Niterói usa tecnologia para identificar de onde partem disparos em tempo real

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Fonte da notícia: Extra Extra

No alto de prédios e postes de luz em Niterói, pequenas caixas que passam despercebidas pela maioria dos moradores monitoram a violência na cidade. São sensores acústicos capazes de identificar disparos de arma de fogo e enviar informações para uma central de segurança.

O sistema, chamado ShotSpotter, utiliza a técnica da triangulação para localizar a origem dos tiros e, com o auxílio de inteligência artificial e de especialistas em acústica, pode fornecer à polícia dados sobre o número de disparos, a quantidade de atiradores e até o tipo de arma utilizada.

Em 2025, a tecnologia identificou 1.290 disparos na cidade e contribuiu para a prisão de suspeitos envolvidos em tiroteios. Morre, após três meses internado, PM baleado no rosto na Avenida Brasil

Sul Fluminense: caminhão com duas toneladas de maconha é interceptado pela PRF na Dutra Dados consolidados a partir dos alertas emitidos pelo sistema em Niterói, obtidos pelo GLOBO, apontam que, em 2025, foram registrados 314 episódios de disparos de arma de fogo na cidade.

Os bairros com o maior número de tiros captados pelo ShotSpotter foram Engenhoca, com 341; Barreto, com 292; e Fonseca, com 274, todos na Zona Norte. As três localidades enfrentam confrontos intensos desde o ano passado, em meio à ofensiva do Terceiro Comando Puro (TCP) para tomar comunidades controladas pelo Comando Vermelho (CV), facção que mantém hegemonia na cidade.

Também foram registrados disparos no Centro (87), em Santa Rosa (55) e em Icaraí (49). De acordo com a prefeitura, todos os alertas emitidos pelo sistema após a identificação do estampido resultam em uma ação policial no local, imediata ou planejada, a depender da complexidade de acesso ao território.

Zona Sudoeste: suspeitos de envolvimento em assalto são detidos pela PM RIO_25-10_como funciona o sistema de detecção de tiros

Sete presos Na semana passada, um alerta gerado pelo ShotSpotter ajudou policiais do 12º BPM (Niterói) a prender sete suspeitos na comunidade do Santo Cristo, no Fonseca.

A equipe foi ao local após receber um aviso de tiroteio identificado pelo sistema. Ao chegar, encontrou um homem morto, com ferimentos a tiro, e um radiotransmissor ao lado do corpo.

Após buscas na região, os policiais localizaram sete homens escondidos em residências abandonadas. Os agentes também apreenderam três pistolas, dinheiro e drogas.

Segundo a Prefeitura de Niterói, nove alertas emitidos pelo sistema neste ano resultaram em prisões e apreensões. O secretário municipal de Ordem Pública, Gilson Chagas, afirma que a tecnologia tem ajudado a qualificar as operações policiais.

Ele também sustenta que esse recurso contribui para evitar o uso excessivo da força pelos agentes de segurança. Veja vídeo: Clínica de estética na Zona Norte do Rio é autuada após fiscalização encontrar produtos vencidos

— Nós proporcionamos à polícia condições de atuar de maneira mais efetiva, porque as incursões são feitas com base em um dado técnico e, assim, acabam sendo muito mais qualificadas. Os agentes sabem exatamente de onde está partindo o disparo.

Além disso, o sistema também me permite descobrir a sequência dos tiros, quem atirou primeiro e de que posição. Para a investigação policial, isso é ótimo, porque consigo estabelecer uma cronologia do que aconteceu — explica.

O sistema funciona por meio de sensores acústicos espalhados pela cidade que, ao detectarem um disparo, enviam dados geolocalizados para uma central. Com o auxílio de inteligência artificial, a tecnologia da empresa SoundThinking faz uma primeira análise e encaminha as informações a uma equipe especializada.

Os técnicos realizam uma segunda avaliação para verificar se há mais de um atirador no local, qual tipo de arma foi utilizado e se ela é automática. O procedimento é feito com base no som dos disparos.

Só depois dessa etapa o alerta chega à tela dos agentes do Centro Integrado de Segurança Pública (Cisp) de Niterói, que acionam o batalhão mais próximo para verificar a ocorrência. Todo o processo até o alerta chegar ao Cisp leva cerca de 20 segundos.

Segundo a prefeitura, a partir daí, são necessários mais 60 segundos para que a Polícia Militar seja acionada. A tecnologia foi implementada na cidade em maio de 2025, após um investimento de cerca de R$ 9 milhões.

Não foi, porém, a primeira vez que um sistema desse tipo foi implantado no Brasil ou no Estado do Rio. Em 2011, equipamentos capazes de detectar tiros foram instalados em uma área de seis quilômetros quadrados na Zona Norte da capital fluminense.

O sistema, no entanto, funcionou por menos de três anos e acabou abandonado. O investimento nos equipamentos, importados dos Estados Unidos, foi estimado em R$ 1,3 milhão.

Na época, a Secretaria de Segurança informou que o projeto havia sido interrompido devido ao alto custo. Para Pablo Nunes, diretor do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), a tecnologia pode distorcer os dados sobre a violência armada ao contabilizar disparos apenas nas áreas previamente delimitadas, sem oferecer um retrato completo dos tiroteios na cidade.

Ele também destaca que o sistema já foi abandonado por algumas cidades fora do Brasil devido ao alto custo e à falta de resultados efetivos no enfrentamento à violência. — Na prática, o que a gente tem visto é que as experiências acumuladas simplesmente não confirmam muitos dos benefícios prometidos.

No caso dos Estados Unidos, onde há mais cidades que testaram esse sistema por mais tempo, investigações já mostraram que o ShotSpotter não reduziu os disparos de armas de fogo e, em alguns casos, não ajudou na coleta de evidências para crimes. Esses resultados levaram, inclusive, cidades como Atlanta, Charlotte e Nova Orleans a abandonar o sistema.

É preciso ir além Nunes ressalta que o enfrentamento à violência armada no Rio exige medidas mais profundas.

— O problema da violência armada é grave e, no Rio de Janeiro, acontece de uma forma que não se vê em nenhum outro estado do Brasil. O ponto é que a existência dessas tecnologias não pode ser compreendida, por si só, como uma solução.

É necessário se perguntar quais são os problemas que estão na origem da violência armada — analisa. O sistema evoluiu

Atualmente, os sensores de detecção de tiros em Niterói cobrem uma área de 10,36 quilômetros quadrados, distribuída pelas zonas Sul e Norte. Segundo o secretário municipal de Ordem Pública, Gilson Chagas, o contrato prevê três anos de funcionamento, com possibilidade de prorrogação e ampliação.

Ele afirma, porém, que não há necessidade de estender a cobertura a todo o município. O secretário também ressalta que a tecnologia evoluiu desde as primeiras experiências com esse tipo de sistema no Brasil.

— Não teria motivo para tentar colocar isso na cidade inteira. Esse não é o objetivo.

A ferramenta não é para isso. Ela precisa ser instalada naqueles locais onde há maior incidência ou probabilidade de ocorrência, porque é um recurso público e temos que usá-lo com critério.

Sobre a questão de o sistema falhar e captar o que não é tiro, isso já evoluiu muito. A inteligência do sistema hoje diferencia até o barulho dos fogos daqui do dos Estados Unidos para poder filtrar corretamente.

É muito raro a gente encontrar um disparo que não seja de arma de fogo. De acordo com a prefeitura, 97% dos disparos alertados pela plataforma foram confirmados em campo pelos policiais civis.

Tecnologia implantada em Niterói identifica disparos na cidade em tempo real e contribui para a prisão de suspeitos envolvidos nos tiroteios.

Publicação Original Extra extra.globo.com
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