No Catete, o bar que eu não descobri

No Catete, o bar que eu não descobri - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Quando alguém descobre que escrevo sobre botequins, costuma pedir uma indicação à espera de um endereço secreto, recém-inaugurado, ainda fora dos guias e do TikTok. Costumo decepcionar: minha vocação é quase a oposta, pois gosto de indicar o que está aberto há décadas, muitas vezes na rua por onde a pessoa passa todos os dias. Não procuro novidades. Prefiro descobrir, com atraso, o que já estava lá. Foi assim que cheguei ao Maio Bar, na Rua Buarque de Macedo, no Catete. São 12 metros quadrados, sem mesas nem cadeiras, daí o apelido “Bunda de Fora”. Quem vai precisa encontrar lugar no balcão ou se arranjar como pode, mas não há motivo para transformar a falta de espaço numa virtude. O Maio não é uma instalação artística sobre o Rio antigo: é um comércio que precisa funcionar, pagar as contas e servir seus fregueses. Sua graça não está em representar um tempo que passou, mas em fazer parte do presente. Minha experiência ali ainda se resume a um croquete, delicioso, e ao chope, que por si só já justifica a visita: gelado, saboroso, muito bem tirado e servido numa tulipa reta. Minha maior frescura de botequim: prefiro a tulipa reta àquela bojudinha, que nunca me agradou. Um pé-sujo que trata bem o chope ganha muitos pontos comigo. Não provei a feijoada, muito elogiada, nem o pastel de camarão, que tem seus defensores entusiasmados. São dois bons motivos para voltar. Não dá para julgar a cozinha por um croquete, mas ele e o chope me fizeram querer passar mais tempo naquele balcão. Soube da existência do Maio por Eduardo Freitas, o Preá (@preah__ nas redes), que faz um trabalho precioso de inventário de bares tradicionais e populares, aqueles que servem à classe trabalhadora. Em 2022, percorreu Copacabana e reuniu 75 endereços. Agora, mapeou o Catete em mais um de seus “roteiros ébrio-etnográficos” (veja no site). Preá é sociólogo, fotógrafo, usuário de botequim e, por coincidência, pai de Inácio, amigo e colega de sala da minha filha Teresa. Um homem com quem compartilho, indiretamente, a rotina de uma turma de escola acabou me apresentando um lugar que faz parte da rotina de outras tantas pessoas. A cidade encontra maneiras inesperadas de aproximar seus habitantes. Não se trata de um guia dos melhores bares, com estrelinhas para a comida ou notas para o atendimento. Preá olha para o que um botequim representa na vida de uma rua: quem trabalha ali, quem aparece todos os dias, as conversas, os silêncios, a freguesia que muda e a que permanece. E não precisa fingir que todos esses lugares são acolhedores, bonitos ou democráticos. Registrá-los não exige que se ignore seus poréns. Há uma ideia de Preá de que um botequim não se inaugura pronto: é a freguesia que o constrói ao longo do tempo. Pensei nisso diante do balcão do Maio. Adilson, o dono, passa seus dias num espaço onde mal cabem algumas pessoas; Preá percorre ruas inteiras para encontrar lugares como aquele. Enquanto um vê a cidade chegar até o balcão, o outro vai atrás dela, com a câmera e o caderno. De maneiras diferentes, ajudam a preservar uma coisa que não se fabrica de uma hora para outra: a vida que se acumula nesses lugares. Chamar isso de descoberta seria uma pretensão. O Maio estava lá antes de eu começar esta coluna e continuará sendo o bar de seus fregueses, não dos que o encontram por indicação. Mas é bom que alguém se ocupe de reparar no que sobrevive à nossa distração. E que, vez ou outra, essa pessoa nos leve até um balcão onde o chope é bem tirado e servido na tulipa certa para cada um.

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