"Não foi no meio, nem no fim do tratamento de um tumor de mama da Dânia, minha esposa, que notei que tinha algo estranho acontecendo. Não fui eu que notei isso, aliás, foi o médico durante uma das primeiras consultas em que a acompanhei.
Ele disse: “olha, que legal que você está vindo aqui nas primeiras consultas!”. Na ocasião, eu fiquei surpreso e minha esposa também, porque em geral somos elogiados quando fazemos algo extraordinário, fora do que é esperado.
E como eu, digamos, levo muito a sério aquela história do “na saúde e na doença”, pra mim isso não era exatamente algo diferente. A partir daí, quando íamos fazer as novas consultas e os tratamentos quimioterápicos e radioterápicos, começamos a perceber que realmente não havia presença masculina nos locais.
Ou seja, quando a mulher vai para uma consulta ou para os tratamentos oncológicos, ela é acompanhada por outras mulheres. A mãe, a tia, a filha, a irmã, a colega de trabalho.
O homem, porém, quando vai fazer os tratamentos, é acompanhado pelas mulheres — pela mãe, pela irmã, pela filha e, muitas vezes, pela ex-companheira. Começamos a ter esse olhar sobre o tema e isso nos incomodou.
Nos ambientes hospitalares não era comum a presença masculina, apenas quando eram pacientes. Mas algumas pesquisas indicam que os casais mais jovens têm menos esse problema de abandono.
Conforme, porém, o casal vai envelhecendo parece que o homem diz: há outras mulheres para cuidar de você. O segundo momento em que eu notei que não tinha realmente com quem comentar sobre o tratamento da minha esposa foi em eventos de família.
Neles, as mulheres conversavam com a Dânia sobre os tratamentos e os homens ficavam de fora. É como se fosse uma coisa muito mais incômoda para eles do que para as outras pessoas.
Me vinha uma reflexão: “nossa, o que acontece no consultório acontece na família também”. Eu pensava que a Dânia poderia estar recebendo apoio de outras pessoas.
Foi um longo tratamento, 19 anos. Tenho arrepios de lembrar.
No meu livro, “Quando os homens não abandonam na doença: o que aprendi sobre amor, câncer, sexismo e solidão” (editora Vestígio) escrevi um capítulo sobre como as celebridades lidam com tratamento de câncer e (em anúncios de cura, por exemplo) acho isso danoso. Nestes 19 anos o tratamento dela foi de idas e vindas, foram oito recidivas.
Ela era muito ativa, buscava outras pessoas que tinham câncer também para contar da experiência dela. Quando teve o primeiro nódulo, estava muito segura e tranquila.
Mesmo porque os médicos disseram muito que a idade dela favorecia o prognóstico. O tipo do câncer dela também era altamente tratável.
E eles diziam muito claramente que o câncer dela seria um tratamento como o de uma doença crônica. Falavam que não seria esse câncer que a levaria à morte.
No final das contas, depois dos 19 anos, ela teve uma metástase de um outro tipo de câncer. Ainda assim, batalhamos por três anos.
Ela, porém, ficou muito desapontada quando teve uma recidiva quatro anos e 10 meses após o primeiro tumor. Se em cinco anos não aparecer recidiva, você está curado, dizem.
Imagine a decepção e a tristeza dela quando bateu na trave. Esse foi um dos momentos mais doloridos, de maior angústia que tivemos.
Depois disso ela teve outras seis vezes. Descobrimos que essa coisa de “cura” é uma bobagem.
Falar em cura numa doença tão complexa é uma forma de se iludir e deixar de ter cuidados fundamentais, como a vigilância. Ela era daquelas pacientes que quando vão ao consultório os médicos têm até um certo receio.
Chegava com muita informação, muita vontade de entender o que estava rolando. Eles tinham que estar preparados para trazer respostas.
Fomos descobrindo, por exemplo, que o tratamento do câncer tem avançado muito. É extraordinário.
Não tenho dúvida que melhorou muito. Depois que ela se foi (Dânia faleceu em 2022, aos 54 anos), fui tratar de mim mesmo, do meu próprio luto e fui fazendo pesquisas, nisso fiquei um pouco revoltado.
Mesmo ainda no tratamento, perguntava aos médicos se a imunoterapia já tinha chegado para o câncer de mama, mas naquele momento estava no desenvolvimento de pâncreas, no pulmão. Não tenho dúvida que a imunoterapia será uma revolução no câncer de mama, mas a falta de investimento nessas áreas impediu que a Dânia, na época, usasse desse tratamento.
Me senti solitário de verdade quando a Dânia morreu. As primeiras pessoas que eu fui procurar foram os meus amigos homens.
Nesse sentido, me senti completamente desamparado. A ideia deles era beber, ir atrás de mulherada, para festas, uma ideia de “bola para frente”.
Ainda bem que eu tinha amigas mulheres, para quem chorei as pitangas. E digo mais, os amigos homens da Dânia a deixaram no fim da vida.
Falar sobre sexualidade no câncer é algo complexo. Levei pelo menos quatro anos dialogando com a Dânia, perguntando se podia abordar isso no livro.
Com medo da exposição. De qualquer maneira, no fim (há um capítulo sobre o assunto no livro), fico pior na fita do que ela.
Acho que foi uma das coisas mais tristes que eu, enquanto homem, me dei conta. Não me considero um marido relapso nessa área da sexualidade, não fui.
Fui um marido sem noção por não conversar com ela. A nossa vida sexual antes do câncer era bastante satisfatória.
Depois continuou também, mas ainda me pego pensando porque não conversamos sobre isso. Acho que tentamos resolver as coisas de maneira “masculina”.
Tentando fazer funcionar, quando na realidade o melhor seria falar sobre. O que mudou foi o físico: não poderíamos exigir dos nossos corpos o mesmo que de um organismo saudável.
Nós, homens, temos enormes dificuldade em falar sobre sexo quando as parceiras estão sãs, imagina doentes. Confesso que é uma das coisas das quais mais me arrependo.
Mas nesse processo, tivemos nosso filho. Hoje com 19 anos.
Homens que passam pelo mesmo cenário não me procuram. Um amigo me disse que tinha outro amigo passando pela mesma situação, mas que estava com medo de dar o livro para o casal e eles ficarem emocionados.
Acredito que meu livro seja justamente para quem está acompanhando um tratamento agora. Primeiro, caso o sujeito esteja fazendo a coisa certa, beleza, vai se reconhecer.
Segundo, caso esteja fazendo errado, vai corrigir. A editora me perguntou para quem era esse livro.
Eu disse que era para os homens. A resposta dela foi: “o livro não será para os homens, mas para as mulheres.
São elas que vão entregar o livro para eles lerem.” É algo que os incomoda, sei disso porque me incomoda até hoje. Mas acho que só há um jeito de transformar os tabus: indo de grão em grão."
O Globo