Nívea Maria se redescobre no teatro após mais de 60 anos de profissão dedicada principalmente à TV
Houve ocasiões, por volta das décadas de 1960 e 1970, em que Nívea Maria participou de pelo menos duas novelas por ano. Terminado um folhetim, lá estava ela, plim!, plim!, em mais uma trama inédita na tela. Rosto, corpo e voz forjados artisticamente na televisão — são 62 anos de carreira e quase 70 trabalhos em diferentes emissoras —, a paulista pisa num tablado de teatro com o cuidado de quem desembrulha uma novidade. Nos últimos anos, pela primeira vez na profissão, ela tem se aventurado por mais peças do que produções televisivas. Está aí uma baita redescoberta.
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— O público de TV às vezes cristaliza um ator, colocando-o no “pedestalzinho” de um personagem. E assim todos se surpreendem quando faço alguma coisa nova — considera a artista, aos risos. — O teatro me oferece mais oportunidade de mostrar a atriz diferente que sou. Parece que estou começando a carreira de novo.
Em cartaz com ‘Querida mamãe’
A montagem de “Querida mamãe” — em cartaz até 28 de junho no Teatro dos Quatro, na Gávea, na Zona Sul do Rio de Janeiro — dá nova carga à voltagem emocional que iluminou os espetáculos “Ensina-me a viver” e “Norma”, levados à cena com a atriz em 2022 e em 2024 respectivamente. Nívea não crê em coincidências. Como nas obras citadas, todas centradas em embates entre figuras com visões opostas do mundo, a atual adaptação do premiado texto de Maria Adelaide Amaral, sob direção de Pedro Neschling, põe uma mãe conservadora frente a frente com a filha contestadora (papel de Regiane Alves).
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Originalmente montada em 1994 — com Eva Wilma e Eliane Giardini no elenco —, a dramaturgia aposta no “lugar da escuta” como o centro de gravidade do conflito entre as personagens, a despeito das rusgas e desavenças. Em tempos de permanente polarização nas famílias, o assunto ganha atualidade.
— Apesar de as discussões serem pesadas, tudo ocorre, na trama, na base da tentativa de compreensão. Ficar só em brigas significa perder tempo. Temos que ser felizes, porque a vida é muito curta. Mas a gente vê o oposto na sociedade, né? — lamenta a atriz. — Apesar de tanta modernidade, ainda existem pessoas, tanto homens quanto mulheres, apontando o dedo para as diferenças. E a peça mostra o quanto isso é fútil. Como diz a personagem que interpreto, “nada é eterno”. Tudo acaba, tudo tem um fim... Então, vamos viver o que a vida nos apresenta.
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Nívea discorre com conhecimento de causa. No início da carreira, aos 18 anos, a atriz enfrentou os preconceitos do pai — um advogado “rígido e moralista”, nas palavras dela — e ingressou escondida no elenco de “A moça que veio de longe”, sua estreia na TV, na extinta Excelsior. Dois anos mais nova, a irmã de Nívea, a também atriz Glauce Graieb, seguiu um caminho parecido, igualmente sem alarde. A mãe, pianista, era a única cúmplice das filhas. Acontece que os folhetins conquistaram, à época, audiências expressivas, e a notícia chegou, é claro, aos ouvidos do patriarca, que atuou, por certo período, como censor da Polícia Federal.
— Só o fato de optar pela profissão de atriz foi como abrir portas dentro de minha própria família, que tinha restrições aos artistas — repassa Nívea. — Após um tempo, meu pai entendeu minha personalidade livre e viu que eu tinha juízo para conduzir a vida. Hoje, abro essa questão para mostrar que todos nós temos nossas pedras no meio do caminho. E que a gente só não pode parar. Tem-se que ir em frente.
As atrizes Regiane Alves e Nívea Maria em cena da peça 'Querida mamãe'
Peterson Ramos/Divulgação
A “personalidade livre”, porém, nunca a impulsionou a se manifestar politicamente diante do público. Até hoje a atriz prefere deixar que determinadas escolhas pessoais falem por si, indiretamente.
— Não me pronuncio sobre alguns assuntos porque acho que isso não é a coisa mais importante. O que posso resolver, eu faço. O que não posso, deixo a coisa andar. Nunca flameei bandeira e até hoje acho que não vale a pena. Respeito muito o que os outros fazem. Mas acho que, através do meu trabalho, me imponho de um jeito legal, em todos os sentidos — exemplifica. — E isso veio não só com o fato de eu ter enfrentado meu pai, mas também com um dos casamentos que tive, e que foi muito curto (com o ator Renato Master, por um ano). Vivi toda a revolução de novidades que aconteceram na sociedade (nos anos 1960 e 1970), não só com relação às ideologias, mas com o olhar para a mulher.
Mãe de Edson, de 58 anos, Viviane, de 54, e Vanessa, de 45 (os dois primeiros são frutos do relacionamento com o ator Édson França; e a caçula, da relação com o diretor Herval Rossano) — e avó de três jovens —, Nívea vive sozinha há pelo menos uma década. E está felicíssima assim.
Atuar é ganha-pão
Aos 79 anos (“Esqueço a idade que tenho”, afirma), ela já tem garantida, oficialmente, a própria aposentadoria. Mas não pensa, jamais, em pendurar as chuteiras. O repórter pergunta se há algo de existencial no ofício de atriz, como se o trabalho fosse a pulsão maior da vida de um artista. Nívea ri e logo avisa que a aposentadoria é “muito baixa”, lembrando, afinal, que atuar é um ganha-pão.
— Tenho que trabalhar para isso. Não dá para parar. Trabalho para sobreviver — reforça. — Enquanto tiver memória, estarei disposta a tudo. Tenho uma cabeça boa e o prazer de fazer as coisas. Trabalhar é saúde para mim. É colocar-se em movimento.
A atriz Nívea Maria
Leo Aversa/Divulgação
Intérprete de uma longa lista de mocinhas em novelas bem-sucedidas — entre as quais “A moreninha” (1975), adaptação do romance homônimo de Joaquim Manuel de Macedo, e “Maria, Maria” (1978), a primeira trama de Manoel Carlos na TV Globo —, Nívea se entusiasma ao reconhecer que nunca ocupou o posto de “diva”. De glamour, ela constantemente fugiu. E continua assim.
— Sempre procurei não deixar que os outros endeusassem a minha figura só porque apareço na TV. Sou igual a qualquer outra pessoa. E adoro ter uma rotina normal: vou à rua, às lojas, ao mercado... — assegura ela, que criou uma conta no Instagram, mas “sem se preocupar com número de seguidores”, como ressalta. — Rede social é um negócio para os meus netos. Mas fico triste de ver as pessoas se perderem nesse universo em que não se ganha nada: nem alegria, nem saúde, nem dinheiro. Prefiro o olho no olho, bater papo, almoçar junto a amigos, tomar caipirinhas, dar risada... Tudo isso é mais gostoso do que ficar falando pelo Instagram.
‘Não dá mais para tanta farra’
Testemunha ocular das principais transformações na teledramaturgia ao longo de mais de meio século, Nívea sente que a tecnologia tem “abafado”, por vezes, o fundamento do labor artístico na tela. No teatro, a realidade é um pouco diferente. Exemplo: “Querida mamãe”, que cumprirá temporada em São Paulo a partir de agosto, é uma montagem praticamente sem firulas no tablado, com foco total na interpretação da palavra.
— Fazer TV hoje realmente é bem diferente de antigamente. A gente passou a trabalhar para a tecnologia. E, às vezes, o ofício artístico fica meio embaçado diante de tantos efeitos especiais e técnicas. Mas gosto de desafios — contemporiza ela, que recentemente rompeu um hiato de seis anos sem participar de uma novela, ao integrar o elenco de “Êta mundo melhor!” (2025).
Carolina (Nívea Maria), Filipe (Marco Nanini) e Augusto (Mário Cardoso) na Ilha de Paquetá em cena da novela "A moreninha" (1975)
Reprodução/TV Globo
De olho no debate sobre etarismo, Nívea se posiciona a favor de uma cobrança para autores comporem, mais e mais, tipos maduros bem desenvolvidos nas tramas. Se não há personagens idosos com arcos narrativos complexos em folhetins, “a televisão, naturalmente, deixa de chamar atores mais velhos”, como observa.
— Os autores devem valorizar, dentro de suas histórias, todas as gerações: o bebê, a menina, o jovem, o homem e a mulher madura e também os velhos. A novela tem que ser um leque aberto de personagens para o público conseguir se identificar ali — analisa.
Vida social ativa
Antenada com a “modernidade” — como a artista diz, ao citar recursos tecnológicos mais recentes, entre os quais o streaming —, Nívea evita afundar o corpo no sofá por longas horas. A vitalidade sustentada no palco é resultado de uma rotina rigorosa com o corpo e a mente, algo que inclui, além de exercícios físicos, leituras e mais leituras e uma vida social ativa, por que não?
— Ter acesso à informação, ou seja, estar atualizada com o mundo, é uma coisa que não me deixa quieta num canto. Preciso sempre me mexer, agir, falar, colocar-me... — lista. — E ponho minha cabeça para olhar mais as coisas positivas do que negativas. Acho que assim fico mais saudável um pouco, porque, olha!, o mundo não está fácil, não.
Na última semana, ao fim de uma das sessões de “Querida mamãe” acompanhada pelo GLOBO, a artista se desculpou diante da plateia pela voz levemente rouca. Ela enfrentava uma gripe, já 100% superada.
— Estar bem fisicamente não é milagre. Claro que me cuido, sabendo dividir o dia paraaproveitar o melhor da vida neste momento — detalha. — Não dá mais para tanta farra, tanta festa. Quero ter energia e saúde para o meu trabalho.
