No Dia da Padroeira, Luiz Antonio Simas lança livro sobre as diferentes versões de Maria na cultura popular

No Dia da Padroeira, Luiz Antonio Simas lança livro sobre as diferentes versões de Maria na cultura popular - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Criado pela avó Haydeé da Silva Grosso, a ialorixá Mãe Deda, que tinha uma casa de santo em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, o historiador e escritor Luiz Antonio Simas recorda a devoção da matriarca por Nossa Senhora do Carmo, sem qualquer contradição entre as duas demonstrações de fé.

O interesse sobre a crença na Virgem Maria no Brasil em seus mais diversos títulos e manifestações, como Nossa Senhora da Glória, de Nazaré, das Dores, de Fátima, da Penha, dos Navegantes, da Conceição (padroeira do seu time, o Botafogo), da além da do Carmo e, claro, Aparecida, foi o ponto de partida de seu novo livro, “Tantas Marias: Nossa Senhora na cultura popular” (Civilização Brasileira), com lançamento nesta segunda-feira (12), Dia da Padroeira, a partir das 14h, numa aula pública, seguida de sessão de autógrafos, no Bar do Bode Cheiroso, no Maracanã, Zona Norte do Rio.

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A pesquisa teve início para a escrita do livro “Santos de casa” (2022), com muito material não utilizado sobre as tradições marianas no país e no exterior. No ano passado, quando estava escrevendo um livro sobre São Jorge (“O santo do povo e o povo do santo”, lançado em abril), surgiu a ideia de fazer um só sobre Maria e sua importância no campo da cultura popular brasileira.

— Fiz a pesquisa (para “Santos de casa”) na pandemia, e fiquei com muita coisa de Maria acumulada. O livro tinha uma característica mais de almanaque, e abordei nele só Nossa Senhora Aparecida, de Nazaré e da Penha.

Depois fui organizando esse material e vi que Maria merecia esse ensaio — conta Simas. — Mas não é uma biografia a partir dos Evangelhos, é um olhar sobre como ela é representada e reverenciada na dia a dia.

Não debato a veracidade das aparições, os milagres, estou pensando nela aqui nesse chão da cultura popular. Luiz Antonio Simas fotografado próximo à Praça Afonso Pena, na Tijuca, Zona Norte do Rio

Guito Moreto Entre as citações da presença da mãe de Jesus Cristo na cultura e na vida brasileira — que incluem da gravação de 1990 de Jorge Aragão improvisando, ao cavaquinho, a “Ave-Maria de Gounod” à mística da camisa azul da Seleção Brasileira, definida de última hora antes da vitória contra a Suécia, na final da Copa de 1958, com o chefe da delegação brasileira, Paulo Machado de Carvalho, dizendo ao time que era “uma homenagem ao manto de Nossa Senhora Aparecida” para afastar as superstições remanescentes do Maracanazo de 1950 — , Simas abre o livro mencionando o julgamento final de “O Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna.

Na passagem, o personagem João Grilo apela, em versos de cordel, à intercessão da Virgem Maria junto ao filho, como o último recurso para que não seja mandado às chamas eternas. — A partir do “Auto da Compadecida”, eu lanço uma indagação inicial: qual o papel que Maria ocupa? Houve todo um debate sobre isso na Antiguidade, porque a Igreja Católica diferencia a adoração e a veneração, com a adoração dedicada só a Deus.

Mas, por ser a mãe terrena do Deus Encarnado, ela passa a ser considerada hipervenerável, acima dos santos — explica o escritor. — Os santos são mediadores com o divino para determinadas causas: São Longuinho para encontrar coisas perdidas, Santo Antônio é o casamenteiro etc.

Mas Maria é uma supermediadora, por isso João Grilo diretamente recorre a ela. E não clama por justiça, mas por misericórdia.

E ela, como mãe, se compadece. O Suassuna fala ali da nossa noção de justiça também, Maria não é implacável no julgamento, é misericordiosa.

Fernanda Montenegro como Nossa Senhora e Maurício Gonçalves como Jesus Cristo, na versão de 'O Auto da Compadecida', de Guel Arraes (2000) Divulgação

Além dos cruzamentos com a cultura, Simas mapeia no livro as encruzilhadas do catolicismo popular e a religiosidade de matriz africana. — Seu Sete Rei da Lira, a entidade mais famosa da umbanda do Rio, dizia que era devoto da Virgem Maria.

As giras começavam com “Ave-Maria de Gounod” e, só depois, entrava a curimba. Ele se dizia católico romano, um exu católico romano — pontua o escritor, citando a entidade incorporada por Mãe Cacilda de Assis (1917-2009).

— Da mesma forma, minha avó via com a maior naturalidade ser mãe de santo e devota de Nossa Senhora do Carmo, assim como muitos brasileiros. Isso é parte de nossa religiosidade.

Coincidentemente este ano, o segundo domingo de outubro, data de celebração do Círio de Nazaré em Belém (PA), uma das maiores procissões marianas do mundo, caiu ontem, véspera do feriado de Nossa Senhora Aparecida: — Conheço gente ateia no Pará que é devota de Nossa Senhora de Nazaré.

E lá você deseja Feliz Círio da mesma forma que Feliz Natal, é outro ponto alto do calendário. Como era no Rio a Festa da Penha, em outubro, que ainda existe, mas no passado tinha mais força e era um pré-carnaval.

Os sambistas mostravam seus sambas na Penha para ver o que iria estourar no carnaval. Polêmica eleitoral

Ao começar a escrever “Tantas Marias”, Luiz Antonio Simas não poderia imaginar que Nossa Senhora Aparecida estaria no centro de uma das maiores polêmicas das eleições de 2026, com ataques de parte a parte, envolvendo citações a um projeto de lei, arquivado em 2008, que propunha a troca de “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”, e acusações de tentativas de desinformação a partir do caso.

Da imagem encontrada em 1717 por três pescadores no Rio Paraíba do Sul, em São Paulo, Aparecida se conectou imediatamente com o catolicismo popular, mas tornou-se padroeira apenas em 1930, com um decreto do Pio XI. Já o feriado de 12 de outubro foi promulgado só 50 anos depois, pelo então presidente João Figueiredo.

— O Brasil tinha um padroeiro, São Pedro de Alcântara, muito ligado à monarquia. Acredito que a República tinha necessidade de criar novos símbolos, em contraposição aos anteriores.

Aparecida sintetiza uma certa ideia de Brasil — comenta o autor. — Quando o livro estava pronto para rodar, surgiu isso (a questão eleitoral).

Mas achava que não tinha sentido incluir porque não é um livro circunstancial, a pegada é outra. Tanto que também não quis abordar o chute na imagem de Nossa Senhora Aparecida (em 1995).

Mas há essa disputa antiga no espaço da fé, que por vezes descamba para o racismo religioso, muito sentido nas religiões de terreiro. Aparecida é negra, Nossa Senhora de Copacabana e de Guadalupe têm características indígenas.

Capa de 'Tantas Marias' Divulgação

As duas últimas também são citadas no livro por darem nomes a bairros cariocas, situados na Zona Sul e na Zona Norte, a partir de referências de fé latino-americanas: Nossa Senhora de Copacabana é padroeira da Bolívia, e Nossa Senhora de Guadalupe, do México e da América Latina. — Um bairro é o cartão-postal e o outro é o subúrbio, mas com essa referência de Maria.

Darcy Vargas, mulher de Getúlio, era devota de Nossa Senhora de Guadalupe, e quando ele começa a construir lá os conjuntos habitacionais, o nome fica. Já Copacabana passa a ser batizada pela capela construída (no século XVIII) para abrigar a imagem trazida por comerciantes peruanos, chamada de La Morenita — contextualiza Simas.

— O interessante é que Maria não embranquece a tradição indígena, há uma “indianização” ao se manifestar dessa forma. Maria é a alteridade, se conecta com a cultura de cada lugar.

É um elemento de diversidade. 'Tantas Marias'

Autor: Luiz Antonio Simas. Editora: Civilização Brasileira.

Páginas: 128. Preço: R$ 59,90.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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