No campo, a IA ajuda a detectar pragas em lavouras e controlar cabeças de gado

 

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A inteligência artificial (IA) já faz parte da rotina de 41,9% das fazendas e agroindústrias no Brasil, segundo estimativa elaborada pelo professor Oscar Burd, da Fundação Getulio Vargas (FGV). Em 2022, esse índice era de 16,9%. Para chegar a esse número, o especialista cruzou dados de levantamentos do IBGE (Pintec Semestral 2024), Sebrae, Organização Mundial da Propriedade Intelectual (Ompi) e consultorias especializadas em agtechs.

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— A velocidade surpreende. Enquanto tecnologias anteriores, como o GPS, levaram décadas para se massificar, a IA saltou de uma curiosidade experimental para uma ferramenta de core business em menos de cinco anos — diz Burd.

Segundo ele, a IA deixou de ser exclusividade de grandes grupos e foi “democratizada" com aplicativos, plataformas e tecnologias embarcadas em equipamentos:

— Hoje, tratores de baixa potência já saem de fábrica com sistemas de monitoramento inteligentes, e startups oferecem soluções de IA como serviço (SaaS), que permitem ao pequeno produtor acessar diagnósticos via smartphone.

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A tecnologia tem múltiplas aplicações na rotina das fazendas, como no manejo das lavouras, na criação de animais e na gestão do negócio.

Com digitalização, quase tudo pode gerar dados, que são processados pelos programas de IA. A partir daí, a tecnologia os relaciona com bases de informação disponíveis e gera recomendações para as atividades produtivas.

Volta aos ‘bons tempos’

A SLC Agrícola, uma das maiores produtoras de grãos no país, entrou na “Era da IA” entre 2017 e 2018. Segundo o diretor de Tecnologia do grupo, Rafael Rosa, a IA permeia diversas atividades, com aplicativos e programas embarcados em equipamentos (maquinários, drones, sensores, balanças, silos etc.).

O principal benefício, diz, reside na análise de grandes volumes de dados para permitir tomada de decisões mais rápidas:

— Apenas um trator pode gerar um milhão de dados por dia. Mas, além deles, temos dados de sensores, satélites, drones e outros milhares de equipamentos.

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Na gestão agronômica, os benefícios são a detecção de pragas e doenças por imagem em tempo real para pulverização seletiva, previsão de estresse hídrico por lote e carências nutricionais das plantas.

Já o produtor rural Tasso Jayme vê na IA a possibilidade de retomar os “bons tempos da pecuária”. Ele tem 2,5 mil cabeças em Goianésia (GO), a cerca de 170 km de Goiânia, além de 4 mil hectares de lavouras de soja e cana.

— Estou na pecuária há 50 anos, desde a adolescência. Antes era minha principal atividade, mas há alguns anos ficou complicado. As novas tecnologias podem trazer de volta os bons tempos — diz Jayme.

O produtor rural Tasso Jayme vê na IA a possibilidade de retomar os “bons tempos da pecuária”

Arquivo pessoal

Ele começou a usar a tecnologia em fevereiro: um drone com visão computacional que identifica as melhores áreas e o volume de sementes exato para o plantio de pasto:

— Com IA, conseguimos localizar as áreas ideais para lançar as sementes sobre as áreas de soja. Assim, o pasto vai aproveitar a adubação. O drone fez imagens para indicar as necessidades de calagem, adubação e número de cabeças (de gado) por hectare — conta.

Para o pecuarista, quem não adotar a IA vai ficar para trás.

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Mas há entraves estruturais. Um deles é a conectividade. Embora a cobertura 4G e 5G em imóveis rurais tenha alcançado 43,8% em 2024, segundo a ConectarAgro, mais da metade das propriedades ainda depende de soluções offline ou conexões via satélite.

— A tecnologia pode ser sofisticada, mas sem conectividade ela simplesmente não chega ao campo — diz Burd.

Segundo ele, outro obstáculo é a escassez de profissionais capazes de interpretar os dados e as recomendações produzidos pelos sistemas de IA.