir nos cinemas.
Meu filme feito na França não teve autorização para ser exibido lá. Mas, hoje em dia, as pessoas conseguem assistir pela internet.
É sua primeira vez no Brasil. Já tinha alguma relação com a cultura ou o cinema do país?
Como todo mundo, eu conheço o Brasil pelo futebol. E já assisti a muitos filmes brasileiros, tenho amigos brasileiros que trabalham com cinema.
“Cidade de Deus” é um filme que amo, e gosto muitos dos trabalhos do diretor (Fernando Meirelles). E o último que vi foi “Ainda estou aqui”, um trabalho incrível de atuação e narrativa.
Gostei muito. Tem novo projeto em mente?
Estou escrevendo meu próximo filme e se tudo der certo irei filmar no ano que vem. Será na minha língua, o farsi, com atores iranianos, mas ainda estou pensando onde vou filmar.
A vontade é de continuar contando histórias iranianas fora do Irã? Sim, exatamente.
Este é o meu plano. O que você está buscando como artista hoje?
Meu objetivo com meus filmes é criar empatia entre as pessoas. Fico muito feliz quando as pessoas veem meus filmes e falam: “Eu entendi estes personagens”.
Mesmo que você não concorde, se você entende, o resultado é bom. Como pensar em empatia num mundo que muitas vezes parece cínico?
A maior parte dos problemas vem do fato de que as pessoas não sabem nada sobre outros países. Parte das pessoas parece gostar mais de destacar nossas diferenças do que semelhanças.
Com o cinema é diferente. Quando mostro um filme em Cuba, vejo que as pessoas entendem a obra como a plateia no Irã.
Acho que, no mundo, somos mais parecidos do que diferentes. E acho que cabe ao cinema mostrar isso.
O Globo